Faltam professores qualificados no ensino médio

Docentes desta etapa lidam com várias turmas, salas cheias e lecionam conteúdos para os quais não se formaram

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 24/02/2011 07:00

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Para ensinar, seria esperado que os professores estivessem entre os profissionais mais bem preparados da sociedade, mas indicadores apontam que isso está longe de acontecer. Décadas de salários baixos e relatos de condições de trabalho inadequadas afastaram da carreira a maioria das pessoas com os melhores desempenhos enquanto estudantes. A falta de atratividade da profissão atinge a educação brasileira como um todo, mas provoca consequências ainda mais sérias no ensino médio, como falta de professores especializados, o tema da quarta reportagem da série especial do iG Educação sobre o fracasso desta etapa.

Uma pesquisa da Fundação Lemann aponta que 30% dos estudantes que decidem ser professores estavam no grupo dos 5% com as piores notas quando eram alunos. “As pessoas que buscam a carreira são, em geral, de classe baixa e ainda vêem o cargo como ascensão social, mas infelizmente carregam pouca bagagem cultural”, comenta Elizabeth Balbachevsky, pesquisadora participante de grupos internacionais na área de educação para jovens e livre docente pela Universidade de São Paulo.

A falta de preparo é mais preocupante no ensino médio. A complexidade dos conteúdos exigiria profissionais com formações específicas e aprofundadas, mas como as escolas não encontram quantidade suficiente no mercado, salas de aula acabam ficando vazias ou docentes de uma área são improvisados em outras para as quais não têm formação adequada.

A primeira opção é mais comum nas redes públicas. Alan Henrique Meira dos Santos, de 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio na escola estadual Irma Annette Marlene Fernandez de Mello, zona leste de São Paulo, afirma que a falta de aulas por ausência de professor é o maior problema que enfrenta para aprender.

O jovem conta que, no ano passado, não teve aula nenhuma sexta-feira. “De português, trocou o professor três vezes e teve aula no máximo durante dois meses”, afirma, enquanto folheia o caderno na tentativa de lembrar de todas as disciplinas que cursa. “Física, o professor vinha, biologia, faltou só um pouco, e filosofia veio quase metade do ano. Inglês, não teve.”

Na ausência do professor específico, as escolas tentam preencher as aulas com o profissional que tem à disposição. Um relatório de 2009 também da Fundação Lemann mostra que menos de 40% dos professores de física, química, artes e inglês do ensino médio são formados na disciplina que ministram. Mesmo em língua portuguesa e matemática, esse porcentual não passa de 70%.

Foto: Pablo Rey/Fotoarena

Sociológo, Jocimar da Silva dá aulas também de filosofia e espanhol em colégio particular de Recife

No Recife, o sociólogo Jocimar da Silva procurou trabalho como professor de sociologia no colégio particular Curso Menezes e ganhou também as vagas para ministrar disciplinas de filosofia e espanhol. Segundo ele, mesmo sem ter estudado a didática de ambas, o fato de ter feito um curso de línguas o ajuda nas aulas de espanhol, e as outras duas matérias são relacionadas à sua formação. “Foi minha primeira experiência como professor titular. Antes, durante a faculdade, eu tinha feito estágio em escola pública, mas como substituto de matemática”, conta.

Jocimar assumiu todas as três séries do ensino médio e também parte do fundamental. Com isso, passa as manhãs em sala de aula. À tarde, ele tem um segundo emprego como assessor de um vereador. “Por sorte, só vou à Câmara em dias de reuniões e, no restante, trabalho de casa e consigo tempo para ver o material da escola e preparar a aula.”

Empregos múltiplos

A falta de dedicação exclusiva à educação também é mais frequente no ensino médio do que no ensino fundamental ou infantil, segundo pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro, braço do Ibope voltado à educação. Segundo entrevistas realizadas com professores das 10 maiores capitais brasileiras, enquanto 12% dos docentes em geral realizam outro trabalho além de lecionar, no ensino médio, esse porcentual vai para 21%.

A diretora-executiva da instituição, Ana Lúcia Lima, ainda aponta o fato de os profissionais darem aulas em muitas turmas, normalmente superlotadas, como dificultador do trabalho docente. “Há no ensino médio uma parcela maior de professores com melhor formação. Por outro lado, a grade curricular prevê um grande número de disciplinas, com aulas distribuídas ao longo da semana, fazendo com que muitos lecionem em várias turmas, às vezes, dispersas por diferentes escolas”, diz.

