Formação de professor diferencia desempenho de universidades no Enade, diz especialista

BRASÍLIA - O bom desempenho dos cursos de universidades públicas no Exame Nacional de Desempenho (Enade) do ano passado é conseqüência da formação dos professores e do rigor na seleção dos alunos. A avaliação é da professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Bertha do Valle.

Agência Brasil |

As universidades públicas levam vantagem sobre as particulares porque, além de terem um corpo docente formado por mestres e doutores, os vestibulares para as públicas são muito rigorosos. Então, nós recebemos os melhores alunos que o ensino médio produziu. A nossa matéria-prima já é selecionada, o que não ocorre nas particulares. Muitas nem fazem o vestibular, disse, em entrevista à Rádio Nacional.

Os números do Enade, divulgados na última quarta-feira pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostraram uma maior concentração de cursos com as notas mais altas entre as universidades e faculdades públicas. Por outro lado, a maior parte dos cursos com as notas mais baixas está nas instituições privadas.

A professora lembra que o maior problema do Brasil no campo da educação ainda está no ensino fundamental. Mesmo os alunos que fazem vestibular para universidades públicas às vezes apresentam deficiências de ortografia e de raciocínio matemático que espantam, relata.

Para Lighia Matsushigue, do Grupo de Trabalho de Política Educacional do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), o resultado do Enade, que mostra deficiências em grande parte dos cursos de universidades particulares, é conseqüência do mercantilismo no ensino superior. O resultado decorre de uma anomalia apenas tolerada em países considerados periféricos, que é uma absoluta dominância do setor mercantil na educação superior, diz.

Ela diz que o Enade não é adequado para avaliar o ensino superior e não ajuda a resolver a qualidade da educação. Matsushigue defende a valorização dos professores, para que seja possível haver um quadro docente estável nas instituições.

A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, disse que não ficou surpresa com o desempenho das instituições particulares no Enade. Segundo ela, é preciso regulamentar o ensino privado, para que as universidades particulares também possam oferecer um ensino de qualidade.

É preciso um conjunto de leis que garantem que as faculdades só possam existir se atenderem uma série de requisitos, para que essas instituições caça-níqueis, descompromissadas com a educação que oferecem, e preocupadas apenas com o lucro de seus donos sejam obrigadas a fechar as portas, defende.

Lúcia comemorou a implementação do Conceito Preliminar de Cursos (CPC), um novo indicador de avaliação que leva em conta, além dos resultados da prova do Enade, a infra-estrutura do curso, a titularidade dos professores e a avaliação dos alunos sobre o currículo. Para ela, essa foi uma vitória do movimento estudantil, que criticava a avaliação exclusivamente por meio de provas aplicadas aos alunos.

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