Línguas mortas para quem?

Não é novidade para ninguém a morte de idiomas. Segundo dados revelados pela Unesco, a estimativa é que uma língua morra a cada duas semanas e que mais de 50% das 6.000 línguas do mundo desapareçam ao longo deste século.

Tariana Hackradt |

A organização revelou ainda que a principal razão para esse fato é que boa parte desses idiomas são falados por menos de 2.500 pessoas, quando são necessários, no mínimo, 100 mil falantes para passar um língua de geração em geração.

Fenômeno natural da história, a morte de uma língua não significa que ela esteja fadada ao esquecimento total graças a alguns poucos e corajosos estudantes. Com algumas dificuldades, eles encaram o desafio de aprender esses idiomas e conseguem, assim, evitar sua extinção completa.

Um dos problemas está no fato de que não cruzamos com essa língua no cotidiano, ou seja, não existem músicas, filmes ou canais de TV a cabo nessas línguas. Por isso, a experiência se restringe, limitando-se às horas de aula, ao material de estudo e alguns textos, explica o professor de História Geral do cursinho pré-vestibular Anglo, em São Paulo, e estudante de grego arcaico, Gianpaolo Dorigo.

Outra dificuldade, apontada pela professa de línguas Maria Paula Roncaglia é que a maior parte da população acredita que seus estudos sejam inúteis e, até mesmo, uma perda de tempo e recurso investidos, o que está longe de ser verdade. Formada em letras pela Universidade de São Paulo, a ex-estudante de sânscrito e latim acredita que em um país como o Brasil, em que não se valoriza o conhecimento e a produção científica, poucas pessoas propõem-se a estudar algo com aplicabilidade restrita no mercado.

Problemáticas conceituais à parte, não há motivo para se assustar. Superados as dificuldades, o resultado em estudar um desses idiomas pode ser bastante proveitoso, basta saber como e onde usar o conhecimento. Para a historiadora Mayra Alice Morais, formada pela Universidade de Brasília, as aulas de latim foram importantes porque auxiliaram a compreender melhor estruturas morfossintáticas e semânticas da língua portuguesa e, que o estudo de latim, ajudou a ter bastante facilidade em português.

Maria Paula engrossa o coro sobre a importância de estudar línguas mortas. Acredito ser uma melhor professora de idiomas por conhecer e compreender as línguas que deram origem às línguas modernas que eu ensino: alemão e inglês. Mas mais ainda, acho que a preocupação de se conhecer a história da língua que falamos reflete uma preocupação com a nossa cultura e a nossa história, acho que demonstra interesse pela história da humanidade, afirma.

A preocupação em estudar línguas mortas não é de hoje. Desde o século passado, o filósofo e cientista político Antonio Gramsci defendia a idéia de que o estudo do latim e do grego eram fundamentais para conhecer, diretamente, a civilização dos dois povos, pressuposto necessário da civilização moderna, ou seja, para sermos nós mesmos e nos conhecermos de maneira consciente.

O italiano dizia também que o latim, por exemplo, ajudava no conhecimento de sua língua, o italiano. Seguindo a mesma linha de pensamento, Mayra Alice acredita que as línguas portuguesa, italiana e romena, por exemplo, são como uma espécie de evolução natural da língua latina. Elas seriam o latim de nossos dias.

Por que estudar?

A motivação para o estudo de um idioma morto varia de acordo com os interesses de cada um. Para a Maria Paula, por exemplo, o interesse por línguas, de uma maneira geral, foi o start para que começasse a estudar latim e sânscrito. Eu optei por latim porque foi ele que deu origem ao português, então compreendendo esta língua, compreendemos o nosso idioma. A opção do sânscrito foi porque ele influenciou todas as línguas indo-européias. Acredito que ambas as línguas possuem uma importância muito grande para quem, como eu, é professor de idiomas europeus.

Já para Gianpaolo, a vontade de estudar grego arcaico despertou durante a formação acadêmica em Filosofia. O vocabulário grego de Filosofia é muito peculiar e perde significado quando traduzido, explica. Ou então, repetindo Sócrates, quando foi perguntado porque iniciava o estudo de flauta justamente às vésperas de sua execução: Para aprender. Só isso, completa.

Mesmo com bons motivos para estudar uma língua morta, o aprofundamento nesses idiomas, infelizmente, ainda é visto com preconceito por muita gente. Em um país como o Brasil, em que não se valorizam o conhecimento e a produção científica, poucos se propõem a estudar algo com aplicabilidade restrita, explica Maria Paula. Porém, apesar das dificuldades em utilizar esse conhecimento no mercado de trabalho, não dá pra deixar de relembrar que a história da humanidade está diretamente ligada a esses estudos, e que a morte de um idioma representa a perda de um componente essencial do patrimônio vivo da humanidade.

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