Estudar para quê?

Descubra qual a finalidade de aprender matérias na escola que parecem não ter aplicação no dia-a-dia.

Isis Nóbile Diniz |

Qualquer professor do ensino fundamental e médio já ouviu, ao menos uma vez, a reclamação: Para que eu tenho que assistir a essa aula se nunca vou usar isso na vida? . Equação de segundo grau, gases nobres, quando Napoleão perdeu a guerra, a existência da Pangéia... Todas as matérias possuem temas que parecem não ter utilidade. Mas essas questões são lecionadas com um objetivo mais nobre e complexo.

Essa transposição é difícil e exige maturidade, afirma Henrique Lins de Barros, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Principalmente porque, além de ensinar a matéria em si, a escola possui outras competências. A gente não vai à escola para estudar apenas o que deveria ser útil e ter aplicação imediata afirma Nilson José Machado, professor de matemática de educação da Universidade de São Paulo (USP). Isso é uma visão absolutamente restrita da função dela, completa.

Uma das funções primordiais da instituição é ensinar o aluno a se expressar, se comunicar, compreender os fatos, ser um cidadão crítico e a aprender a língua oficial do país ¿ um instrumento fundamental para compreensão. Por isso que todas as matérias dos 12 anos de estudo são relevantes. Caso contrário, a pessoa pode ter dificuldade até para escrever uma carta. Essa tarefa simples exige saber trabalhar a língua, diz Machado.

A matriz das aulas de matemática pode ser usada para entender os pixels da máquina fotográfica. Ela corresponde às linhas e colunas da tela digital. Por sua vez, as aulas sobre energia cinética, de física, possuem informações usadas por profissionais das seguradoras de automóveis para calcular como foi a colisão de um carro. É possível encontrar fora da aula aplicações para as matérias, diz Barros.

A matemática pode ser até um instrumento de expressão. Machado cita dois exemplos: Apague, da primeira página do jornal, todos os números que aparecem. Não será possível entender as informações. Nem ao menos saber de que dia é o jornal. O segundo é: Se for fazer mestrado no exterior, verá que alunos de outros países se expressam naturalmente na matemática, como se fosse uma língua . Por exemplo, pode criar facilmente um gráfico sobre um fato que ocorreu, apresentando essa informação de outra maneira.

Essas exemplificações não se restringem apenas para a matemática. Podem ser aplicadas nas próprias aulas de português . O professor não vai mostrar um poema para o aluno aprender a como conseguir uma namorada, explica Machado. Assim, ao tentar falar exemplificar para quê pode ser usado tudo que se aprende em uma escola, corre-se o risco de limitar a aplicação das matérias. Essa maneira de pensar reflete uma visão utilitarista, de que tudo tem um preço. É uma confusão de valor, acredita.

Fazendo uma metáfora com a faca. Esse talher possui parafusos, cabo e lâmina. A lâmina é a responsável pelo corte, mas sem os parafusos e o cabo essa tarefa não seria tão simples. Como nos estudos, onde um assunto sustenta outros . Isso dá a possibilidade dos alunos criarem coisas como objetos ou teorias que ainda não existem. Dessa maneira, cada possui os instrumentos para desenvolver as suas competências pessoais, compreender, argumentar, ter conclusões e tomar as suas decisões.

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