Gestor precisa ter visão de longo prazo, diz coordenador da Medicina em Macaé

Paulo Mendonça minimiza problemas do curso de Medicina, critica avaliação do MEC e afirma que mestrado não forma bons professores

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Gustavo Stephan/Agência O Globo
Coordenador do curso de Medicina da UFRJ em Macaé, Paulo Eduardo Xavier de Mendonça
O coordenador da Medicina da UFRJ em Macaé, Paulo Eduardo Xavier de Mendonça, reconhece haver problemas, mas diz que o curso está sendo estruturado e faz parte de "um acontecimento histórico", uma política pública para aumentar os estudantes universitários no País.

"A política pública não foi: ‘Construa uma nova universidade e quando estiver pronta comece’." Ele afirmou entender a "angústia" dos atuais alunos, mas defendeu que os gestores de políticas públicas precisam "ter visão de médio e longo prazos".

Mendonça desdenhou da ação civil pública da Defensoria, que chamou de "blablablá horrível", e afirmou que o TAC com o Ministério Público Federal não foi cumprido porque faltaram candidatos a professor em Macaé.

Ele chamou de "parcialíssima" a avaliação do MEC para cursos de Medicina e disse que são influenciadas pela corporação médica, para a qual não interessaria a criação de novas faculdades de Medicina. Para ele, apesar dos problemas, o curso em Macaé está à frente daquele da UFRJ no Rio (nota 5, máxima), na proposta curricular.

Especialista em Saúde Coletiva, mestre em Clínica Médica e doutorando em Medicina, o coordenador do curso de Macaé disse que pós-graduação não é garantia de bons professores porque mestrados no País "não ensinam a ser professor", mas para a pesquisa. Leia abaixo a entrevista:

iG - A Defensoria Pública da União move ação civil pública por causa dos problemas estruturais da Faculdade de Medicina em Macaé. Quais são os principais problemas do curso, falta de professores, material e laboratórios?

Paulo Mendonça - Não sei da ação civil pública, há muito tempo não ouço dela, se o juiz recebeu... Desconheço se tem continuidade. Morreu a ação? Não sei. Não fui mais convocado. Sei que foi fechado um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público Federal (MPF). Teve eventual falta de docentes. Há mudança curricular, um milhão de tensões sobre que médico deve ser formado, se um superespecialista ou com características mais gerais, que dê conta de trabalhar em todos os postos da rede, há um milhão de perguntas... Fui aluno e professor da UFRJ no Rio, é um curso de excelência, mas está em desacordo com a nova diretriz, porque não garante internato em dois anos, só um ano e meio.

iG - O curso de Medicina da UFRJ em Macaé é do mesmo nível do curso do Rio?

Paulo Mendonça - Eu transito entre Macaé e o Rio. Estamos tentando um desenho novo. Não dá para dizer que não tem nada a ver com a Medicina da UFRJ, tem o DNA, não dá para montar sem estrutura, a faculdade tem de emprestar para Macaé. A Medicina da UFRJ é pensada como um todo, não tem proposta A ou B. Há duas propostas curriculares diferentes, e Macaé está à frente. O curso do Rio vai ficar parecido com o de Macaé.

iG - A maioria dos professores não é de médicos. O concurso para professor auxiliar da Faculdade de Medicina em Macaé não exige doutorado, mestrado, pós-graduação nem sequer residência médica. Basta ao candidato ser formado em Medicina. Não é pouco para ser professor da Medicina da UFRJ?

Paulo Mendonça - Professores de Histologia, Fisiologia e Biologia não são médicos aqui nem em nenhum lugar. Temos tido dificuldades... Transformamos as vagas não preenchidas em vagas de 20h/semana, passando a exigir apenas graduação. Pensei em exigir residência, mas não poderia. Temos provas práticas, didáticas e de títulos. Deixe-me falar uma coisa importante: as qualificações acadêmicas no Brasil são centradas em formar pesquisadores. Não é o que garante bons professores. Temos concursos no Fundão com oito doutores e sete são reprovados. O processo de formação strictu sensu está descompassado para a formação de professores.

iG - Faltam profissionais com esses títulos em Macaé?

Paulo Mendonça - Em Macaé, temos bons médicos, boa cultura hospitalar, hospitais que funcionam bem. Há talvez três ou quatro médicos com mestrado, três cirurgiões com mestrado e um ou dois com doutorado. Na década de 80, os concursos eram para professores auxiliares. Na de 90, 70% dos professores da Medicina da UFRJ não tinham mestrado ou doutorado. Sabiam muita medicina, atendiam muito. Não é verdade que se abrirmos concurso para professor auxiliar (salário de R$ 1.600, por 20h semanais) vamos empobrecer a qualidade do ensino. Temos uma vaga para professor titular, com dois inscritos, para receber cerca de R$ 12.000.

Raphael Gomide
Aviso de concurso para professor temporário para Medicina mostra que edital é de 22 de agosto, 21 dias após prazo do TAC
iG - Mas o fato de ter doutorado e mestrado não é um diferencial, um indicador de qualificação?

Paulo Mendonça - Isso é relativo. Não tem aula para ser professor, não tem mestrado que ensine a ser professor, só consolida algumas coisas. O que esperamos é que passemos a ter um grupo de 60% sem titulação acadêmica mais adequada. Após entrarem, vamos inscrevê-los imediatamente em mestrado, em um braço da pós-graduação aqui, com professor titular que vai existir.

iG - Quando esses professores estarão efetivamente contratados?

Paulo Mendonça - Esperamos que comecem em 2012. É preciso entender que mudou o paradigma de formação. Temos de contar com a estrutura universidade. Teremos bancas para escolher os temporários em outubro e novembro, e a previsão é de que a contratação seja até o fim de janeiro. Estamos fazendo concurso para professor temporário, com tempo máximo de dois anos. Temos três professores substitutos contratados, até o fim de 2011. Eles se inscreveram no concurso para professor auxiliar, aberto, e certamente isso já será um diferencial no concurso.

iG - Como o sr. avalia a infraestrutura da faculdade hoje?

Paulo Mendonça - A infraestrutura está em implantação e vai se desenvolvendo à medida que o curso anda. A faculdade de Biologia existe há cinco anos e saiu a primeira turma. No começo, não tinha nenhum professor, laboratório nem pesquisa. Comeram o pão que o diabo amassou, em um processo de formação difícil. Hoje são biólogos, professores, e a avaliação do MEC é 5. A política pública não foi: ‘Construa uma nova universidade e quando estiver pronta comece’. Isso é política pública. Tínhamos 2% da população com ensino universitário, vai dobrar para 4%. Expandir, criar novas universidades, leva tempo.

iG - Mas enquanto isso, os alunos atuais não se prejudicam?

Paulo Mendonça - Entendo, gera uma angústia, o tempo deles é o tempo imediato. Os gestores de políticas públicas têm de estar sensibilizados com o tempo e a urgência dos alunos, e estamos, mas precisamos ter visão de médio e longo prazos.

iG - A avaliação inicial do MEC não foi boa.

Paulo Mendonça - A avaliação do MEC foi precisa. Saí de um curso privado nota 4, na Paraíba, e vim para um curso cuja avaliação foi 3. O corpo docente não está completo, mas é ótimo. Quase todos os alunos têm bolsa de pesquisa e extensão.

iG - O sr. entrou em uma ‘roubada’?

Paulo Mendonça - É uma política de inclusão, mas vira um problema. Tem que dar conta. Eu entrei em um acontecimento histórico, não em uma roubada. É a História sendo produzida, o Brasil decidiu pôr seus jovens na universidade. Temos de assumir o trabalho que dá implantar políticas públicas. Os alunos têm de ter paciência. Se não tivesse isso aqui, não estariam na escola. Se tirar 30 vagas, são 60 a menos por ano, alguém ficaria fora.

iG - Mas o sr. considera que estão sendo formados de forma adequada?

