Onze anos depois da morte por afogamento do calouro Edison Hsueh, após uma festa de recepção aos novos alunos da faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), trotes violentos continuam a ocorrer no início dos anos letivos ferindo e traumatizando estudantes. Nos últimos anos, as faculdades investiram contra a barbárie ao valorizar o trote solidário, atividades educacionais e disponibilizar canais para denúncias anônimas. Mas casos graves insistem em acontecer.


No começo deste mês um calouro de 18 anos foi agredido e obrigado por veteranos a beber álcool combustível. Durante oito horas, o estudante de veterinária da Unicastelo, em Fernandópolis, cidade localizada a 533 quilômetros de São Paulo, sofreu agressões físicas e psicológicas.

Há um ano, duas estudantes sofreram sérias queimaduras no corpo após uma veterana despejar em seus corpos uma substância química. Na época, uma das vítimas estava grávida de três meses. O crime ocorreu na Fundação Educacional de Santa Fé do Sul, a 623 km de São Paulo.

Também no interior paulista o calouro Bruno César Ferreira foi vítima de agressão física e entrou em coma alcoólico. Ele afirma ter sido agredido com um chicote, obrigado a entrar em uma lona com fezes de animais e ter sido forçado a tomar pinga.

Cartaz da Unicamp com a frase "Diga não ao trote" / AE

Trotes violentos têm sido punidos pelas instituições de ensino com suspensões e expulsões. De seis casos graves de agressões contra calouros levantados pela reportagem, três terminaram em expulsão, dois ainda estão sob sindicância e em um, o do calouro Edison Hsueh, os responsáveis não foram encontrados. ( Clique aqui para ler sobre os casos )

Prevenção

As maiores instituições de São Paulo, a USP, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a unidade de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), divulgaram telefones para receber reclamações referentes aos trotes.

Na USP, o disque trote (0800-012-10-90) recebeu sete chamados até a noite de terça-feira. Segundo o professor Oswaldo Crivello, coordenador dos trabalhos pró-calouro da reitoria de graduação, as ligações foram de funcionários e de pessoas que testemunharam os trotes, não de calouros vítimas. Recebemos apenas relatos sobre as pinturas e o consumo de álcool por alunos, informa Crivello.

A Unicamp, que disponibiliza o telefone (19) 3521-7007 para a denúncia de trotes violentos, também não recebeu nenhum caso grave até o momento. De acordo com a professora Maria Teresa Moreira Rodrigues, coordenadora do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), o canal recebeu chamadas de funcionários da vigilância com dúvidas e de novos alunos pedindo informações e dicas. Quanto à pintura do corpo, é algo que os próprios alunos e pais pedem, destaca Maria Teresa.

A unidade de Rio Claro da Unesp, que colocou o telefone (19) 3526-9004 para receber denúncias, ainda não recebeu nenhuma reclamação. Desde 1999, o trote é expressamente proibido nas unidades da Unesp por uma resolução. A instituição afirma no documento que não tolera agressão física, moral ou outras formas de constrangimento, dentro ou fora do espaço físico da universidade.

Estudantes participam de trote tradicional ao lado da Escola Politécnica da USP / AE

Crime

O Projeto de Lei 1.023 de 1995, que criminaliza o trote violento, aguarda votação no Senado Federal, após ter sido aprovado pela Câmara em fevereiro de 2009. O PL e mais 15 anexos consideram como contravenção penal os casos de trote estudantil, quando esses atos submetem alguém à situação ridícula ou ofensiva. Como punição, o texto prevê detenção de um a cinco meses e multa que varia de R$ 100 a R$ 500.

Em setembro de 2009, o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF/SP) recomendou a todas universidades do Estado promover medidas de segurança para coibir a prática do trote violento, humilhante, vexatório ou constrangedor aos calouros, tanto nas dependências da instituição como fora dela.

O Ministério também indicou que as universidades fizessem campanhas permanentes de orientação sobre as consequências legais do trote, já que os estudantes podem ser processados pelos crimes de lesão corporal (pena de três meses a um ano de prisão), constrangimento ilegal (detenção de três meses a um ano ou multa) e até tentativa de homicídio.

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