Gisela Wajskop: “Educação só muda com boa formação do professor"

Diretora do Instituto Singularidades criou escola superior há 10 anos para influenciar diretamente na qualidade de docentes

Tatiana Klix, iG São Paulo |

Assim como os avós, que ajudaram a fundar um colégio judaico no bairro Bom Retiro em São Paulo, Gisela Wajskop, 53 anos, tem a sua própria escola. Inaugurado há 10 anos, o Instituto Singularidades oferece cursos de pedagogia e foi criado com o objetivo de disseminar aquilo que ela mais acredita ser necessário para mudar a educação do País: boa formação para professores.



A trajetória de Gisela até chegar a essa convicção começou ainda antes de completar dois anos de idade, quando frequentou pela primeira vez a escola dos avós. Depois, estudou em colégios que classifica como alternativos (Aplicação da Universidade de São Paulo e Equipe), passou pela PUC e USP, militou no movimento estudantil, viajou para Cuba, para o México e a França, onde realizou parte do doutorado. Trabalhou como professora, consultora e fez parte da equipe do Ministério da Educação (MEC) entre 1996 e 2000, até dizer: “Chega. Política pública nesse País é muito legal, mas você não vê o resultado”.

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Com o apoio financeiro dos pais, que influenciaram o lado empreendedor de Gisela – eles têm uma rede de lojas –, decidiu atuar de maneira mais direta na formação de docentes e fundou o instituto de educação superior. Dez anos depois, comemora o bom trabalho que seus alunos fazem em escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo e uma parceria fechada este ano com o Instituto Península, da família Diniz. A atuação conjunta, além de tirar o Singularidades do vermelho, proporciona melhores condições de trabalho, a realização de seminários e, o mais importante, dá legitimidade para a instituição impactar mais na educação do País e multiplicar a ideia de que é preciso mais prática no ensino de docentes.

Em conversa com o iG no instituto em SP, Gisela relatou sua trajetória, os resultados já obtidos pelo Singularidades e os planos para o futuro. Leia trechos das declarações:

Amana Salles/Fotoarena
Gisela Wajskop dirige instituto superior de pedagogia há 10 anos em São Paulo
Conhecimento x empreendedorismo
As representações que fui constituindo ao longo da vida sobre a escola sempre foram positivas. Na família, a questão do conhecimento sempre foi muito valorizada. Meus avós são imigrantes judeus e ajudaram a fundar uma escola judaica não-sionista, liberal, no Bom Retiro (bairro de imigrantes em SP). Na vida deles o conhecimento era a maior riqueza.

Demorei a me formar em Sociologia, porque sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo. Com 19 anos, já havia mantido uma companhia de fantoches e trabalhado como professora auxiliar. Sou resultado de duas vertentes, a do letramento familiar e a empreendedora. Meus pais têm uma rede de lojas. Muito cedo, eu já sabia que a vida totalmente intelectual não era minha praia. Eu precisava fazer coisas.

Formação
Virei socióloga por uma questão contingencial. Sempre quis ser psicóloga, e entrei no mesmo período na PUC na Psicologia e nas Ciências Sociais na USP, em plena greve na Escola de Comunicação e Artes. Com 17 anos, na década de 70, ninguém ia estudar na PUC se podia participar de movimento estudantil na USP. Cheguei também a fazer Pedagogia, mas só aguentei um semestre. Tinha de tudo no curso, menos escola e criança. Resultado de leituras e do que fui experimentando na época, acabei me direcionando para a educação e meu mestrado na PUC foi sobre o “brincar” (Pré-escola: importância do brincar na educação infantil).

Brincar
Acabei de atualizar meu primeiro livro, a tese do mestrado, para a nona edição e vai se chamar: “Brincar na educação infantil: uma história que se repete”. O texto está muito atual. Os professores não sabem brincar com as crianças. É surpreende que eu tenha defendido meu mestrado em 1990, há 21 anos, feito a pesquisa há 25 anos, e não mudou nada.

Instituto
Em meados de 2000, eu já estava trabalhando apenas como consultora para o MEC e morando em São Paulo com os meus dois filhos, hoje com 14 e 28 anos, quando resolvi não ficar mais no governo. Eu tinha a possibilidade de criar um instituto superior de educação e decidi que era hora de botar em prática tudo que tinha pensado em Cuba, no México, no meu doutorado em Paris, quando acompanhei a implantação de institutos de formação na França. Abriu como um centro de formação de professores, até ter registro do MEC. Hoje temos mais de 3 mil estudantes na faculdade de Pedagogia, além dos alunos de formação continuada. Muitos deles recebem bolsas. Tenho orgulho de formar bons professores que estão atuando bem em escolas públicas e privadas. Educação só muda com boa formação de professores.

Parceria
A parceria com o Instituto Península foi muito importante para o Singularidades. Houve investimento em reforma na estrutura, nas condições de trabalho – para a gente poder ter os melhores profissionais e para eu ter tempo, como diretora, de impactar na educação nacional, visitar congressos, comandar a equipe e transferir o meu nome para o instituto ganhar vida própria, divulgar e multiplicar o discurso da formação de professores de qualidade.

O projeto Singularidade Virtual, por exemplo, não seria possível sem a parceria. É um ambiente virtual para professores e alunos que vamos oferecer junto com treinamento de formação de docentes para atingir as faculdades de pedagogia que estão ruins.

Mulheres líderes
Existem várias dimensões que explicam a liderança das mulheres nas instituições relacionadas ao ensino. Uma delas é que tradicionalmente na história da humanidade quem se ocupa da educação das crianças são as mulheres. Por outro lado, nos países desenvolvidos há mais tempo, os CEOs são homens, mesmo das escolas. Nos EUA, a maioria dos diretores de escolas são homens. Na França também. No Brasil, a gente também tem uma concepção de maternagem, talvez resultado da nossa mistura de índio, negro e um pouco do imigrante que fica com os pintos embaixo da asa, que possibilita isso.

E a terceira dimensão é o fortalecimento das mulheres nos cargos de direção, uma tendência internacional. A gente saiu na frente. A origem talvez não seja prestigiosa, a da mulher ficar em casa fazendo comida e cuidando dos filhos, mas por outro lado acabamos construindo um know-how para disputar com os homens esses cargos. Hoje o que vemos é uma demanda deles para tomar esse lugar. Agora que ficou bacana todo mundo quer.

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