Feudos de sangue isolam famílias na Albânia

SHKODER, Albânia - Christian Luli, um garoto de 17 anos, de fala mansa, passou os últimos dez anos aprisionado dentro da pequena e humilde casa de sua família, com medo de ser morto por um tiro ao atravessar a porta da rua.

The New York Times |

Para passar o tempo, ele joga videogame e faz esboços de casas. Como não pode freqüentar a escola, Christian tem o nível de leitura de uma criança de 12 anos. Uma namorada também está fora de questão. Ele gostaria de se tornar arquiteto, mas não tem esperanças para o futuro ¿ vive trancado em casa, sempre olhando para as mesmas quatro paredes.

Sempre foi esta mesma situação, a minha vida inteira. Nunca conheci outra coisa, desde criança, se queixa Christian, olhando melancolicamente o mundo proibido do lado de fora da janela. Sonho em ter liberdade, em freqüentar a escola. Se eu não tivesse tanto medo, sairia de casa. Viver desse jeito é pior do que viver em uma prisão.

O infortúnio de Christian é ser filho de um pai que matou um homem nesta região pobre do sul da Albânia, onde o antigo ritual do sangue feudal ainda prevalece.

De acordo com o Kanun, código albanês de comportamento que é passado de geração a geração por mais de 500 anos, sangue deve ser pago com sangue, com a família da vítima autorizada a fazer vingança matando qualquer parente do assassino do sexo masculino. A influência do Kanun está se tornando mais fraca, mas serviu como constituição do país por séculos, com regras governando diversas questões - como direito de propriedade, casamento e assassinato.

O Comitê de Reconciliação Nacional, uma organização albanesa sem fins lucrativos que trabalha para eliminar a prática de feudos de sangue, estima que 20.000 pessoas já foram diretamente afetadas por feudos de sangue desde que ressurgiram - após a queda do comunismo em 1991 - dentre elas, 9.500 assassinadas e cerca de 1.000 crianças privadas de educação escolar por estarem trancadas em casa.

Tradicionalmente, qualquer homem em idade suficiente para manejar um rifle de caça é considerado um alvo justo para vingança, o que torna vulneráveis 17 membros da família de Christian. Eles, também, estão presos em suas casas. A única restrição é que os limites da casa da família não podem ser invadidos. Mulheres e crianças têm imunidade, embora algumas, como o próprio Christian, que atingiram a maturidade física prematuramente, já iniciam o confinamento ainda garotos. Membros da família da vítima geralmente são os justiceiros, embora algumas famílias contratem matadores profissionais.

Feudos de sangue têm prevalecido em outras sociedades, como os crimes por vingança da máfia no sul da Itália e a violência retaliatória entre famílias xiitas e sunitas do Iraque.

Mas o fenômeno tem se mostrado bastante pronunciado na Albânia, um país desesperadamente pobre que luta para manter a regra desta lei depois de décadas de ditadura Stalinista.

Feudos de sangue praticamente desapareceram durante os 40 anos de comando de Enver Hoxha, o ditador comunista do país, que baniu a prática, muitas vezes queimando vivos os desobedientes nos caixões de suas vítimas. Mas especialistas em leis albanesas afirmam que os feudos re-surgiram depois que a queda do comunismo introduziu em um novo período de descumprimento às leis.

Cerca de 1000 homens envolvidos em feudos fugiram para o exterior, alguns deles pediram asilo político. Mas, ainda assim, dezenas de pessoas foram perseguidas fora do país e assassinadas por famílias vingadoras.

Ismet Elezi, professor de direito criminal da Universidade de Tirana que aconselha o governo e a polícia em como lidar com o problema, disse que mudanças recentes no código penal do país ¿ incluindo desde penas de 25 anos até prisão perpétua para aqueles que matam em um feudo de sangue, além de penas rígidas para indivíduos que ameaçam retaliação ¿ ajudaram a diminuir a prática. Mesmo assim ele percebeu que muitos ainda deram mais credibilidade ao Kanun do que ao sistema de justiça criminal, geralmente causando conseqüências sociais devastadoras.

A geração mais jovem não busca mais os códigos de comportamento das gerações antigas, disse ele. Mas os feudos de sangue ainda causam a miséria, pois os homens, presos em suas próprias casas, não podem trabalhar, as crianças não podem freqüentar a escola e famílias inteiras são privadas do mundo exterior.

