Férias em Marte?

¿A Terra é azul¿, disse o russo Yuri Gagarin, primeiro homem a orbitar em volta do planeta, no ano de 1961. Oito anos mais tarde, o astronauta americano Neil Armstrong deixou a marca do seu sapato na Lua. Os homens voltaram, logo em seguida, mais cinco vezes para o satélite. E pararam. Hoje, o mais perto que se chegou de solos desconhecidos foi por meio da sonda Phoenix, lançada pela National Aeronautics and Space Administration ou, simplesmente, Nasa.

Isis Nóbile Diniz |

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Isso não significa falta de interesse. A Agência Espacial Europeia (ESA, em inglês) em julho deste ano finalizou as inscrições de voluntários para participar da simulação de uma missão em Marte. Doze selecionados ficarão 520 dias confinados, em uma espécie de Big Brother científico, como se realmente estivessem explorando o planeta vizinho . A nutrição será idêntica a da Estação Espacial Internacional (ISS) e haverá uma fase de exploração da superfície do planeta. A experiência será feita em Moscou, capital da Rússia.

O objetivo da ESA, em conjunto com o Instituto Russo de Problemas Biomédicos (IBMP, em inglês), é investigar os fatores físicos e psicológicos dos astronautas. Segundo a Agência Europeia, uma viagem real durará por volta de dois anos, o que pode ocasionar problemas na saúde ainda desconhecidos . Para se ter uma ideia de como os astronautas deverão aprender a sobreviver em um planeta diferente, um contato via rádio demorará 40 minutos para viajar até a Terra e o mesmo tempo para voltar para Marte.

A Europa não está sozinha nessa empreitada. A Nasa também quer levar humanos para Marte. As agências programam lançar, em 2013, o chamado Mars Atmosphere and Volatile Evolution ou Maven Orbiter que irá fornecer informações sobre a atmosfera, história climática e potencial habitabilidade marciana. A missão custará US$ 485 milhões. A equipe começará a produção e implementação em 2009. Antes, no ano que vem, a Nasa vai mandar outro carrinho para o Planeta Vermelho.

O Mars Science Laboratory irá coletar com uma espécie de furadeira amostras rocha e do solo marciano para analisar os compostos orgânicos e as condições ambientais que poderiam ter apoiado vida microbiana agora ou no passado. Mas esse projeto é feito em conjunto com outros países. Terá componentes russo, espanhol e canadense. Explorará o planeta por cerca de dois anos terrenos ¿ tempo que Marte leva para dar a volta completa em torno do Sol .

Perto da segunda década deste século XXI, os cientistas querem ir mais longe. Pretendem enviar foguetes que, pela primeira vez, tragam à Terra amostras de rochas, solo e atmosfera marcianos para análises físicas e químicas. As pesquisas são feitas em conjunto. O Grupo de Trabalho iMars ( Mars Architecture for the Return of Samples ), do International Mars Exploration Working Group (IMEWG), este ano, produziu um relatório sobre a pesquisa. O documento definiu os requisitos científicos, de engenharia e as estruturas terrestres de apoio necessárias ao armazenamento e análise das amostras recebidas para a missão .

O projeto intitulado Mars Sample Return envolve cooperação entre a ESA, a Nasa, a Canadian Space Agency (CSA), a Japan Aerospace Exploration Agency (JAXA) e outros países. As amostras recolhidas irão aumentar o conhecimento sobre o solo marciano e contribuir para responder questões sobre a possibilidade de vida no Planeta Vermelho . As agências acreditam que, para conseguir lançar uma missão tripulada para Marte, é importante todo esse investimento e um esforço internacional em conjunto.

Viagens interplanetárias

Um dos grandes problemas é entender o que acontece com o corpo humano ao ficar, por tempo prolongado, em gravidade bem menor do que a sentida na Terra, explica Thyrso Villela, diretor de Satélites e Aplicações da Agência Espacial Brasileira (AEB). Uma pessoa, que pesa 100 quilos na Terra, em Marte pesaria 37,9, pois a gravidade corresponde a 38% da terrestre .

Os problemas com a saúde também podem ser psicológicos. O efeito de uma viagem de longa duração em um ambiente pequeno é complicado, diz Villela. A parte interna de uma nave pode ser do tamanho do interior de um carro popular. Sem contar que o sinal de rádio para a comunicação pode demorar longos minutos para chegar até a Terra, principalmente, devido ao processamento dele. Se a pessoa estiver no Sol, por exemplo, o sinal de rádio demoraria mais de oito minutos para alcançar a Terra, conta.

Outro detalhe é o oxigênio que o homem respira, visto que a atmosfera dos outros planetas é diferente. A atmosfera de Marte, por exemplo, é basicamente composta por dióxido de carbono. Inclusive, os componentes tecnológicos que os seres humanos utilizam nas naves demandam energia para funcionar. Como fazer em outro planeta? Algumas opções seriam usar energia solar ou atômica, esta mais eficiente, mas limitada. Sair e entrar da atmosfera terrestre, devido ao atrito que dura minutos, também continuam sendo ações delicadas.

O tempo de locomoção entre os planetas também deve ser considerado. Para a Lua, que está a 380 mil km de distância, é possível ir e voltar em quatro dias . Mas a sonda Phoenix, lançada pela Nasa, demorou 10 meses para chegar até o vizinho planeta Marte. O Planeta Vermelho, como outros, gira em torno do Sol, por isso sua localização varia. A menor distância entre Terra e Marte, nos últimos 60.000 anos, foi de 55,78 milhões de km em 2003. Bem maior que a da Lua.

No mundo da Lua

Acredito que o homem não voltou à Lua devido aos custos financeiros de uma missão como essa, afirma o diretor da AEB. O material que trouxeram também era suficiente para as analises da época, diz. Entretanto, é importante lembrar que as viagens para o satélite aconteceram na época da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a, então, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) mostravam e disputavam seus conhecimentos tecnológicos.

Hoje em dia, o investimento financeiro de viagens até a Lua ainda são relevantes. Se descarta praticamente tudo. Muitos equipamentos como o módulo de aterrissagem ficam no satélite, explica o diretor. Os astronautas voltam apenas com uma pequena cápsula. Mesmo que o material não possa ser reutilizado, é um desperdício de tecnologia. Além disso, é necessário empregar pessoas para monitorar a viagem e investir em tecnologia. Talvez com uma nova tecnologia possa ser economicamente mais viável, conta. Com os ônibus espaciais, por exemplo, é diferente. Eles pousam como um avião e são reutilizáveis. Bastam poucos ajustes para voltar a voar, explica o diretor.

Segundo Villela, estuda-se a possibilidade de colocar diversos experimentos em solo lunar. Um intuito é utilizar a Lua para treinar os humanos e a tecnologia em voos mais longos como, por exemplo, até Marte, afirma Villela. No futuro, o satélite poderá se tornar uma espécie de parada para abastecimento, para conferir componentes ou de emergência. Em até dez anos, esses projetos poderão ser colocados em prática.

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