Maioria dos Estados está abaixo da média nacional no Ideb

Apesar de meta global ter sido alcançada no ensino fundamental e médio, ainda há Estados longe do desempenho ideal

Priscilla Borges, iG Brasília |

Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – avaliação criada pelo Ministério da Educação para aferir qualidade de ensino – confirmam: os números globais escondem enormes diferenças de desempenho educacional entre os Estados e os municípios brasileiros.

Em todas as três fases avaliadas pelo índice (4ª série/5º ano e 8ª série/9º ano do fundamental e 3º ano do ensino médio), pelo menos 16 dos 27 Estados brasileiros estão fora da média nacional de desempenho. Dados divulgados pelo MEC na quinta-feira mostram que as médias do País ficaram em 4,6; 4 e 3,6 nos anos iniciais, finais e médio, respectivamente.

As notas nacionais são superiores à meta estabelecida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para 2009. Mesmo considerando a previsão de notas mais baixas, muitos Estados ainda estão longe de atingi-las. No ensino médio, etapa que menos evoluiu desde que o Ideb foi criado, apenas 11 estados estão dentro da média nacional.

Paraná obteve o melhor desempenho. Com Ideb 4,2, superou a meta nacional prevista para 2009 (3,5) e as próprias metas. O Inep projetou o alcance dessa nota pelo Estado só em 2013. Desde 2005, quando o índice passou a ser medido, subiu 0,6 pontos. Santa Catarina aparece em seguida entre os melhores desempenhos na etapa, com 4,1 pontos.

Yvelise Arco-Verde, secretária de Educação do Paraná, diz que os resultados do Estado no ensino médio representaram um alívio. “Estamos investindo muito na área pedagógica, montamos diretrizes curriculares junto com os professores, após inúmeras discussões, trabalhamos muito na formação do professor. Ficamos sempre naquela angústia para saber se está dando certo. Ficamos muito felizes com o resultado”, comenta.

A secretária acredita que a valorização dos profissionais de educação aliada à oferta de condições de trabalho mais adequadas são as grandes responsáveis pelo sucesso na avaliação. “É preciso ter clareza de que os avanços no Ideb são muito lentos. Não é como promover avanço em uma escola. É uma transformação difícil, por isso qualquer acréscimo nos números representa muito”, afirma.

Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul estão empatados na terceira posição, com 3,9 pontos cada. São Paulo foi o único dos três que não apresentou crescimento no Ideb de 2007, quando havia sido avaliado pela última vez, para cá. Os outros apresentaram um pequeno aumento de 0,1 ponto. Espírito Santo, Minas Gerais e Distrito Federal vêm na sequência, com 3,8 pontos obtidos. O DF chama a atenção porque perdeu 0,2 pontos no Ideb em dois anos. Rondônia, Ceará e Acre também cumpriram os objetivos propostos para a etapa. Eles obtiveram índices 3,7; 3,6 e 3,5, respectivamente.

Rio de Janeiro abaixo da meta

Entre os Estados que estão longe do desempenho ideal no ensino médio, a maioria é das regiões Norte e Nordeste. Das outras regiões, estão na lista das unidades fora dos padrões de qualidade nacionais Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Goiás ficou com Ideb 3,4; Rio de Janeiro com 3,3 e Mato Grosso com 3,2.

De acordo com as projeções do Inep, o Rio deveria ter atingido nota 3,4 em 2009. Apenas em 2011 o Estado atingiria a média nacional atual, de 3,6. Agora, o desafio do Estado – que só cresceu 0,1 ponto nesses últimos dois anos, depois de ter perdido a mesma quantidade de pontos entre 2005 e 2007 – será muito maior.

Cada unidade da federação e município, individualmente, tem patamares de evolução programados a partir dos desafios de cada um. No entanto, muitos desses objetivos também deixaram de ser cumpridos. Além do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Roraima, Sergipe e Piauí não alcançaram as próprias metas.

Na quinta-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que o crescimento mais inexpressivo dos índices do ensino médio era “natural”. Ele atribui as dificuldades ao que chamou de “período de recessão educacional”. “O pior momento em proficiência em matemática e língua portuguesa foi o vivido pelos alunos dos anos iniciais em 2001. Esses são os alunos que agora estão no ensino médio. É natural que tenham mais dificuldades”, disse.

Paulo Renato de Souza, secretário de Educação do estado de São Paulo e ex-ministro da Educação, critica a postura de Haddad. “Achei lamentável a afirmação do ministro. Em 2001, o Brasil conheceu a universalização do ensino. Resgatamos quem estava fora para dentro da escola, avançamos muito lá atrás. Acho uma irresponsabilidade que ele diga isso”, afirmou.

Para o secretário, é preciso dar muita atenção ao ensino médio. Diversificar os currículos para atender os diferentes anseios dos jovens é a primeira providência a ser tomada pelos dirigentes na opinião de Paulo Renato. Ele defende a ampliação do ensino técnico e a oferta de atividades complementares, como curso de idiomas e esportes nas escolas.

Ensino fundamental

Os resultados do Ideb 2009 mostram que o desempenho do País no ensino fundamental superou as expectativas, especialmente nas séries iniciais. No entanto, a realidade não é a mesma em todas as unidades da federação. A situação mais confortável na maior etapa da educação básica do que no ensino médio não se estende a todos os Estados.

Na avaliação da 4ª série/5º ano do ensino fundamental, apenas 11 Estados estão dentro da média nacional – Ideb 4,6 – e, ao todo, 11 não cumpriram as metas previstas para o País em 2009. Todos são das regiões Norte (Amazonas, Amapá e Pará) e Nordeste (Pernambuco, Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Bahia e Alagoas).

Pará é o Estado com a nota mais baixa (3,6), mas conseguiu subir o índice em 0,5 ponto nos últimos dois anos. Melhorou as taxas de aprovação e as notas na Prova Brasil. Apesar das desigualdades entre os Estados, todos atingiram as metas individuais definidas para os anos iniciais do ensino fundamental.

Nas séries finais da etapa, o mesmo não aconteceu. Amapá, Rondônia e Pará não chegaram aos patamares de crescimento de qualidade propostos pelo Inep para 2009. Todos por diferença de 0,1 ponto. Os três estados têm médias inferiores às nacionais, que estão em 4 e superaram em um ponto a previsão de resultados para 2011.

De fato, apenas 11 unidades da federação estão na média nacional na 8ª série/9º ano do ensino fundamental: São Paulo, Santa Catarina, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Acre, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Goiás. Tocantins, Ceará, Piauí, Rio de Janeiro, e Roraima também atingiram a meta nacional. O restante – que pertence às regiões Norte e Nordeste – não conseguiram cumprir as metas nacionais.

Alagoas é o Estado com pior nota: 2,9. A nota é inferior à metade do que seria o nível de ensino dos países desenvolvidos que participam da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O índice 6 representa a referência de qualidade de ensino nesses países. Os estados com piores índices do País são o alvo das políticas do Plano de Desenvolvimento da Educação e recebem dinheiro e apoio técnico do MEC.

Os melhores

São Paulo e Santa Catarina dividem o posto de melhor colocado no Ideb das séries finais do ensino fundamental em 2009, com 4,5 pontos. Na sequência, aparecem Distrito Federal (4,4), Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso, com 4,3 pontos. As escolas mato-grossenses superaram a própria meta de 2009 em um ponto.

Paulo Renato de Souza, secretário de Educação de São Paulo, afirma que não se surpreendeu com os dados. Para ele, o desempenho do Estado na escolarização dos adolescentes da última etapa da educação básica é explicado pelo currículo. “O currículo está claramente definido pelo Estado. O treinamento dos professores é feito com base nessas orientações. As políticas educacionais estão fazendo diferença na aprendizagem dos alunos”, ressalta.

Contente com os resultados de todas as etapas da educação básica, o secretário lembra que São Paulo é o Estado com maior cobertura de atendimento no ensino médio (70%) e atende estudantes de realidades muito diversas. Ele reconhece que os municípios têm vantagens no processo educacional sobre os estados, especialmente no ensino fundamental.

“A gestão é mais próxima da comunidade local. A municipalização dessas etapas foi muito importante. Acho que a oferta das séries iniciais deveria ser de responsabilidade exclusiva dos municípios. Nas séries finais, poderia haver uma divisão com os estados. Nos municípios pequenos, o estado tomaria conta. E o ensino médio tem de continuar sendo estadual”, opina.

Na primeira fase do ensino fundamental, Minas Gerais foi o grande destaque. Está em primeiro lugar, com índice de 5,6, junto com o Distrito Federal. Mas foi o estado que mais obteve crescimento no Ideb, de 2007 para 2009. O salto foi de 0,9 ponto. Tanto na taxa de aprovação (sucesso dos sistemas de ensino no processo de aprendizagem dos alunos medido pelo Ideb) quanto nas notas da Prova Brasil, houve crescimento. O DF cresceu 0,6 ponto.

    Leia tudo sobre: Ideb

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG