Custo Aluno Qualidade, indicador adotado pela organização que garante os padrões mínimos de qualidade em educação." / Custo Aluno Qualidade, indicador adotado pela organização que garante os padrões mínimos de qualidade em educação." /

Implantação de educação integral na rede pública custa 10,24% do PIB

Para implantar a educação integral na rede pública de ensino básico, o Brasil teria de investir anualmente 10,24% do Produto Interno Bruto (PIB), por dez anos. Com base no PIB de 2008, o total de recursos destinados para a ampliação do período nas escolas seria de aproximadamente R$ 297 bilhões anuais. A estimativa é da Campanha Nacional pelo Direito à Educação com base no valor mínimo do http://educacao.ig.com.br/us/2010/03/27/investimento+por+aluno+precisa+aumentar+para+atingir+qualidade+ideal+em+todo+o+pais+9440278.html target=_blankCusto Aluno Qualidade, indicador adotado pela organização que garante os padrões mínimos de qualidade em educação.

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

O valor representa um salto grande no investimento em educação básica, que em 2008 chegou a R$ 116 bilhões, 4% do PIB, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). Os 0,7% restantes do total investido pelo governo federal foram destinados à educação superior e a outros investimentos.

Depois da primeira década poderíamos retroceder gradativamente, até chegarmos à média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que agrupa os países mais industrializados da economia do mercado), que é cerca de 6% do PIB. Por quê? Porque arrumaríamos a casa. Uma perspectiva de recuperação do déficit brasileiro exige um esforço maior. Quanto maior for o tempo para se tomar uma decisão, maior será o rombo, explica Daniel Cara, cientista político e coordenador geral da Campanha.

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Educação integral é importante nos primeiros anos
Oferecer educação integral no ensino básico ¿ que abrange creche, educação infantil, ensino fundamental e médio ¿ está entre os temas que serão discutidos na Conferência Nacional de Educação (Conae). O evento, realizado em Brasília de domingo até o dia 1º de abril, debaterá as diretrizes e metas para o próximo Plano Nacional de Educação (PNE) ¿ que deve ser redigido e aprovado pelo Congresso ainda em 2010 e vigorar pelos próximos dez anos.


De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem do iG Educação, ampliar a oferta de ensino integral na rede pública de 1,6 milhão de alunos para 45 milhões (segundo números do último censo escolar), envolve uma série de mudanças e investimentos, que passam por investimentos, gestão eficiente, melhoria da formação dos professores, valorização da carreira dos docentes, ampliação de vagas e boa infra-estrutura. Temos de melhorar o acesso à educação, com escolas capazes de garantir boas condições de ensino e aprendizagem. Escola que não tem telhado, não tem lousa, não tem biblioteca, nem laboratório de ciências não vai formar cientistas, destaca Cara.

Para César Callegari, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), a mudança deve começar com a melhor formação dos professores. Nenhum modelo vai funcionar bem se não tiver professor de qualidade. Precisamos proporcionar a eles condições de trabalhos compatíveis ao nível de responsabilidade que eles têm, ressalta Callegari.

Benefícios

Uma geração formada em tempo integral na escola estaria melhor preparada para o mercado de trabalho e distante da violência e da criminalidade, na opinião dos pesquisadores. Se o Brasil alcançasse um patamar mínimo de qualidade, a grande vantagem da educação integral seria reformar a educação e fazer com que jovens construam seus projetos de vida. O País conseguiria dar grandes saltos de produção científica, cidadania, formação de atletas. Teríamos saltos de produtividade em todas as áreas, prevê Cara.

Carlos Roberto Jamil Cury, doutor em Educação e ex-presidente da Câmara de Educação Básica do CNE, ressalta o melhor aproveitamento do tempo dos estudantes. Com a educação integral, elimina-se a desocupação do tempo dos alunos. Ao invés desses garotos estarem à mercê de agentes negativos estão inseridos numa boa atividade, analisa o professor titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os ganhos pedagógicos também são destacados por Jamil Cury. Poderíamos cumprir a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) quanto ao acompanhamento mais individualizado dos alunos que têm dificuldade em acompanhar o ensino. Com um horário para que um tutor, monitor, bolsista ou professor auxilie na elaboração das tarefas, teríamos um aprendizado melhor.

O professor também destaca uma possível mudança no cotidiano dos professores. Se hoje os profissionais trabalham em mais de uma escola para complementar a renda, com a educação integral deixarão de fazê-lo, pois terão uma carga horária maior e melhores salários. Teremos a figura do professor fixo. O docente poderá trabalhar em uma escola, e não mais em duas ou três. Com isso pais e alunos terão o professor mais presente, avalia Jamil Cury. No entanto, para que isso aconteça é preciso melhorar a formação e a remuneração dos docentes.

Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, faz uma ressalva: Não podemos tornar integral a atual escola pública. Seria um castigo tanto para estudantes, quanto para professores. De acordo com ele, é preciso que a educação integral respeite parâmetros mínimos de qualidade e avance em termos de financiamento e gestão.

Metas possíveis

Para Cara, é preciso que a Conae defina metas factíveis para a educação básica. Tornar a creche, a educação infantil e uma etapa do ensino fundamental integrais seria um acerto maior (do que abranger toda a educação básica). O ensino médio exige um esforço muito grande, pondera.

Jamil Cury corrobora: Dessa forma priorizaríamos as fases que mais precisam de um atendimento integral. São fases da vida nas quais se formam os fundamentos do conhecimento, da intelectualidade e da cidadania.

Saltar de um investimento em educação básica de 4% do PIB para mais de 10% parece ser um desafio grandioso. No entanto, Cara vê como uma questão de prioridade. O País está na confortável posição de determinar prioridades e dar conta delas, por meio do bom uso dos recursos, afirma. A um governo que prioriza o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), cujo objetivo é criar infraestrutura econômica, Cara questiona: Será que a educação não merece o mesmo tipo de prioridade?.

Em termos de insumo para o desenvolvimento, educação é tão fundamental como infraestrutura. Bons engenheiros e demais profissionais conseguirão produzir melhores soluções logísticas para o País. Teríamos uma população com condições de produzir. Uma sociedade mais capaz, conclui Cara.

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