Existe vida fora da Terra?

Recentemente, os maiores observatórios de astronomia do Japão fizeram um acordo para buscar vida fora do planeta. Irão analisar as estrelas, sinais de luz e rádio. Mas, até agora, nenhum cientista do mundo comprovou que existe vida, do jeito que se conhece, proveniente de outros corpos celestes. Mesmo assim, a possibilidade de existir é real.

Isis Nóbile Diniz |

Com o avanço da tecnologia e pesquisas sendo desenvolvidas, a expectativa é de que, nos próximos 30 anos, ao menos uma bactéria extraterrestre seja descoberta.

Eu sou otimista com relação à chance de encontrar uma vida de forma simples. Espero que ela seja encontrada ainda durante o meu tempo como astrônomo profissional, diz Carlos Alexandre Wuensche, astrofísico do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Isso porque as bactérias sobrevivem em condições adversas. Muitas espécies suportam alta acidez, muita radiação, falta de oxigênio e baixa temperatura. Para se ter uma idéia, 95% da biomassa terrestre é de bactéria, lembra. Geralmente, a maioria delas vive até um metro abaixo da superfície, o que dificultaria o achado.

Dois meteoritos estão em estudo para ver se possuem formas de vida provindas de outro local do Universo. São o meteorito de Murchinson e o de Allende, encontrados, respectivamente, na Austrália e no México em 1969. Há poucos anos, cientistas constataram que algumas estruturas presentes no meteorito intitulado Lh84001, achado na década de 1980, eram terrestres.

Reservatório de água em Marte (Imagem/Reuters)

Ao mesmo tempo, em Marte, os jipes da Nasa e a sonda Mars Reconnaissance Orbiter detectaram compostos químicos que indicavam a presença de água líquida nos primeiros milhões de anos da existência de Marte, levando a uma possível condição de habitabilidade primitiva.

No ano passado, foi descoberto um planeta semelhante à Terra, que orbita em torno da estrela Gliese 581. Antes, já haviam encontrado outro parecido em torno da Gliese 876. Ambos geraram expectativa. O primeiro, principalmente, por estar localizado em uma região onde possa existir água em estado líquido, pois a temperatura média superficial deve estar entre 0 ºC e 100 ºC. Ele possui cinco vezes a massa da Terra, o que deixa sua gravidade maior e a atmosfera mais densa, mas não altera a expectativa de que possa haver formas primitivas de vida.

Vida do carbono e importância da água

Para existir vida em outros planetas é necessário uma série de fatores, afirma Wuensche. Geralmente, a vida que se procura no espaço é fundamentada no carbono. Esse elemento permite que aconteçam processos químicos que dão origem à vida. Junto com o carbono, é preciso existir a água em estado líquido. A sorte é que os elementos fundamentais ¿ água, carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio - para a criação estão espalhados em abundância pelo Universo. Para se ter uma idéia da importância do carbono, o DNA é feito de carbono, hidrogênio, nitrogênio e mais alguns elementos unidos.

O carbono é formado em, praticamente, todos os processos de reação nuclear no interior das estrelas, por isso é facilmente encontrado. Com eles, é possível formar moléculas complicadas como aminoácidos, tal como a glicina, um dos 20 aminoácidos fundamentais para a vida, explica. Encontramos algumas, por exemplo das famílias do álcool e da acetona, espalhadas pelo meio interestelar ¿ das estrelas - em forma de gás e de gelo, conta Wuensche. Esses compostos não precisam de um planeta rochoso para serem formados e são importantes para o desenvolvimento de uma química complexa. Recentemente, foram descobertos compostos químicos bastante sofisticados, baseados em anéis de carbono, em outros pontos da Via Láctea e mesmo em outras galáxias próximas.

Porém, apenas o carbono não basta. Para a vida baseada na química do carbono tem que haver água, diz o astrofísico. Por isso é tão procurada Universo a fora. Ela é um solvente importante que permite que as moléculas maiores se movam e batam umas nas outras. Formando outras moléculas, afirma. A água é um solvente universal, encontrada em abundância na forma de gelo e gás. Juntos, a água e o carbono formam o tijolo e o cimento para a construção da vida.

Silício pode dar origem

O pesquisador ¿ a astrofísica é a ciência que estuda a constituição física e química dos astros ¿ também desenvolve trabalhos em busca de moléculas complexas no meio interestelar das estrelas. Outros pesquisadores no país pesquisam microorganismos vivos e compostos químicos originados da presença de vida, como o ozônio. O que significaria que no local há ou houve fotossíntese. Como conseqüência, organismos vivos.

Porém, a vida talvez possa ser baseada em outro elemento, o silício. Ele não forma moléculas sofisticadas como carbono, mas pode armazenar informação, explica Wuensche. No lugar da água, nesse caso, deve existir nitrogênio ou metano líquido. Mesmo assim, há um fator que complica essa criação. O silício trabalha em temperatura abaixo de zero, em por volta de -200 ºC. O metabolismo nessa condição é mais lento e a energia é baixa, tornando essa formação mais complicada.


Marte (Imagem/Reuters)

Porque existe vida na Terra

Nosso planeta é um oásis, afirma o astrofísico. Há muito tempo ela não sofre com grandes impactos. Júpiter é uma espécie de escudo que segura cometas provenientes de fora do Sistema Solar. A Lua e Marte também a protege, explica. Somando a esses fatores, desde 4 bilhões de anos atrás, o planeta recebe, praticamente, mesma radiação do Sol. O oxigênio existe há mais de 2 bilhões de anos, proporcionando maior complexidade dos seres. Por fim, durante centenas de milhões de anos o clima foi estável.

Todos esses fatores permitiram que primeiras formas de vida ficassem juntas em um ambiente ambiente não muito hostil, sobrevivendo às catástrofes externas como explosões de supernovas na vizinhança, queda de asteróides ou passagem de planetas grandes que pudessem perturbar a evolução das formas de vida primitiva na Terra. Por incrível que pareça, após a glaciação, período de frio intenso, e depois que caiu o asteróide que prejudicou os dinossauros, houve uma explosão nas formas de vida, diz Wuensche.

A Terra tem, aproximadamente, 4,5 bilhões de anos. Rapidamente, há cerca de 3,8 bilhões de anos, se formaram os microorganismos como as bactérias. Por 75% do tempo a vida na Terra foi dominada por seres unicelulares, conta o pesquisador. A Explosão Cambriana, período que apareceram diferentes animais, ocorreu em 1/8 desse tempo. Sendo que, os mamíferos apareceram há 100 milhões de anos, conta. O ser humano conseguiu mandar sinais de rádio para fora do planeta há 100 anos atrás. E, a partir da década de 1930, captar sinais de rádio. Formar vida complexa não é simples, diz.

Dificuldade de se locomover no espaço

Foram confirmados a existência de 307 planetas no Universo, sendo que apenas três deles possuem massa parecida com Terra. Os outros são grandes planetas gasosos com atmosfera instável. Entre esses 307, mais de 50 corpos celestes estão em estudo para ver se realmente são planetas também. O número é alto, nós achávamos que não era comum, diz o astrofísico. Sistemas semelhantes ao Solar são mais a regra que a exceção, diz.

Imaginando que exista vida inteligente fora da Terra, qual seria a probabilidade dos extraterrestres virem para cá? A limitação física é igual para todos no Universo. Nada anda mais rápido do que a velocidade da luz, que é de 300 mil km por segundo. Caso algo material conseguisse andar próxima a essa velocidade, ele deveria possuir algum mecanismo para frear ao chegar no lugar, explica Wuensche. Outro detalhe seria obter energia suficiente para fazer esse foguete funcionar e interesse desses seres em se comunicar com outros.

Geralmente, as sondas enviadas pelos cientistas para fora do Sistema Solar pegam carona no campo gravitacional de algum planeta maior como Júpiter ou Saturno. Elas alcançam uma velocidade grande e, literalmente, saem pela tangente à órbita. O físico Carl Sagan trabalhou na construção da sonda Pioneer 10 na década de 1970. Somente 30 anos depois ela saiu do Sistema Solar, conta Wuensche. Para chegar à estrela mais próxima demorará dezenas de milhares de anos, completa.

Ir até os dois planetas próximos às estrelas Gliese 581 e 876 é, suficientemente, demorado. Por exemplo, o primeiro está localizado cerca de 20 anos-luz da Terra. Em um ônibus espacial, como o Voyage ou o Columbia, que voam a 30 mil km por hora seriam necessários mais de 30 mil anos de viagem, explica o astrofísico. Sou pessimista quanto a encontrar uma vida complexa como a nossa, afirma o pesquisador Wuensche. Mas dada a imensidão do Universo, por que não acreditar que isso é possível?

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