Haddad compara críticos de livro a fascistas

Ministro disse que maioria dos que falaram mal da obra com "nós pega" sequer havia lido todo o livro

Naiara Leão, iG Brasília | 31/05/2011 12:30 - Atualizada às 20:16

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Em audiência pública no Senado na manhã desta terça-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad, se disse assustado com o início da discussão sobre o livro "Por uma vida Melhor", que traz a expressão popular "nós pega o peixe". "A maioria das pessoas que criticaram inicialmente, se não a totalidade, declararam sem ter lido o livro. Isso me deixou preocupado porque regra geral um livro precisa ser lido para ser compreendido e, eventualmente, criticado", disse. A polêmica do livro que defende a língua falada foi apresentada pelo iG, e trechos como o que diz que o aluno pode falar "os livro" foram criticados por linguistas e gramáticos, como o imortal da Academia Brasileira de Letras, Evanildo Bechara, que disse que o aluno não vai para a escola “para viver na mesmice”.

O ministro citou no Senado dezenas de mensagens de especialistas, professores e associações que recebeu apoiando a obra e dizendo que o que se fala do livro não é verdade. "De forma unânime, todos dizem que o livro não faz o que dizem que faz (ensinar a linguagem popular como correta), mas traduz a linguagem popular para a norma culta", disse.

Para Haddad, criticar a partir de uma frase caracterizaria uma “injustiça crassa” e uma “atitude fascista”, disse se referindo ao comportamento de políticos do fascismo que censuravam obras que não haviam lido.

Durante a audiência, vários parlamentares sugeriram o recolhimento da obra, mas o ministro se manteve irredutível. “Li o livro e se tiver que ficar sozinho defendendo essa professora (Heloisa Ramos, autora), eu não me importo”, disse.

Haddad usou os mesmos argumentos apresentados pela autora da obra para defender sua permanência na sala de aula. O livro é usado em turmas de Educação de Jovens e Adultos de 4.236 escolas com 484.195 alunos. “Quando um adulto volta para a escola, ele está com vícios de linguagem. Então, entendo perfeitamente o capítulo como um convite da autora para que o aluno saia de sua fala coloquial”, disse.

O ministro também negou que o MEC estimule o ensino da linguagem popular. "Não há dúvida de que o papel da escola é de ensinar a norma culta, mas as abordagens pedagógicas, como é o caso, podem variar".

Durante a audiência, houve muitas críticas e poucas manifestações de apoio ao livro. Alguns senadores, no entanto, chegaram a sugerir o uso mais amplo da linguagem popular em sala de aula. O senador João Pedro (PT - AM) afirmou que em seu estado o distanciamento entre a linguagem cotidiana e a norma culta dificultam o aprendizado.

"No Norte do Brasil há um clamor muito grande para que se use a linguagem própria, a indígena e os dialetos, na sala de aula. Mas também há dificuldade de se trabalhar isso porque não há material adaptado", afirmou.

Durante audiência, ministro elevou o tom da voz ao defender obra

O senador Cristovam Buarque (PDT - DF) chegou a propor ao MEC a formação de um grupo especial para discutir o ensino de formas variadas da língua. "Há uma página do livro que mostra tolerância não com a forma de falar, mas com a desigualdade. Antes de ensinar, temos que parar e pensar se vamos adaptar sempre o ensino de uma língua que muda quase todos os dias no cotidiano, com novos termos coloquiais e estrangeirismos", afirmou.

Livros com carga ideológica

Os parlamentares levantaram também questionamentos sobre livros de história aprovados e distribuídos pelo MEC. Os senadores Alvaro Dias (PSDB-PR) e Marisa Serrano (PSDB-MS) chegaram a apresentar cópias de obras sobre os governos Lula e FHC.

Segundo eles, ambos os governos adotaram livros que trariam visão favorável sobre si mesmo e desfavorável a outra administração. Um dos exemplos citados foi o de um livro que não falava sobre o Plano Real e foi suspenso em 1997.

Com esse exemplo, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) questionou a isenção do MEC. “Não há critérios realmente objetivos para a análise dos livros que vão ser adotados”, acusa.

O ministro disse que é contra as discussões partidárias dentro de sala de aula, mas que não há como retirar dos livros a história contemporânea. “Se fizermos isso, o professor vai trabalhar o assunto de qualquer maneira porque é exigido nos vestibulares. Aí sim seria problemático, porque o MEC não teria controle do que é dado em sala”.

Kit anti-homofobia

Haddad deu explicações ainda sobre a suspensão do kit anti-homofobia solicitada pela presidenta Dilma Rousseff depois de pressões da bancada evangélica do Congresso. Ele negou que a discussão tenha sido suspensa e que exista divergências entre o MEC e a presidenta.

“Ela apenas quis que o kit fosse discutido de comum acordo com todos os setores, inclusive os conservadores”, afirmou. Haddad disse ainda que a avaliação do conteúdo do kit, em andamento desde 2008, deve continuar. O conteúdo do kit anti-homofobia foi revelado no ano passado pelo iG com exclusividade.

Foto: Agência Brasil

Ministro fala a senadores sobre livros e materiais didáticos adotados pelo governo

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