Na pesquisa, os docentes do ensino médio também reclamaram de falta de valorização por parte dos pais e alunos e da lotação das várias salas de aula que frequentam. Um educador dessa fase de ensino tem, em média, 402 alunos, com os quais mantém um contato pouco frequente. “Em síntese, é mais crítica a situação dos professores do ensino médio com relação às condições de trabalho e ao desprestígio junto à sociedade”, conclui a diretora do instituto.

Foto: Amana Salles/Fotoarena

Professor Walmir dá 31 aulas por semana: "Infelizmente, não sobra tempo para preparar projeto de aula diferenciado ou de recuperação para os alunos"

Quem tenta melhorar a formação encontra dificuldade

O professor de língua portuguesa da rede estadual de São Paulo, Walmir Siqueira, dá aulas para uma quantidade de estudantes um pouco acima da média registrada pela pesquisa: 440 em 11 turmas diferentes. “As salas de ensino fundamental têm até 35, mas as do ensino médio, todas, recebem mais de 40”, comenta.

Formado em 1994, ele conta que procurou a profissão com a visão que tinha na época: “Ser mestre ainda era algo nobre”, lembra. Em 1995, chegou a receber orientações dentro da escola em que iniciou a carreira. “Tinha um coordenador por disciplina e reuniões semanais para discutir projetos em conjunto”, afirma.

A formação interna foi interrompida no ano seguinte, mas o governo formou uma parceria com universidades para que os professores fizessem pós-graduação. “Comecei e estava adorando, mas o convênio foi interrompido no meio, ninguém ganhou diploma nem nada”, recorda. Empolgado com os estudos, Walmir se matriculou em um curso particular no ano seguinte, mas diz que não concluiu o projeto por falta de tempo e dinheiro.

O professor recebe R$ 1.600 por mês e conta que o salário baixo também o impede de se dedicar mais às dificuldades apresentadas pelos alunos. “Para ganhar isso, dou 31 aulas semanais (o limite permitido pela legislação paulista é de 32). Infelizmente, não sobra tempo para preparar um projeto diferenciado, mais atraente, ou aulas de recuperação, que são obviamente necessárias.”

Ainda esta semana:
Sexta-feira: Iniciativas que podem mudar este quadro

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    209 Comentários |

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    • Jackson | 08/03/2011 17:02

      Olá pessoal gostei muito dos comentários! Estou em início de carreira nessa profissão e já me decidi que isso não é o que quero da vida. Cursei matemática na Universidade Estadual de Montes Claros, me mudei para Montes Claros para me dedicar ao curso, lagando o emprego que tinha na minha cidade, durante os quatro anos tirei as melhores notas possíveis, meu curso ganhou conceito A do MEC, participei de projetos educacionais da universidade, varios cursos de verão na área, aprovei numa seleção de mestrado da UFV onde fiquei cursando por oito meses esperando a bolsa que havia ganhado com méritos e que não vinha nunca até que minhas forças finaceiras acabaram e não tive como trabalhar pela cidade não oferecer e o curso ser integral. Retornei a Montes Claros e fui lecionar na rede estadual onde encontrei alunos indiciplinados, escolas sem as mínimas condições de trabalho, engenheiros tomando a vaga dos professores de matemática, diretores sem a mínima conciência do que é educação e a sociedadde num todo só querendo o diploma de Ensino Médio sem se preocupar pra que ele vai servir.
      Decidi então não bater de frente com isso que chamam de educação e estou na luta pelos concursos que não seja nessa área. E ganho o que comer com aulas particulares, disposto a jogar anos de dedicação de estudos pela decepção que é ser professor.

      Abraço!
      Lute pelo seus ideais, mas não deixe que eles o destrua.

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    • Natu Zen | 05/03/2011 22:56

      Olá pessoal,

      Sou prof. de Sociologia, e, após terminar o mestrado, me dediquei a atividades como autônomo e, neste ano, retornei como professor do Ensino Médio. Minhas aulas são todas de Filosofia e Sociologia.

      Na escola onde trabalho, a gestão escolar é autoritária, e isto evidentemente influenciou até mesmo funcionários que, outrora, se curvariam à passagem de um professor. Explico-me: já tinha terminado minhas aulas, às 12h 30min, quando, ao esquecer algum material na sala dos professores, encontrei o FAXINEIRO da escola dizendo em tom de zombaria para mim: "Só passeando, hein professor".

      Não há nenhum resquício ou sombra de dúvidas que não existe um mínimo de respeito ao professor, principalmente da escola pública.

      O governo, perfidamente, cria situações de desvalorização do trabalho docente; ele opera a proletarização do quadro docente de diversas formas, ora colocando professores uns contra os outros, ora contratanto não licenciados, fazendo com que o licenciado, e principalmente o TITULADO (pós-graduação, mestrado, etc) seja desvalorizado.

      Há cerca de 20 mil professores de Sociologia em todo o estado, e pasmem: apenas 2,7% são Licenciados em Ciências Sociais, o que indica que, professores de Geografia, História, Pedagogia, Matemática e até mesmo professores NÃO-HABILITADOS estão dando aulas de Sociologia. Como?? É simples...

      É só se lembrar da sopa de letrinhas "F", "L", "O" nas Atribuições de aulas. Ora, sabemos que todos os anos mudam-se os critérios de atribuição e aula. Essa mudança de critério não é aleatória e muitos menos ocasional como possa parecer a princípio, porque, se o governo alega que "não há professores de Sociologia", então é lógico que, com o crescente número de ofertas de vagas de Sociologia e Filosofia nas escolas, há um estímulo para que professores com diplominhas rasos (pedagogos e outros de licenciatura curtas), e principalmente não habilitados NA ÁREA, peguem todas as suas aulas.

      O que sobra nessas atribuições é somente a raspa do tacho, em que você vai parar em alguma escola de gestão autoritária, onde já não se encontra nenhum vestígio quando a pauta é respeito à dignidade do professor.

      Largarei as minhas aulas!! Já deixei isso avisado na minha "sede".

      Penso, amigos, que vocês estão muito errados em estender essa bandeira: "estamos sendo humilhados, pisados, cuspidos na cara, mas somos "corajosos", "destemidos" e não desestimos nunca".

      Sabem?? Se estão rindo na vossa cara; se o salário chega ao ridículo de um inspetor de aluno ou um faxineiro vir lhe cobrar satisfações do que vc está ou não fazendo na escola; se a diretoria da escola te trata como se vc fosse um escravo infiel, então está muito claro que, um trabalho desse tipo é só para pessoas masoquistas, nas quais, já não é possível encontrar nenhum vestígio de auto-estima.

      Fala-se muito - e eu tenho lido muito sobre isso - na mídia escrita (internet e jornais), que os baixos salários e a desvalorização do professor DESESTIMULA o profissional.

      Eu que o diga! Nós que o digamos! Depois de dar 5 ou 6 aulas seguidas, você sai com aquele sentimento de que só esteve ali perdendo o tempo, e que, na sua ausência, um zé-ninguém teria dado a aula, pois o que o Estado cobra é que a "aula seja dada" e não que O ALUNO TENHA APRENDIDO.

      Aos que defendem o falacioso discurso de "quão sublime é ser professor"!!!

      Penso que já se foi os meus tempos em que eu era voluntário de instituições religiosas, em que trabalha para diversas ONGs.

      Sinto muito pelos alunos.

      Deus dá a cada um segundo suas obras.

      Boa sorte aos que ficam.




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    • FRANCISCO | 28/02/2011 09:45

      Estou como professor a 18 anos. Durante esse período já passei por quase tudo: ameaça de alunos, roubo, abuso de direção,trabalhar doente, bombas... Fiz 2 pós-graduações latu-sensu e 1 mestrado, sou convidado a dar palestras e dar aulas párticulares. Alguém duvida que estou bem preparado? Tentei escolas particulares (que nos renegam por sermos professores da rede pública). Por saber que existem muitas pessoas que necessitam de uma orientação, pois não encontram isso em casa, continuei a trancos e barrancos, com 2 ou 3 escolas para conseguir uma jornada de 33 aulas semanais. Desempenhei meu trabalho com compromisso e seriedade, até dois anos atrás, quando fiquei acamado. Preciso de remédios que custam R$ 180,00 a caixa e duram 10 dias. Não consigo comprar para o mês inteiro, ganho R$1182,20,sem beneficios, sem gratificações, sem ticket, sem apoio, com 3 filhos pra sustentar. O que recebi do governo? Nem um muito obrigada. Só descaso. Tenho benefícios para receber desde 2009, mas até agora nada. Os anos de dedicação exclusiva não valeram nada. É humilhante ficar contando migalhas, pedindo empréstimos. Aliás, é no banco que encontro meus colegas de trabalho. Quando é que as pessoas vão entender que um funcionário é motivado pelo reconhecimento "pleno" de seu trabalho? Minha sorte é que meus ex-alunos me procuram para as aulas particulares de cálculo e álgebra, assim vou ganhando uma merreca. Se posso dar um conselo a quem está começando... Não terminem!!!!

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      Lizete da Penha | 28/02/2011 17:23

      Pois é Francisco! Eu também sou professora a vinte e dois anos, também estou doente. E algumas horas atrás recebi um e'mail que me deixou boquiaberta. Vamos lá! Os presidiários irão receber um auxilio de R$800,00 - por cada filho que tiver. Certo! Se por acaso ele possuir cinco filhos, que não é nada difícil; faça as contas e veja contas caixas do remédio que vc usa dará para comprar. pois é! Eu estou revoltada e o pior e que não podemos fazer nada, a não ser ficarmos reclamando neste site do IG. Bem já é um desabafo. Não é mesmo?
      Abraços! Lidadri

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    • Gilberto | 27/02/2011 18:03

      Caros amigos, sou professor a cerca de 23 anos. A aproximadamente 6 anos faço parte do quadro de funcionário inativo do Estado de São Paulo, por outra secretaria.
      Ministrei aula na rede pública por 2 anos e só não continuei no Estado por existência de lei que não permitia o acúmulo de cargo. Migrei para a rede particular e mantenho vínculo com uma das escolas a cerca de 22 anos. Nos meus trinta anos como servidor público nunca faltei ou cheguei atrasado ao meu trabalho. trabalhei, por duas vezes, com o braço quebrado, tudo por amor. Construi meu patrimônio intelectual e faço valer esta conquista. Não me sinto humilhado por ninguem e não me curvo perante os imorais que atuam na pólítica do nosso país. Sou missionário, assim como todos colegras educadores, que tem como mister levar a liberdade a todos que estão ao nosso alcance, direta e inidiretamente. Como funcionário público tive consciência de minha importância como representante do Estado e principalmente assisti com devoção aos mais humildes, pois são essas pessoas as mais exploradas pelos maus políticos. Somos os guardiões da sociedade e do nosso país. Colegas, não vamos nos abater, pois somos pessoas especiais.

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    • Margarete | 27/02/2011 12:05

      Concordo com você Bonfim .Gostaria muito de ver faltar professor nesse país. A todo instante vejo o professor ser taxado de incompetente e desqualificado . Penso que diante de tanta incompetência porque não criam um sistema online de ensino ?Assim iria acabar o problema. Estou farta de tanto desmerecimento! Também sou professora e estou cansada de tanto descaso conosco.

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    • IRENE FARIA | 26/02/2011 11:52

      Se não houver uma boa mudança urgentemente, a tendência é piorar, porque cada dia menos pessoas querem fazer licenciatura, poucas instituições de ensino conseguem montar turma de licenciatura. Ninguém quer passar 4 anos fazendo uma graduação, mais 2 fazendo uma especialização, para ter um salário tão baixo, ambientes inadequados de trabalho, sofrer humilhações, ser visto e tratado como um qualquer, sendo que professor é a base de qualquer profissão. Senhores políticos revejam a profissão, valorize-a, pergunto a vocês, quem não passou por um professor

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    • Eduardo de Carvalho | 26/02/2011 00:47

      Poxa, que bacana essa reportagem.

      Trabalhei com o Walmir na escola durante um ano.
      O cara é muito dedicado como professor e sindicalista tb.
      Sabe separar muito bem as coisas.
      Têm uma excelente didática e um grande bom humor.
      Muito bom vê-lo dando essa entrevista.
      E eu como ele continuo na rede, ministrando aulas de filosofia e claro acumulando cargo em outra rede.
      Vamos firme na educação, que é um ideal de vida.

      Grande abraço a colegas professores.
      Edu

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    • Mustapha | 26/02/2011 00:19

      Sou professor da rede estadual e de uma escola particular para tentar sobreviver,gosto do que faço ,mas com certeza muita coisa precisa melhorar a começar pelos salrios e ai o professor ter somente uma jornada ,acabar com a progressão continuada é outra necessidade ,além de muito mais isso seria o inicio.Acorda São Paulo.

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    • Bonfim | 25/02/2011 23:12

      Estou iniciando a carreira como professor. Ah... se arrependimento matasse! Estou dando aula a duas semanas e não tenham dúvida que abandono a educação na primeira oportunidade. O país vai ficar sem professor... é apenas uma questão de tempo. É muita humilhação dentro e fora da sala de aula. É revoltante ver a propaganda do governo de que o professor é o esteio da sociedade. Este esteio está se partindo... e a casa vai cair.

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