¿Memórias de um Sargento de Milícias¿, uma crônica do Rio

Esquetes de Manuel Antônio de Almeida retratam com humor e sarcasmo a vida carioca no começo do século 19

Marina Morena Costa, iG São Paulo

Com ironia, sarcasmo e bom humor, “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, conta as peripécias de Leonardo, o sargento do título, na cidade do Rio de Janeiro do começo do século 19. Originalmente publicado aos domingos no jornal “Correio Mercantil”, entre os anos 1852 e 1853, o livro tem muito a ver com o formato da publicação.

As “Memórias” eram publicadas em uma pacotilha, a versão do Correio Mercantil que circulava aos domingos. Mais leve e com um caráter de entretenimento, a pacotilha comentava comicamente os fatos do Rio de Janeiro então contemporâneos, trazia recados para personalidades, políticos e pessoas públicas, sempre com uma boa dose de humor.

“As ‘Memórias’ ecoam os comentários, as pílulas que eram publicadas na pacotilha”, destaca Mamede Mustafa, professor doutor da Universidade de São Paulo (USP) e autor da tese “Sob o Império da Letra: Imprensa e Política no Tempo das ‘Memórias de um Sargento de Milícias’”.

Apesar de também terem sido escritas no Romantismo, as “Memórias” são bem distintas dos romances de José de Alencar, escritor contemporâneo a Almeida. “O gênero é diferente, mais cômico e documentário. As ‘Memórias’ e os textos da pacotilha eram praticamente satíricos. O cômico apenas provoca, mas o satírico agride”, explica Mustafa. “Em termos de ousadia de linguagem era um humor bastante contundente.”

Durante a leitura, o professor recomenda prestar atenção na falta de um julgamento moral e nas ilegalidades que as personagens comentem. Prevaricação, perjúrio e roubo são algumas das peripécias do sargento. “Leonardo apronta, mas acaba sempre sendo perdoado”, aponta Mustafa.

‘Um brasileiro’

Publicado em livro em 1854 (primeiro volume) e 1855 (segundo volume), “Memórias de um Sargento de Milícias” tem estrutura de folhetim, capítulos autônomos, curtos e histórias com começo, meio e fim. No jornal, as aventuras saíram sem assinatura e na primeira edição em livro, o texto ganhou a autoria de “Um Brasileiro”.

Para Mustafa, há várias hipóteses para explicar a omissão da autoria de Almeida. “Provavelmente, no ambiente letrado da corte, que era pequeno, tudo mundo sabia quem era o autor das Memórias. Pode ser também que ele tenha optado por não assinar, por não considerar o texto bom. Ou talvez não interessasse assinar por motivos políticos”, elenca o professor e organizador da edição da obra publicada pela Editora Ateliê. Mustafa lembra também que na época não era raro escritores publicarem texto sem autoria ou usarem pseudônimos.

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