Há vagas em públicas para quem é veterano de faculdade privada

Com seleções distintas, as transferências são uma oportunidade para entrar na universidade pública. USP abre inscrições na segunda

Priscilla Borges, iG Brasília |

A cada semestre, milhares de candidatos se frustram durante a divulgação dos resultados dos vestibulares das universidades públicas. A quantidade de vagas oferecidas pelas instituições é insuficiente para atender a demanda. Mas, ao contrário do que muitos jovens imaginam, o vestibular não é a única possibilidade de entrada em uma universidade pública.

Todos os anos, inúmeras instituições oferecem vagas ociosas dos cursos de graduação em processos seletivos distintos do vestibular. São vagas que vão surgindo ao longo do curso, por desistências dos alunos. Segundo o Censo da Educação Superior de 2008 – dado mais recente fornecido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) – as universidades públicas (federais, estaduais e municipais) tinham 36.725 vagas ociosas.

Para concorrer a essas vagas, os candidatos precisam estar matriculados em cursos da área. A exigência de carga horária do curso já cumprida varia conforme a vaga que aparece. É possível que a universidade peça para os estudantes o cumprimento de 20% ou 30% do currículo, por exemplo. Em geral, a seleção é feita com base em análise de currículos e provas específicas.

Os nomes dados para esse tipo de processo seletivo variam de acordo com a instituição. Na Universidade de São Paulo (USP), é apenas transferência. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), vagas remanescentes. Na Universidade de Brasília (UnB), transferência facultativa. Em todos os casos, o objetivo é o mesmo: preencher os espaços vazios.

“Naturalmente, como universidade pública, queremos minimizar o número de vagas ociosas. Se temos a capacidade de atender um número específico de estudantes, nosso objetivo é atendê-la completamente. O processo acontece todos os anos, de maneira muito cuidadosa”, afirma o pró-reitor de Graduação da Unicamp, Marcelo Knobel.

Ele reforça que o processo na instituição não é fácil e tem demonstrado resultados satisfatórios. “Conseguimos preencher muitas vagas, mas essa possibilidade de entrada na universidade ainda é desconhecida pelos estudantes. É preciso divulgar mais”, defende.

Vagas abertas

A USP vai abrir inscrições para preencher 903 vagas de transferência a partir desta segunda-feira. Do total, 111 vagas são para o Instituto de Física de São Carlos. Os interessados terão até 5 de julho para preencher os formulários de inscrição. Há vagas em cursos como engenharia elétrica, ciência da computação, arquitetura e direito e são para o primeiro semestre de 2011. As informações sobre as provas e como concorrer podem ser conferidas no edital .

Alguns cursos terão editais próprios de seleção, como os da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Os candidatos aos outros cursos terão de passar por uma prova de pré-seleção de língua portuguesa e inglesa, cultura contemporânea (para a área de humanidades), genética e bioquímica (biológicas) e física e matemática (exatas). Os exames devem ser aplicados em 25 de julho. Depois, serão feitas provas específicas em cada curso.

A seleção da Unicamp também está próxima. O período de inscrições, organizado pela Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), será de 12 a 23 de agosto, exclusivamente pela internet . A quantidade de vagas será divulgada no início das inscrições. O processo exige teste de conhecimentos gerais, análise de compatibilidade de currículo e prova específica. Ainda há provas de habilidades específicas para alguns cursos.

Em agosto, ainda sem data definida, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) também vai divulgar edital de transferência. A Universidade Estadual de Londrina abrirá inscrições de 2 a 27 de agosto. A Universidade Federal de Goiás (UFG) vai divulgar o edital no dia 11 de setembro. A dica é ficar de olho no site da instituição que você deseja estudar.

Vagas conquistadas

Rafael de Gois Netto, 24 anos, cursava publicidade em uma faculdade privada de Brasília quando soube da existência do processo de transferência facultativa da UnB. Ele havia desistido da universidade pública depois de quatro tentativas frustradas no vestibular. Quando soube da transferência, se animou novamente e arriscou.

Fellipe Bryan Sampaio
Rafael de Gois Netto conseguiu uma vaga no curso de publicidade da UnB por transferência facultativa

“Vi que seria uma possibilidade de ampliar meus horizontes, para além da publicidade. Achei que seria muito difícil, então estudei muito. Mas não esperava o resultado e a minha colocação. Fiquei em primeiro lugar”, conta Rafael. Para ele, muita coisa mudou depois da aprovação na UnB. “Minha postura acadêmica é outra, me encontrei aqui na UnB. Fora a economia da mensalidade, que estava em R$ 1 mil”, afirma.

Livrar-se da mensalidade cara era um dos objetivos de Juliana Cíntia Videira, 34 anos. Estudante do curso de história na PUC de Campinas e já casada, a prestação estava pesando no orçamento familiar. Além disso, ela queria participar de pesquisas, mais escassas na instituição privada.
Quando soube da possibilidade de vagas remanescentes da Unicamp, tratou de concorrer. Estava tranqüila e acha que a falta de expectativas a favoreceu. Ainda em adaptação na Unicamp, ela acredita que a divulgação do processo seletivo deveria ser mais intensa.

Por causa da pouca divulgação desse tipo de seleção, Julia Nunes Sardinha, 27 anos, aluna da Universidade do Estado de Santa Catarina, conta sua própria história a todos os estudantes que conhece. Julia, que mora em Florianópolis, tinha uma vontade imensa de estudar em federal. Durante anos, estudou e tentou, sem sucesso.

Quanto estava no 3º semestre do curso de desenho industrial em uma faculdade privada da cidade, ficou sabendo da transferência da Udesc. O prazo para inscrições já havia passado e precisou esperar o próximo. Ela não desanimou. Estudou bastante antes das provas e conseguiu uma das seis vagas oferecidas. Curioso é que três não foram preenchidas.

“Os estudantes precisam demonstrar um nível pré-determinado de conhecimento. Não adianta só ter a vaga. Fiquei muito feliz em ter passado, porque era um sonho antigo meu. Achei que tudo valeu a pena, mesmo tendo atrasado a formatura. O curso é mais puxado e sei que fez diferença na minha formação”, pondera.

A formação oferecida na universidade pública também foi o grande estímulo de Juliana Rodrigues Freitas para tentar uma vaga na transferência facultativa da UnB. A jovem de 22 anos estudava jornalismo em uma instituição privada de Brasília, mas sentia falta de poder aprender coisas diferentes. “Queria ter liberdade de estudar outras áreas, queria algo que a universidade privada não me oferecia”, conta.

Além disso, Juliana, que é órfã, temia perder a pensão dos pais e não poder continuar pagando a faculdade. Aprovada na UnB, já fez disciplinas de economia e tem a certeza de que sua vida mudou. “Senti alívio em relação ao dinheiro e hoje me sinto melhor por participar disso tudo”, reflete.

Andressa Mariosi, 28 anos, trabalhava durante o dia para bancar as mensalidades do curso de letras que fazia à noite, com o auxílio de financiamento estudantil. A graduação que queria fazer, letras-francês, só era oferecida pela UnB em Brasília. Em 2001, visitando o site da universidade, descobriu a transferência facultativa.

“Achava que seria difícil, porque não sabia como seria a prova. Não conhecia ninguém que tivesse feito para o curso que eu queria”, lembra. O apoio da família e do marido foi fundamental. “Além de fazer o curso que eu queria, tive muitas oportunidades estudando em uma universidade pública. Participei de um programa de oito meses na França”, conta.

    Leia tudo sobre: educaçãotransferênciauniversidades

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG