Questão 08:

Leia o trecho de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.

Então, de trás da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente:
- Bendito seja o Pai dos Pobres!
E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos
de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. E mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.
- Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza.
O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía, cabeludo e quase negro, de uma manga muito
curta.
- A mão!
E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve
com um sacudir lento e pensativo, murmurando:
- Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
[...] Eu então debrucei a face para ele, mais em confidência:
- Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltara?

Eça de Queirós. A cidade e as serras.

a) No trecho, Jacinto é chamado, pelo velho, de Pai dos Pobres. Essa qualificação indica que Jacinto mantinha com os pobres da serra uma relação democrática e igualitária? Justifique sua resposta.

b) Tendo em vista o contexto da obra, explique sucintamente por que o narrador, no final do trecho, se refere a el-rei D. Sebastião.

RESPOSTA

a) Apesar de ter sido chamado pelo velho de Pai dos pobres, não podemos considerar a relação de Jacinto com eles como democrática e igualitária. Percebe-se, na obra, uma transformação profunda do protagonista após a mudança para Tormes, mas ele vive a consciência de ser Senhor das terras mantendo o status quo de que sempre desfrutou.

b) D. Sebastião, rei de Portugal e esperança de reconstituição do Grande Império Português, desapareceu em 1578 sem deixar herdeiros. Sua figura mítica permanece no imaginário do povo, que espera seu retorno. Assim, a relação entre El-rei e Jacinto torna-se clara: por proteger os pobres, a figura do protagonista pode ser tida como a realização da mitológica volta do grande rei aos olhos da população esperançosa.

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