Paulo Mendonça - Tenho certeza de que estarão bem formados quando acabar o curso. Já estão sendo bem formados, adequadamente formados. Não pense que não há problemas em outros lugares. O modelo é o curso de Biologia daqui, o primeiro. Saíram daqui ótimos. Davam seminários na rede municipal de Macaé, a secretaria diz que têm conhecimento muito acima da média. Está tudo pactuado com o MPF, com presença dos alunos, e prazos estabelecidos (no TAC).

Raphael Gomide
Campus da Faculdade de Medicina da UFRJ
iG - Mas não foram cumpridos.

Paulo Mendonça - Por causa da prova de professor temporário. Não se escreveu gente, abrimos de novo... Vamos tentar trazer professores para cá. Nenhum professor do Rio dá aula rotineiramente aqui. O concurso temporário atrasou. Já pedimos prorrogação, estamos tratando com seriedade. A Defensoria Pública da União queria que os alunos fossem transferidos para o Rio.

iG - O que falta no curso? A Defensoria diz que faltam peças de Anatomia, por exemplo.

Paulo Mendonça - Peças plastinadas (secas), imagine trazer do Fundão para cá toda semana. No começo de 2011 recebemos 50 peças do Fundão. Agora temos modelos anatômicos, cópias fiéis. Pedimos para comprar peças. A avaliação do MEC foi em outubro de 2010. A Medicina da UFRJ no Rio teve nota 5 (máxima), mas se fosse agora, seria menos, precisa mudar muitas coisas. Não gostaria de receber 4 sem ter condições. Tiramos 3 na avaliação de autorização de funcionamento, do Inep que aborda infraestrutura, corpo docente e Enade, ao fim do curso, aonde não chegamos.

iG - É uma boa avaliação?

Paulo Mendonça - Mas essa avaliação é parcialíssima, uma avaliação apertada, que traduz o desejo da corporação médica de impedir o surgimento de outras universidades. É do Inep, mas quem constrói é um comitê de experts, de uma instituição de medicina pública, da corporação de médicos das escolas médicas paulistas e o MEC. Se tiver médicos em quantidade suficiente cria uma normalização dos padrões de remuneração. Quanto mais restrições, melhor (para os médicos). Não se pode fazer um curso de Medicina de qualquer maneira.

iG - O curso aqui é feito de qualquer maneira?

Paulo Mendonça - Claro que não.

iG - Qual a sua avaliação sobre a ação civil pública, da Defensoria?

Paulo Mendonça - É um blábláblá horrível. Sou responsável pela gestão pública, gozo do respeito dos alunos, faço um trabalho super sério, respondo ao MEC. O MPF nos acompanha de perto. Defendo a manutenção do curso de Medicina aberto, que formará 60 alunos por ano. A demanda não é de um lado só (dos alunos), se a Defensoria quer fechar o curso daqui para pôr os alunos no Rio... A única coisa em minhas mãos é implantar o curso, com todas as dificuldades de trabalhar no serviço público. Não é lindo, há burocracia, os humores, não é o MEC que define quantos professores teremos... mas o Ministério do Planejamento, a Câmara.

iG - Mas os alunos não acabam prejudicados, por falta de aulas, por exemplo, no começo do curso, em 2009?

Paulo Mendonça - O curso está em implantação, começou em 2009. Os alunos já fizeram sabendo que era para o segundo semestre. A turma mais avançada está no quinto período (de 12).

iG - O sr. está chateado com a Defensoria?

Paulo Mendonça - Não. Faço parte da história. Tem gente que faz parte de uma concepção privatista e elitista, de que a universidade não foi feita para pobre, negro, índio. Vamos considerar que há uma disposição social que nos machuca.

iG - O sr. tem alguma vinculação político-partidária?

Paulo Mendonça - Não tenho vinculação política. Acredito que é possível um mundo socialista, que não tem que ser na lógica do abandono societário. Já fui do PT, desde o começo, mas estou aqui por concurso.

    Leia tudo sobre: UFRJMacaéprofessorPauloMendonçaMedicina

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG