Haddad compara críticos de livro a fascistas

Ministro disse que maioria dos que falaram mal da obra com "nós pega" sequer havia lido todo o livro

Naiara Leão, iG Brasília |

Em audiência pública no Senado na manhã desta terça-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad, se disse assustado com o início da discussão sobre o livro "Por uma vida Melhor" , que traz a expressão popular "nós pega o peixe". "A maioria das pessoas que criticaram inicialmente, se não a totalidade, declararam sem ter lido o livro. Isso me deixou preocupado porque regra geral um livro precisa ser lido para ser compreendido e, eventualmente, criticado", disse. A polêmica do livro que defende a língua falada foi apresentada pelo iG, e trechos como o que diz que o aluno pode falar "os livro" foram criticados por linguistas e gramáticos, como o imortal da Academia Brasileira de Letras, Evanildo Bechara, que disse que o aluno não vai para a escola “para viver na mesmice ”.

O ministro citou no Senado dezenas de mensagens de especialistas, professores e associações que recebeu apoiando a obra e dizendo que o que se fala do livro não é verdade. "De forma unânime, todos dizem que o livro não faz o que dizem que faz (ensinar a linguagem popular como correta), mas traduz a linguagem popular para a norma culta", disse.

Para Haddad, criticar a partir de uma frase caracterizaria uma “injustiça crassa” e uma “atitude fascista”, disse se referindo ao comportamento de políticos do fascismo que censuravam obras que não haviam lido.

Durante a audiência, vários parlamentares sugeriram o recolhimento da obra, mas o ministro se manteve irredutível. “Li o livro e se tiver que ficar sozinho defendendo essa professora ( Heloisa Ramos, autora ), eu não me importo”, disse.

Haddad usou os mesmos argumentos apresentados pela autora da obra para defender sua permanência na sala de aula. O livro é usado em turmas de Educação de Jovens e Adultos de 4.236 escolas com 484.195 alunos. “Quando um adulto volta para a escola, ele está com vícios de linguagem. Então, entendo perfeitamente o capítulo como um convite da autora para que o aluno saia de sua fala coloquial”, disse.

O ministro também negou que o MEC estimule o ensino da linguagem popular. "Não há dúvida de que o papel da escola é de ensinar a norma culta, mas as abordagens pedagógicas, como é o caso, podem variar".

Durante a audiência, houve muitas críticas e poucas manifestações de apoio ao livro. Alguns senadores, no entanto, chegaram a sugerir o uso mais amplo da linguagem popular em sala de aula. O senador João Pedro (PT - AM) afirmou que em seu estado o distanciamento entre a linguagem cotidiana e a norma culta dificultam o aprendizado.

"No Norte do Brasil há um clamor muito grande para que se use a linguagem própria, a indígena e os dialetos, na sala de aula. Mas também há dificuldade de se trabalhar isso porque não há material adaptado", afirmou.

nullO senador Cristovam Buarque (PDT - DF) chegou a propor ao MEC a formação de um grupo especial para discutir o ensino de formas variadas da língua. "Há uma página do livro que mostra tolerância não com a forma de falar, mas com a desigualdade. Antes de ensinar, temos que parar e pensar se vamos adaptar sempre o ensino de uma língua que muda quase todos os dias no cotidiano, com novos termos coloquiais e estrangeirismos", afirmou.

Livros com carga ideológica

Os parlamentares levantaram também questionamentos sobre livros de história aprovados e distribuídos pelo MEC. Os senadores Alvaro Dias (PSDB-PR) e Marisa Serrano (PSDB-MS) chegaram a apresentar cópias de obras sobre os governos Lula e FHC.

Segundo eles, ambos os governos adotaram livros que trariam visão favorável sobre si mesmo e desfavorável a outra administração. Um dos exemplos citados foi o de um livro que não falava sobre o Plano Real e foi suspenso em 1997.

Com esse exemplo, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) questionou a isenção do MEC. “Não há critérios realmente objetivos para a análise dos livros que vão ser adotados”, acusa.

O ministro disse que é contra as discussões partidárias dentro de sala de aula, mas que não há como retirar dos livros a história contemporânea. “Se fizermos isso, o professor vai trabalhar o assunto de qualquer maneira porque é exigido nos vestibulares. Aí sim seria problemático, porque o MEC não teria controle do que é dado em sala”.

Kit anti-homofobia

Haddad deu explicações ainda sobre a suspensão do kit anti-homofobia solicitada pela presidenta Dilma Rousseff depois de pressões da bancada evangélica do Congresso. Ele negou que a discussão tenha sido suspensa e que exista divergências entre o MEC e a presidenta.

“Ela apenas quis que o kit fosse discutido de comum acordo com todos os setores, inclusive os conservadores”, afirmou. Haddad disse ainda que a avaliação do conteúdo do kit, em andamento desde 2008, deve continuar. O conteúdo do kit anti-homofobia foi revelado no ano passado pelo iG com exclusividade.

Agência Brasil
Ministro fala a senadores sobre livros e materiais didáticos adotados pelo governo

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