Ex-alunos voltam às suas escolas e contam ao iG o que mudou

Três gerações de estudantes de uma escola pública e de uma privada revelam semelhanças e diferenças na maneira de aprender

Cinthia Rodrigues e Marina Morena Costa, iG São Paulo | 29/06/2011 07:00

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“No meu tempo a escola era muito diferente". O veredicto está entre os mais comuns em qualquer conversa que coloque a educação em perspectiva. A imagem que se forma do ensino atual, a partir de relatos de terceiros ou reportagens – quase sempre com enfoque específico –, inevitavelmente é comparada com aquela guardada na memória afetiva da época de estudos de cada um. Mas será que muita coisa realmente mudou? Para ver o que corresponde à realidade e quais transformações foram essas, o iG convidou seis ex-alunos a fazer a comparação in loco.

Estudantes dos anos 1970, 1980 e 1990 visitaram as escolas em que se formaram, uma pública e outra particular, ambas entre as mais tradicionais da cidade de São Paulo. Caminharam pelos corredores, foram recebidos pela direção e professores, reviram as salas de aula e encontraram a nova geração de estudantes. E reconheceram muitos cantos exatamente como lembravam.

O engenheiro Carlos Caldas, de 56 anos, a comerciante Rossana Scuderi, 44, e o jornalista esportivo, Everaldo Marques, 32, voltaram à escola estadual Ministro Costa Manso, no Itaim Bibi. Enquanto ao Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, retornaram o empresário Roberto Klabin, 55, a chef Silvia Percussi, 46, e o publicitário Bruno Cardinali, 29.

Os depoimentos de três gerações que passaram por cada escola serão detalhados em cinco reportagens. A maioria das diferenças acompanha o contexto histórico, que inclui o surgimento e a retirada de aulas ligadas à Ditadura Militar (1964-1985), a adoção de um modelo educacional voltado à preparação para o mercado profissional durante o boom econômico dos anos 70 e a chegada de novas camadas sociais aos bancos escolares, com a universalização do ensino que começou na década seguinte.


Na época do engenheiro Carlos, a escola pública que ensinava francês e inglês era disputada a ponto de ele se lembrar da ansiedade ao visitar a recepção com a mãe dia após dia, até que sua vaga aparecesse. “Ficava pendurado neste balcão, torcendo”, conta ele. Hoje, há salas vazias e o endereço dos alunos – quase todos vindos de outros bairros – mostra que dá para escolher a instituição pública onde estudar, embora muitas famílias que podem optar entre o ensino do Estado e privado ficam com as escolas pagas. 

A minha educação era muita ´decoração´. Matéria, matéria, matéria, aprende, decora, prova. Ponto e acabou”

O empresário Roberto Kablin, que frequentou o colégio Dante entre 1961 e 1973, lembra que o governo militar não era questionado nas salas de aula. “A escola não falava sobre isso. Pra mim, a Ditadura só passou a existir na faculdade”, conta, ao afirmar que o ensino, diferentemente de hoje em dia, não estimulava o aluno a entender o porquê das coisas, a pensar e a tomar decisões. “A minha educação era muita ´decoração´. Matéria, matéria, matéria, aprende, decora, prova. Ponto e acabou”, conta.

Já para a chef Silvia Percussi, a grande diferença não está tão relacionada ao ensino, mas sim a falta de integração entre meninos e meninas no Dante. “A gente ficava de bobes na sala e soltava na hora do recreio, quando veria os meninos, lembra.”

Comparação inevitável
O inevitável paralelo da evolução das duas instituições aponta, principalmente, para a falta de inovação tecnológica na pública ao longo das décadas. Ambas as escolas têm o visual preservado o mais próximo possível do original, de 1911, no caso do Dante, e de 1957, no caso da Costa Manso. Mas nos ambientes de aula, uma se transformou muito mais do que a outra.

Quem entrou no Dante Alighieri reviu afrescos que resistiram às décadas e ouviu o badalar do mesmo sino, mas também sentiu que os tempos mudaram ao mexer nas lousas digitais, ver computadores em sala de aula e equipamentos modernos nos laboratórios de física e química. “Para mim é um grande contraste ver a estrutura intacta e um prédio novo, moderno, todo tecnológico”, comenta o publicitário Bruno Cardinali.

Não tem mais como fazer guerra de giz”

Os ex-alunos do Costa Manso ficaram admirados com o bom estado de conservação geral da escola, mas viram pouca inovação. Os móveis em madeira maciça ainda estão lá, as belas pinturas feitas por professores e alunos que se destacaram no mundo das artes foram preservadas, a biblioteca manteve as estantes, um móvel exibe dezenas de troféus – nenhum recente – e a sirene que marca a troca de aulas é exatamente a mesma. A lousa também mudou, mas só de posição, continua sendo uma peça única verde sobre a qual se escreve com giz branco.

 

No Dante, o giz está prestes a virar peça de museu. Nas salas de aula do ensino fundamental I ele já foi abolido. As professoras escrevem na lousa digital, como se fosse um computador com tela sensível ao toque, ou no quadro branco, com canetas. “Não tem mais como fazer guerra de giz”, brinca Bruno. 

Rossana elogia a conservação do Costa Manso: “Já estive aqui antes, para votar, e vi a escola bem maltratada. A diretora está de parabéns pela manutenção que fez”. Mesmo assim, não se contenta: “Mas se fosse procurar uma escola hoje, buscaria uma com computadores e modernizações”.

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59 Comentários |

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  • Jairo Rodrigues de Almeida | 05/07/2011 08:39

    Sou aluno do 3º ano do ensino médio da EJA – Educação de Jovens e Adultos da escola Costa Manso. Vou fazer um comentário sobre esta comparação entre a escola pública e as escolas particulares. \n\nEm primeiro lugar, retomando o depoimento do o engenheiro Carlos, que foi aluno do Costa Manso, na época a educação de qualidade era um privilégio atendendo na maioria das vezes às elites, pois havia poucas escolas sendo, portanto, muito disputadas e os ricos levavam vantagem.\n\nPoliticamente, as instituições tinham em seu currículo aulas de moral e cívica, a imprensa era censurada pelo regime militar e as escolas ensinavam disciplina, obediência, patriotismo e cantar o Hino Nacional. Ai de alguém que falasse mal do governo.\n\nBem... voltando à questão das escolas, esta a que estudo claro não mudou muito fisicamente, mas a imprensa sensacionalista prefere apontar somente pontos negativos ou está querendo defender interesses de algum barão das escolas particulares. O jornalista esqueceu de mencionar que hoje temos duas salas de computação, com acesso à internet, recursos com data show, elevador para deficientes, extensão da ETEC, com curso técnico para administração.\n\nAs grades mencionadas na reportagem, por incrível que pareça, não são grades, a foto foi tirada parcialmente do local, é simplesmente um portão que separa a entrada interna do espaço a céu aberto, colocado para segurança da escola.\n\nQuanto aos recursos, o governo hoje investe muito na educação, não faltam livros, materiais como caderno, lápis, canetas, até merenda é oferecida para os alunos, entre outros.\n\nOutra coisa, muitos alunos que estudam nesta escola são de bairros distantes, pois não encontram escola pública próximo às suas casas, pois é mais fácil o governo propiciar locomoção a esses alunos que construir novas escolas.\n\nAntigamente, vamos dizer assim, estudar era decorar e fazer prova, entretanto, mesmo que ainda exista isso, hoje democratizou as escolas, e o governo implantou a progressão continuada, o que a meu ver, é mais um fator que contribui para cair a qualidade cai, e cai mesmo, mas o governo não quer qualidade, ele quer mesmo é engordar as estatísticas de promoção, de conclusão do ensino médio e fundamental.\n\nQuanto ao fim do giz, não vejo vantagem nisso! Lousa digital é um recurso bom, mas um bom ensino não pressupõe deixar de lado a lousa, o que faz a diferença é a forma como se dá o ensino e a aprendizagem. Então, será mesmo necessária a lousa digital?\n\nÉ isso aí, Costa manso, você não é uma escola conservadora, as pessoas é que não sabem, ou fingem que não sabem, o quanto você mudou, inovou!!!\n

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  • JORGE LOIRINHO | 02/07/2011 16:32

    É REALMENTE A ESCOLA MUDOU... OU SEJA ESTÁ MUITO SOBRECARREGADA DE FUNÇÕES QUE QUE NÃO LHE PERTENCE...Á FAMILIA DEIXOU SUA FUNÇÃO PARA A ESCOLA,A SAÚDE,TAMBÉM DEIXOU SUAS FUNÇÕES PARA A ESCOLA ,OS PLITICOS TAMBÉM DEIXOU SUAS FUNÇÕES PARA A ESCOLA ...ENFIM TODA A SOCIEDADE DEIXOU PARA Á ESCOLA TODOS SEUS FAZERES...E FRASEANDO PAULO FREIRE'' SE A EDUCAÇÃO NO PODE MUNDAR A SOCIEDADE...SEM ELA NÃO TEM SOLUÇÃO...''\nJORGE LOIRINHO.

