Expansão das universidades públicas volta a atrair doutores

Docentes deixam rede privada em busca de apoio à pesquisa e estabilidade. Rede pública contrata mais e melhora salários

Priscilla Borges, iG Brasília |

Marcos Brandão/OBrittoNews
Lourdes Brasil é professora da UnB
A professora de engenharia eletrônica Lourdes Mattos Brasil, 46 anos, deixou a universidade privada onde trabalhou por seis anos para se dedicar mais à pesquisa em uma federal. Lourdes aproveitou a oportunidade aberta pela Universidade de Brasília em 2008, quando realizou concurso para contratar docentes para um novo campus.

“Até 2007, os salários nas particulares eram mais atrativos. Mas, quando o governo começou a expandir a rede federal, melhorou os salários. Eu queria trabalhar na minha área de formação específica e fazer pesquisa, que não tem tanto apoio na rede privada”, justifica. A estabilidade do emprego público fortaleceu a decisão.

Lourdes não é a única a trocar as melhores remunerações – em grande parte dos casos, mas não todos – das instituições privadas pela carreira pública. Maria Célia Pressinatto, reitora do Centro Universitário Barão de Mauá, conta que está se tornando cada vez mais comum a migração dos professores da rede particular para a pública. Ela conta que, só no ano passado, perdeu cerca de 12 doutores.

“No passado, especialmente doutores aposentados vinham trabalhar na rede privada. Houve um tempo em que os salários eram melhores nas particulares, porque as federais ficaram muitos anos sem aumento. Hoje, com a competitividade do mercado no ensino superior privado, a situação está instável para muitos”, avalia Maria Célia.

A estabilidade da carreira pública, para Maria Célia, é um dos maiores atrativos. “Temos professores que estão indo para outros Estados e até regiões”, afirma. Segundo a reitora, as dificuldades aparecem quando o professor precisa largar a turma no meio do semestre.

“Essa contratação imediata é que nos preocupa por causa da questão pedagógica. Temos já um banco de currículos para não deixar nossos alunos sem aulas e todo o trabalho do futuro professor é acompanhado por uma comissão pedagógica”, diz. Ela acredita que instituições menores podem encontrar mais dificuldades.

O diretor de marketing da Universidade Católica de Brasília, Roberto Resende, acredita que essa rotatividade é normal. “Há vantagens e desvantagens nos dois lados. É uma decisão pessoal”, defende. “Não vemos como um problema para a universidade”, diz. Roberto conta que há professores que deixaram a instituição, mas que a reposição foi rápida e não prejudicou os alunos.

Comprovação em números

Ainda não há estudos sobre esse fenômeno entre as associações que representam as instituições privadas de ensino ou no Ministério da Educação. Porém, os números de funções docentes (número de postos de trabalho) do Censo da Educação Superior, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), revelam que, de fato, os doutores se tornaram mais numerosos nas federais do que nas privadas nos últimos anos.

Em 1991, a rede federal possuía 7 mil doutores. Em 2002, eles eram 18 mil. Em 2008, as federais tinham 30,6 mil. Já nas particulares, em 1991, 3 mil professores com título de doutorado davam aulas. Em 2002, 7 mil e, em 2008, 12,9 mil. É importante ressaltar que as instituições privadas representam 90% do sistema educacional superior brasileiro, que possui 2.252 instituições.

Com os programas de expansão da rede federal iniciados pelo Ministério da Educação em 2003, foram autorizadas a realização de concursos e a contratação de 21,7 mil docentes e 24 mil técnicos administrativos. Um desses foi aproveitado por Lourdes, que possui doutorado na área de engenharia biomédica e está criando um curso de pós-graduação na área na Faculdade da UnB no Gama.

O sociólogo Sérgio Amadeu, 48 anos, também decidiu trocar a instituição privada na qual deu aulas durante anos por uma nova empreitada. Ele, que era da Cásper Líbero, em São Paulo, quis ter mais espaço de pesquisar. Doutor na área de comunicação em rede, ele pretende estudar as políticas públicas na sociedade da informação. Na rede privada, as chances de conseguir atingir esse objetivo eram pequenas.

“A Cásper é uma instituição excelente, mas a lógica é outra. A pesquisa requer um desprendimento que as instituições privadas não têm muito. Se você quer pesquisar, tem de ir para rede pública”, garante. Sérgio ainda teve dúvidas se assumia o cargo na Universidade Federal do ABC, porque a instituição era muito nova e ele teria uma queda de salário inicial. Agora, está contente com a decisão.

Paulo Paniago, 44 anos, deixou o emprego de nove anos no Centro Universitário de Brasília (UniCeub) para se tornar professor do curso de comunicação social na UnB. Doutor na área de jornalismo e sociedade, a possibilidade de fazer pesquisas foi determinante na decisão. A profissão que começou como “um reforço de salário” se tornou paixão.

“Eu tinha bolsas de estudos para os meus filhos, o que faz uma grande diferença no salário. Mas minha carga horária de trabalho era instável. E agora não preciso ficar preso à sala de aula, posso investir em pesquisas, que eu não conseguia. A estabilidade não conta muito para mim”, afirma.

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