Alexander Kola, um mediador que trabalha na resolução de feudos de sangue, disse que a causa mais comum dos feudos era a disputa pela propriedade de terra. Ele percebeu que feudos também podem surgir em virtude de ofensas aparentemente simples.  Ele se recorda de um caso recente no qual cerca de doze homens tiveram de ficar trancados em casa depois que um membro da família matou um lojista, que havia se recusado a vender um sorvete a seu filho. Em outro caso, um feudo surgiu quando uma ovelha pastou na terra do vizinho, dando início a uma luta mortal. 

Sociólogos do país disseram que os feudos inverteram papéis familiares tradicionais na região rural da Albânia, pois a s mulheres se tornaram as principais provedoras da família enquanto os homens tiveram de se trancar em casa e fazer o trabalho doméstico.

A mãe de Christian,Vitoria, de 37 anos, disse ter ordenado ao filho que ficasse em casa desde os 7 anos, depois que seu marido e seu irmão mataram um homem do vilarejo em uma briga de bar. Ela disse que seu outro filho, Klingsman, de 7 anos, estava freqüentando a escola mas logo teria que se juntar ao confinamento do irmão. Seu esposo e cunhado estão cumprindo pena de 20 anos de prisão por homicídio.

Vivo em medo constante que Christian seja assassinado, que alguém esteja perseguindo meus filhos, disse Luli, que depende da caridade alheia para o sustento de seus dois filhos e duas filhas. Eu queria que a outra família matasse alguém de nossa família para acabar com este pesadelo.

Ela disse ter enviado um mediador para tentar buscar o perdão da outra família, mas isso de nada adiantou.

A família da vítima, Simon Vuka, se recusou a comentar o fato. Mas Kola, que está mediando o caso, disse que a família não estava preparada para perdoar o feudo porque o assassinato tinha deixado dois garotos sem pai. Muitas famílias de vítimas sentem que o aprisionamento de todos os homens da família do assassino em suas próprias casas é uma vingança maior do que matá-los.

Christian, fraco e estóico com a maturidade se aproximando de frente para seus olhos, disse que culpava o pai, o tio e o código de comportamento ultrapassado pela destruição de sua vida. Ele disse que era injusto que fosse punido pelos pecados de seus familiares.

Seu único contato com o mundo externo ocorre uma vez ao mês, quando um grupo de freiras que faz trabalhos de caridade na comunidade forma um círculo de proteção em volta dele e o levam para dentro de um carro, para um passeio de 30 minutos até um centro comunitário próximo. Ele disse já ter fantasiado uma fuga da Albânia, mas sua família é pobre demais para mandá-lo para o exterior. Ele poderia se armar e fugir, mas ele teme que os riscos possam ser mortais.

O Kanun é cheio de regras idiotas feitas para outra época, disse ele. É totalmente injusto e não faz o menor sentido.

Feudos de sangue afetam tanto os jovens quanto os mais idosos da população albanesa, alguns deles desprovidos de tratamento de saúde adequado por não poderem sair de suas casas. 

Sherif Kurtaj, 62, é forçado a viver sem tratamento com um tumor nas costas e dentes podres por estar preso em casa há oito anos, desde que seus dois filhos mataram um vizinho que ele diz ter ridicularizado os garotos por estarem planejando emigrar para a Alemanha. Ele diz que precisa de uma cirurgia para salvar sua vida, mas teme morrer atingido pela bala de um vingador quando estiver a caminho do hospital.

Kurtaj disse que seus dois filhos, ambos condenados a 16 anos de prisão, continuavam soltos desde o assassinato. Mesmo se eles fossem presos, ele lamentou, ainda assim ele teria de permanecer trancado em casa.

Segundo Kurtaj, seus amigos também temiam visitá-lo por medo de serem baleados por engano. Ele também afirmou que o feudo o tornou completamente dependente de sua esposa. Sou um homem de Kanun, e fui criado para ser o homem da casa. Mas agora minha mulher é tudo para mim.

Kurtaj poderia fazer uma denuncia sob a lei albanesa contra a família da vítima por ameaçá-lo de morte: tal ofensa pode receber pena de prisão de até três anos. Mas Kurtaj teme que isto traga apenas represálias.

O Kanun deve ser obedecido, disse ele. O sangue deve ser vingado.

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