Ex-alunos voltam às suas escolas e contam ao iG o que mudou

Três gerações de estudantes de uma escola pública e de uma privada revelam semelhanças e diferenças na maneira de aprender

Cinthia Rodrigues e Marina Morena Costa, iG São Paulo |

“No meu tempo a escola era muito diferente". O veredicto está entre os mais comuns em qualquer conversa que coloque a educação em perspectiva. A imagem que se forma do ensino atual, a partir de relatos de terceiros ou reportagens – quase sempre com enfoque específico –, inevitavelmente é comparada com aquela guardada na memória afetiva da época de estudos de cada um. Mas será que muita coisa realmente mudou? Para ver o que corresponde à realidade e quais transformações foram essas, o iG convidou seis ex-alunos a fazer a comparação in loco.

Estudantes dos anos 1970, 1980 e 1990 visitaram as escolas em que se formaram, uma pública e outra particular, ambas entre as mais tradicionais da cidade de São Paulo. Caminharam pelos corredores, foram recebidos pela direção e professores, reviram as salas de aula e encontraram a nova geração de estudantes. E reconheceram muitos cantos exatamente como lembravam.

O engenheiro Carlos Caldas, de 56 anos, a comerciante Rossana Scuderi, 44, e o jornalista esportivo, Everaldo Marques, 32, voltaram à escola estadual Ministro Costa Manso , no Itaim Bibi. Enquanto ao Colégio Dante Alighieri , nos Jardins, retornaram o empresário Roberto Klabin, 55, a chef Silvia Percussi, 46, e o publicitário Bruno Cardinali, 29.

Os depoimentos de três gerações que passaram por cada escola serão detalhados em cinco reportagens. A maioria das diferenças acompanha o contexto histórico, que inclui o surgimento e a retirada de aulas ligadas à Ditadura Militar (1964-1985), a adoção de um modelo educacional voltado à preparação para o mercado profissional durante o boom econômico dos anos 70 e a chegada de novas camadas sociais aos bancos escolares, com a universalização do ensino que começou na década seguinte.


Na época do engenheiro Carlos, a escola pública que ensinava francês e inglês era disputada a ponto de ele se lembrar da ansiedade ao visitar a recepção com a mãe dia após dia, até que sua vaga aparecesse. “Ficava pendurado neste balcão, torcendo”, conta ele. Hoje, há salas vazias e o endereço dos alunos – quase todos vindos de outros bairros – mostra que dá para escolher a instituição pública onde estudar, embora muitas famílias que podem optar entre o ensino do Estado e privado ficam com as escolas pagas. 

A minha educação era muita ´decoração´. Matéria, matéria, matéria, aprende, decora, prova. Ponto e acabou”

O empresário Roberto Kablin, que frequentou o colégio Dante entre 1961 e 1973, lembra que o governo militar não era questionado nas salas de aula. “A escola não falava sobre isso. Pra mim, a Ditadura só passou a existir na faculdade”, conta, ao afirmar que o ensino, diferentemente de hoje em dia, não estimulava o aluno a entender o porquê das coisas, a pensar e a tomar decisões. “A minha educação era muita ´decoração´. Matéria, matéria, matéria, aprende, decora, prova. Ponto e acabou”, conta.

Já para a chef Silvia Percussi, a grande diferença não está tão relacionada ao ensino, mas sim a falta de integração entre meninos e meninas no Dante. “A gente ficava de bobes na sala e soltava na hora do recreio, quando veria os meninos, lembra.”

Comparação inevitável
O inevitável paralelo da evolução das duas instituições aponta, principalmente, para a falta de inovação tecnológica na pública ao longo das décadas. Ambas as escolas têm o visual preservado o mais próximo possível do original, de 1911, no caso do Dante, e de 1957, no caso da Costa Manso. Mas nos ambientes de aula, uma se transformou muito mais do que a outra.

Quem entrou no Dante Alighieri reviu afrescos que resistiram às décadas e ouviu o badalar do mesmo sino, mas também sentiu que os tempos mudaram ao mexer nas lousas digitais, ver computadores em sala de aula e equipamentos modernos nos laboratórios de física e química. “Para mim é um grande contraste ver a estrutura intacta e um prédio novo, moderno, todo tecnológico”, comenta o publicitário Bruno Cardinali.

Não tem mais como fazer guerra de giz”

Os ex-alunos do Costa Manso ficaram admirados com o bom estado de conservação geral da escola, mas viram pouca inovação. Os móveis em madeira maciça ainda estão lá, as belas pinturas feitas por professores e alunos que se destacaram no mundo das artes foram preservadas, a biblioteca manteve as estantes, um móvel exibe dezenas de troféus – nenhum recente – e a sirene que marca a troca de aulas é exatamente a mesma. A lousa também mudou, mas só de posição, continua sendo uma peça única verde sobre a qual se escreve com giz branco.

No Dante, o giz está prestes a virar peça de museu. Nas salas de aula do ensino fundamental I ele já foi abolido. As professoras escrevem na lousa digital, como se fosse um computador com tela sensível ao toque, ou no quadro branco, com canetas. “Não tem mais como fazer guerra de giz”, brinca Bruno. 

Rossana elogia a conservação do Costa Manso: “Já estive aqui antes, para votar, e vi a escola bem maltratada. A diretora está de parabéns pela manutenção que fez”. Mesmo assim, não se contenta: “Mas se fosse procurar uma escola hoje, buscaria uma com computadores e modernizações”.

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