Filho de secretário de educação em escola pública é raridade

A pedido do iG, a União Nacional dos Dirigentes perguntou a 200 secretários quem tinha filhos na rede, mas só dois responderam

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Encontrar um gestor de rede pública de ensino satisfeito o suficiente com as escolas a ponto de matricular os filhos não é tarefa fácil. O iG pediu indicações ao Ministério da Educação (MEC), às secretaria estadual e municipal de Educação de São Paulo e à União Nacional dos Dirigentes de Educação (Undime), que repassou o pedido a 200 secretarias de Educação de todo o país. Só este último órgão indicou dois casos.

Divilgação
Secretária de Educação de Aracaju, Tereza Cristina que tem um filho na rede municipal de ensino
A primeira a responder foi Tereza Cristina Cerqueira da Graça, secretária municipal de Aracaju, capital do Sergipe, que mesmo com muitas adversidades insiste em acreditar na capacidade da escola pública. Ela começou a tentar manter um filho na rede há duas décadas, quando ainda era professora e seu primogênito, hoje com 29 anos, iniciou os estudos. “Tentei por dois anos, ele não gostou, achava muito bagunçado e acabei colocando na particular”, conta. O filho do meio estava entrando na escola nesta época e foi direto para o sistema privado.

Em 2008, quando ela já era secretária, o caçula completou sete anos e foi matriculado em uma unidade pública. “Sempre achei que como educadora eu tinha que insistir, mais ainda como gestora do sistema”, diz. O menino foi reprovado duas vezes e até o começo deste ano não estava bem alfabetizado. “Eu cheguei a tentar ajudá-lo em casa, mas ele só reconhecia as letras, então o coloquei em uma escola, também municipal, bem mais longe de casa, mas com uma professora boa que conheço há muito tempo e em uma turma de aceleração apoiada pelo Instituto Ayrton Senna . Só de táxi para transportá-lo gasto uns R$ 400 por mês”, relata. O garoto, agora com 10 anos progrediu, já lê e escreve.

Para o próximo ano, Tereza confessa que ainda não sabe o que fará. “Confio nessa professora atual e estou pesquisando as possibilidades depois dela. Se eu achar alguém bom, vou mantê-lo na pública, mas caso não encontre pode ser que decida por uma particular”, diz.

No interior, todos estudam juntos

Luiz Cláudio Zóboli, secretário municipal de Conceição do Castelo, no interior do Espírito Santo, também matriculou o filho em uma escola da rede que administra. “Aqui filho de médico, advogado, agricultor e operário estudam juntos”, diz. A cidade tem 12 instituições públicas e duas particulares.

“Eu e minha mulher somos professores e confiamos nos nossos colegas. Além disso, na comparação acho que a pública é melhor não por aspectos científicos, mas pelas relações que são mais humanas, as crianças estudam do lado de casa e se percebem como parte da comunidade”, conta.

A mestre em sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Caren Ruotti, concorda com o secretário e lista outros benefícios da heterogeneidade. “A criança e os pais aprendem a respeitar mais as diferenças e não crescem com medo do outro, que é cada vez mais comum nas grandes cidades. A escola também ganha, pois os pais com maior renda normalmente fazem exigências diferentes e são mais incisivos na cobrança por seus direitos.”

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