Internet ajuda a controlar vida escolar dos filhos

Professores colocam em sistema via web tudo o que o pai precisa saber sobre o aproveitamento do filho na sala de aula

Carolina Rocha, iG São Paulo |

Como ter certeza que seu filho realmente está na escola e com bom comportamento na sala de aula? Ou que a nota baixa não é por falta de explicação do professor, mas porque ele não prestou atenção no que foi ensinado pelo professor? Consultando a internet.

Escolas de todo o País estão cada vez mais transformando suas páginas na internet em ferramentas que são verdadeiros “dedos-duros” de alunos que saem da linha. “Eu deixava minha filha na porta da escola no horário e achava que ela estava na sala de aula, mas descobri pelo sistema que a escola disponibiliza na internet que ela sempre se atrasava para a primeira aula, pois ficava conversando”, conta Alessandra Grassa, mãe de Vitória, aluna do colégio Arquidiocesano, da capital paulista.

No sistema da escola, diariamente são inseridas informações numa área restrita aos pais. Eles são comunicados por meio desta ferramenta sobre ocorrências disciplinares, faltas, ausência de material, lição de casa ou tarefas não realizadas. “Fico sabendo até se ela demora para voltar para a sala depois da aula de Educação Física e se fica muito tempo no banheiro”, comenta Alessandra.

Este tipo de acompanhamento também é adotado pelo colégio Imaculada Conceição, localizado em Leopoldina, Minas Gerais. Além das informações online, o colégio adota o hábito de mandar mensagens pelo celular aos pais, com informações sobre eventos na escola, campanhas, entre outros informes.

“As informações ajudam tanto os pais quanto os coordenadores. Quando um pai vem à escola para conversar com o coordenador sobre o filho, eles abrem o sistema e conversam baseados na ficha pedagógica do aluno”, explica Geraldo Magela de Melo Júnior, professor de Informática Educacional e coordenador da área de tecnologia da Imaculada Conceição.

Mudança cultural

De nada adianta ter informações atualizadas e minuciosas se elas não forem acessadas. Esse é o desafio das escolas quando começaram a utilizar este tipo de sistema. “No começo foi preciso fazer uma readaptação na cultura. Alguns pais já tinham o hábito de acessar a internet, mas outros não tinham a menor intimidade”, conta a coordenadora do Departamento de Tecnologia do colégio Sion, de São Paulo, que oferece informações aos pais pela internet desde 2003.

O trabalho de mudança cultural também teve de ser feito na escola de Leopoldina. “Nós apresentamos o site para os pais em toda reunião, mostramos como funciona e estamos sempre à disposição quando eles têm dúvidas”, relata Melo Júnior. Segundo ele, o site recebe atualmente uma média de 30 mil acessos mensais, incluindo entradas de pais e alunos.

De acordo com os coordenadores dos colégios consultados, a criação do hábito de acesso traz também uma mudança cultural: a da aproximação dos pais na vida acadêmica dos filhos.

O caso de Alessandra Grassa exemplifica esta transformação. A descoberta do mau desempenho da filha na escola foi feita no meio do ano passado, quando foi chamada pela coordenação da escola. A situação, entretanto, poderia ter sido resolvida bem mais cedo se ela tivesse acompanhado os boletins diários.

“Minha filha havia mudado de escola no ano passado. No colégio anterior eles atualizavam o site só uma vez a cada bimestre, com as notas e as faltas já fechadas. Devo admitir que não tinha o hábito de acompanhar tão de perto a vida escolar da Vitória com esse sistema”, comenta a mãe.

Com o alerta da coordenação da escola, Alessandra fez marcação cerrada na filha. As notas de Vitória foram recuperadas e o ano letivo não foi perdido. “Hoje passei a ver se ela está levando o material correto para as aulas, se ela me entregou a prova para assinar. Não deixo mais essas coisas só sob a responsabilidade dela”.

Linha dura

Quem não gosta muito do sistema são os alunos. “Vitória detesta! Já a deixei sem sair no final de semana por ficar sabendo que ela tinha prova na segunda-feira”, conta Alessandra.

A ferramenta ajudou também pais que têm mais de um filho em idade escolar. É o caso de Cleusa Raquel de Paula Diniz, mãe de José Eduardo (1º ano do ensino médio) e de Cacá (8º ano). “Com a rotina de trabalho a gente não tem muito tempo para perguntar como andam as coisas na escola. O mais velho não me dá trabalho, tira notas boas. Só entro no sistema uma vez ou outra para olhar como ele está. Mas preciso ver sempre o do mais novo. Acesso pelo menos duas vezes por semana”, diz.

A atenção parece mesmo se concentrar nos filhos que dão mais trabalho. É o caso de Marcella Geromel, do 3º ano do ensino médio, irmã de Guilherme, do 9º ano, que tem a vida menos vigiada. O foco da vigilância fica voltado para seu irmão. “Meu irmão dá muito trabalho e minha mãe acaba se preocupando mais com as notas dele do que com as minhas”.

“Todo dia ela me pergunta se eu tenho lição, se tem de levar alguma coisa para a escola. Eu digo ‘não, não tem nada’. Mas mesmo assim ela vai ver no sistema”, reclama Guilherme.

Gabriel Moroni, do 1º ano do ensino médio do Arquidiocesano, também passou a ser tratado na “linha dura” desde o meio do ano passado. “Minha mãe passou a ver mais o que eu faço na escola depois que começou a trabalhar. Ela sempre diz ‘eu vou lá olhar o sistema’ toda vez que eu digo que não tem lição para fazer. Essa é mais uma arma que ela tem para me ameaçar”, conta.

O aluno Eduardo Antunes, que está no 3º ano do ensino médio, vive uma realidade diferente. Apesar de ter toda a sua conduta disponível na internet, ele afirma que seus pais nunca olham o site. “Eles confiam em mim. Nunca tive problema com notas e eles nem olham o site”, relata o aluno, que diz preferir ser tratado dessa maneira.

Excesso de controle

Para a pedagoga e professora de Psicologia da Educação da Universidade de São Paulo (USP) Silvia Colello, informar tão detalhadamente sobre a conduta dos alunos em classe tem seu lado positivo, mas também pode acarretar problemas para o desenvolvimento escolar.

Segundo ela, “promover a aproximação dos pais com a vida escolar é fundamental”. “É preciso que exista a parceria entre escola, família e aluno para que haja resultado positivo na formação do jovem, mas é necessário ter cuidado com a maneira como essa comunicação vai ser feita.”

Silvia acredita que a prestação de contas excessiva pode acabar conduzindo os pais a se centrarem nas ocorrências e não na razão delas. “Um jovem que conversa na sala de aula pode ter várias razões para isso. Ele pode já ter entendido tudo da matéria e perdeu o interesse, pode estar com alguma dificuldade em entender algum ponto e o sistema não vai se aprofundar nesse tipo de informação”, explica.

“O controle sistematizado acaba sendo superficial. Com essas informações os pais podem ter a impressão de que estão participando do processo, mas perdem a oportunidade de se aprofundar no problema. Além disso, o aluno pode se sentir invadido em sua individualidade e que apenas o que ele faz de errado é que conta”, completa Silvia.

Para que o acompanhamento seja feito de maneira positiva, a pedagoga sugere diálogo constante entre os pais, filhos e escola, “para que haja uma análise mais articulada e se encontrem formas de negociação do problema”.

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