Formar profissionais menos especialistas é desafio na Ufopa

Com um ano de idade, Universidade da Integração Amazônica traça novos currículos para integrar conteúdos e disciplinas distintas

Priscilla Borges, enviada a Santarém (PA) |

Construir projeto de formação interdisciplinar e generalista é o grande desafio dos professores e técnicos da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) , uma das quatro universidades criadas desde o ano passado pelo Ministério da Educação apresentadas em série de reportagens que o iG publica até sábado . Enfrentando as próprias dúvidas e deficiências de formação para encarar uma forma de ensinar que integre conteúdos de diferentes disciplinas, os novos docentes garantem que a vontade de mudar a região dribla as dificuldades do dia-a-dia, que não são poucas.

Desde que começaram a chegar a Santarém, cidade paraense localizada há 1,4 mil quilômetros da capital Belém onde estão os dois campi da nova instituição, há quase seis meses, os professores contratados pela universidade para receber especialmente os calouros que chegarão no ano que vem enfrentam a dura realidade do “desbravamento”. Mais do que a falta de infraestrutura – biblioteca, equipamentos, salas e laboratórios – faltam parâmetros para o novo desafio.

Por isso mesmo, a estratégia adotada pela Ufopa foi contratar docentes antes de pensar nas obras ou salas de aulas. “Entendemos que uma universidade é feita especialmente de pessoas. E eles estão trabalhando na construção do projeto junto conosco. Não é simples porque não fomos formados na interdisciplinaridade”, afirma o pró-reitor de Planejamento Institucional da universidade, Aldo Gomes Queiroz.

Os professores designados para trabalhar com a formação interdisciplinar I, que é o primeiro ciclo, têm reuniões constantes. Discutem metodologias e aprendem o que não fez parte dos próprios currículos na época da faculdade para poderem dar aulas. Dóris Faria, professora aposentada da Universidade de Brasília contratada pela Ufopa para coordenar o Centro de Formação Disciplinar, diz que falta mexer na qualidade dos cursos na expansão das federais. “As universidades ainda são muito conservadoras em suas práticas acadêmicas”, lamenta.

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É esse espírito nada conservador que os professores almejam que se torne cultura entre a comunidade acadêmica da Ufopa. “Espero que a gente consiga depositar nos alunos a vontade da excelência. Acredito que, com a nova estratégia que propõe a Ufopa pode ser, em breve, a mola propulsora do desenvolvimento que a região precisa”, afirma Jackson Fernando Rêgo Matos, 45, professor de biologia das florestas.

João Ricardo Vasconcellos de Gama, diretor do Instituto de Biodiversidade e Florestas, ressalta que o mercado precisa de profissionais com visão mais integradora e menos especialista. “A formação tradicional não atende o presente, quanto mais o futuro. O profissional precisará conhecer não só ferramentas da sua profissão, mas saber interagir com o meio social e as comunidades”, defende.

Arte/iG
Fonte: Arte/iG


Em etapas

Todos os futuros estudantes da Ufopa vão passar por um semestre de formação interdisciplinar igual para todos, onde aprenderão sobre os ecossistemas amazônicos, aspectos socioeconômicos da região, português, filosofia. A formação é dividida em ciclos. Depois do primeiro semestre, o estudante escolhe uma grande área de interesse entre as opções: Ciências da Educação; Biodiversidade e Florestas; Ciências da Sociedade; Engenharia e Geociências ou Tecnologia das Águas. Com três anos de estudo nessa área, ganham um diploma de bacharel interdisciplinar.

O objetivo das formações que ligam disciplinas aparentemente desconexas é também ampliar a visão acadêmica do estudante sobre os cursos e as carreiras. O medo dos estudantes, por outro lado, é que tantas matérias generalistas no currículo acabem prejudicando a aprendizagem de conteúdos específicos para cada profissão.

Andressa Farias, 20 anos, acredita que mais dois anos não serão suficientes para garantir uma preparação de qualidade para que o jovem atue como engenheiro florestal. No direito, a opinião é a mesma. “Não dá para aprender todas as matérias específicas em dois anos. Esses estudantes ficarão com a formação prejudicada e serão profissionais ruins”, acredita Rômulo Alves, 18.

nullEle e os colegas Paulo Victor Lira Vidal, 17, Daniele Barroso, 20, e Jéssica Vieira, 19, alunos do direito, criticam o projeto. Como a entrada nas áreas profissionais – mais específicas – ocorrerá pela ordem nas notas que tiverem nas etapas anteriores, eles ainda temem que os estudantes não consigam vagas nos cursos que desejam. “E se o aluno não conseguir a vaga no curso que ele quer? O que vai acontecer com ele? Acho que isso ainda vai gerar uma disputa entre os colegas e não está certo”, afirma Jéssica Adriane Ferreira de Sousa, 19, estudante do 2º semestre do direito.

Laboratório de experiências

Para testar os currículos que serão implantados no ano que vem, os docentes da Ufopa decidiram aplicar fazer um teste este ano. A partir do segundo semestre, quando assumiram turmas do programa do governo federal realizado em parcerias com as federais para melhorar a formação dos professores que trabalham nas escolas públicas de estados e municípios brasileiros, o Parfor, aplicaram o modelo aos participantes.

Cerca de 1,7 mil educadores de escolas públicas de diferentes municípios do Pará estão matriculados nas turmas de cinco licenciaturas integradas oferecidas a eles – que ainda não tinham um diploma de ensino superior – pela Ufopa: história e geografia, química e biologia, física e matemática, letras-português e inglês. O diferencial nesses cursos é que o professor sairá com o título em duas áreas.

O objetivo, além de fortalecer a interdisciplinaridade, é ajudar a sanar as deficiências de professores em determinadas áreas, como as de exatas e língua inglesa. Durante quatro anos, eles terão aulas a distância e encontros mensais com os docentes da Ufopa, que acontecem em seis municípios: Santarém, Itaetuba, Juruti, Oriximiná, Óbidos, Alenquer e Monte Alegre.

O projeto faz parte de umas das missões da universidade para desenvolver a região: acabar com os professores leigos (sem graduação) ou formação para a área que lecionam do Estado. A meta é formar 10 mil docentes em cinco anos.



Projetos futuros

O próximo passo da Ufopa será investir na oferta de pós-graduação. Hoje, cerca de 20 grupos de pesquisa já atuam em diferentes projetos na região. Agora, aguardam a aprovação de dois mestrados e um doutorado.

Keid Nolan, 37 anos, biólogo e professor do Instituto de Tecnologia das Águas, acha natural as dúvidas. “Estamos todos satisfeitos, porque a região vai ganhar muito. Eu me formei em 1996. eu precisei sair da minha casa e da minha cidade para estudar. O projeto ainda está em fase de aceitação e assimilação, mas a oportunidade aumenta o acesso ao ensino superior para as pessoas da região, que não teriam essa oportunidade antes”, afirma.

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