Falta de formação eleva desemprego entre jovens

Pesquisas mostram que a população com menos experiência é a mais prejudicada pela falta de espaço no mercado de trabalho

Priscilla Borges, iG Brasília |

As maiores empresas do País enfrentam problemas para selecionar mão-de-obra qualificada. Pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral com 76 empresas selecionadas em rankings que apontam as maiores e melhores empresas brasileiras revela que, apesar de elas estarem retomando os investimentos após a crise econômica do ano passado, não encontram pessoas prontas para ocupar os postos de trabalho que possuem.

Os dados mostram que 67% delas enfrentam dificuldades na contratação de pessoal. Os engenheiros e os técnicos em diferentes áreas, como transporte, siderurgia, indústria automobilística, são os mais procurados e menos encontrados. Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura da Fundação Dom Cabral e responsável pelo estudo, afirma que os jovens são os mais prejudicados.

“O sistema universitário brasileiro não acompanhou, em termos de especializações, as mudanças ocorridas no mundo corporativo. Hoje, continuamos a descarregar no mercado um excesso de profissionais para os quais não existe uma demanda forte”, avalia. Segundo Resende, os cursos de engenharia deixaram de ser atraentes para os estudantes na última década. Agora, faltam profissionais da área.

Resende conta que 80% das empresas que responderam ao estudo estão retomando os investimentos para aumentar a capacidade de produção. Para concretizar os planos, precisam de engenheiros de produção, escassos no mercado. “Outra grande dificuldade das empresas está na contratação de técnicos. Há tecnologias hoje que seriam facilmente assimiladas por esses jovens, que fariam diferença. Mas, infelizmente, incutiram na cabeça dos jovens que só ter diploma universitário é o que interessa”, lamenta.

Mudanças estratégicas
Paulo Resende defende a valorização dos cursos técnicos pela sociedade e mais investimentos na construção de escolas e capacitações que atendam à demanda do mercado. Ele acredita que todas as esferas do governo têm um importante papel no fomento dos investimentos nessas carreiras, mas defende a participação dos empresários nesse processo. “Precisamos desmistificar o primeiro emprego. É preciso incentivá-lo”, afirma.

Estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas confirma que investir em cursos técnicos é um bom negócio: as chances de emprego aumentam em 48,2% em relação a quem só concluiu o ensino médio. Os salários ainda podem chegar a 13% a mais.

Não é raro que os empresários reclamem da formação e da pouca experiência dos jovens, mas Paulo lembra que eles precisam ter a primeira chance para adquirir a preparação exigida por cada área. Por isso, ele defende parcerias entre instituições de ensino e empresas para garantir a formação dos estudantes ao mesmo tempo em que se preparam com as aulas teóricas.

“Acho que o País também deveria oferecer uma plataforma dinâmica de informações sobre as vagas de emprego existentes. Os profissionais ficam perdidos sem saber onde procurar um emprego”, diz.

Habilidades básicas
Candido Gomes, professor da Cátedra Unesco de Juventude, Educação e Sociedade da Universidade Católica de Brasília, estudioso dos temas relacionados à juventude, acredita que as falhas de formação dos jovens tornam o caminho deles no mundo profissional ainda mais difícil. “Não é só uma questão de conhecimento específico adquirido. Eles também não aprendem a se expressar de forma correta, não sabem resolver conflitos. A formação de valores também tem problemas”, critica.

O professor acredita que as escolas de ensino médio estão muito preocupadas com o conteúdo e pouco com a preparação dos alunos para a vida. “Daqui a pouco, os conteúdos despejados por elas serão obsoletos. É preciso ir além”, afirma. Candido também defende que a escola contribua para a formação de competências gerais para o trabalho.

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