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  • CELIA MARIA | 30/06/2011 16:38

    O mais triste é que alguns professores são omissos e têm vergonha de afirmar que lecionam em escolas públicas. A omissão fortalece tomadas de decisões dos políticos ao FABRICAREM a legislação educacional.\nTenho orgulho de ser professora da rede pública e teimo em transmitir meus conhecimentos aos jovens, a maioria sem noção de responsabilidade. Futuramente, entenderão, pelo amor ou pela dor, o que é responsabilidade e o valor da educação escolar. \n

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  • clavius begon | 30/06/2011 15:27

    \n\n EU ENTENDO QUE A QUESTÃO NÃO ESTA NA ESCOLA, ESTA NA SOCIEDADE QUE SE MODIFICOU, E MUITO, E O ESTADO NÃO ACOMPANHOU TAL EVOLUÇÃO.\n DENOJOCRACIA É O QUE VIVEMOS, TAL QUAL NUMA CASA PAGAMOS NOSSOS COMPROMISSOS E DEPOIS O QUE SOBRAR GASTAMOS COM ESSENCIAL ( ROUPA E ALIMENTO ), EM NOSSO PAIS A POLITICA É, ATENDER SEUS CLIENTES ( INVESTIDORES DE CAMPANHA, INTERESSES PRÓPRIOS, BARGANHAS ) PARA DEPOIS CUIDARMOS DA POPULAÇÃO

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  • gil gouvea | 30/06/2011 15:06

    NO MEU TEMPO DE ESCOLA TODO MUNDO TINHA APELIDO,ERA GORDINHO,MAGRELO,QUATRO ZÓIO,ORELHUDO....E ERA TUDO LEVADO NUMA BOA.HOJE SE UMA CRIANÇA CHEGA EM CASA E DIZ QUE FOI CHAMADA POR UM DESSES APELIDOS,A MAMÃE JA FALA NA HORA....ISSO É Bullying FILHO,VOU NA DELEGACIA DAR QUEIXA,VAMOS FECHAR A ESCOLA,PROCESSAR OS PAIS DESSA CRIANÇA.....É! COM TANTA FRESCURA QUE ESTÃO INVENTANDO AGORA QUE A VIDA VAI PERDENDO CADA DIA MAIS A GRAÇA.

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    Helio | 02/07/2011 13:16

    Desculpe-me Gil Gouvea, mas escrever tudo com letras maiúsculas dá a impressão que você está gritando com todos. Esta é uma prática totalmente errada, mas que está institucionalizada na internet. E, pior, vem sendo adotada na escrita cursiva de nossos jovens. Pode-se notar, então, que estamos adotando o errado como certo. Como nossos jovens podem ter, como exemplo do certo, esta distorção ao escrever qualquer texto ? \nOs adultos tem que mostrar, até por experiência de vida, que não é por este caminho que se ensina. Desculpe-me, mais uma vez.

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    Yra doce | 01/07/2011 05:55

    Vc. está equivocado .....muitos carregaram pelo resto da vida as humilhações que sofreram....\n\nnem toda criança é igual,,,nem todos pensam e agem como vc.\n\nProcure se informar atráves da literatura médica.\n\nHá vários psiquiatras que relatam em livros o que ouviram em consultório.\n\nÉ de sofrer por quem passou,,,

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  • Jean Carlos | 30/06/2011 12:15

    A diferença que leva a educação de hoje ser pior do que antigamente é que em épocas passadas era função da escola apenas ensinar e a família educar... o que se vê hoje é um total abandono da maioria das famílias para com a educação de seus filhos, sendo a escola e os professores responsáveis por serem professores, educadores, pais, mães, psicológos, psiquiatras e outras funções que pela desculpa de "se trabalhar fora" os pais deixaram de exercer a muito tempo. E profissão de professor hoje, principalmente na esfera pública, nada mais é do que um voluntariado, em que com giz e lousa dever ser o redentor da pátria. Lastimável.

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  • Mateus da Silva | 30/06/2011 10:25

    Aqui quem vos fala é um jovem de 15 anos, estudei a dois anos atrás em uma escola da universidade federal de meu estado e posso afirmar que estrutura de ensino muitas escolas tem, entretanto falta vontade tanto dos alunos quanto do corpo administrativo da instituição. O MEC precisa melhorar o planejamento educacional do país equiparando os conteúdos administrados em diversas regiões. O Brasil está necessitado de uma educação digna.

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  • nery | 30/06/2011 08:26

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