Estudantes revisam, decoram e aprendem nos cursinhos da OAB

Professores afirmam que muitos chegam com defasagem de conteúdo. Especificidades da prova garantem público aos preparatórios

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Após cinco anos de faculdade, os estudantes do último ano e os bacharéis em Direito se veem diante de uma prova com 80 questões de 16 disciplinas, o Exame de Ordem – prova obrigatória para conseguir o registro que permite o exercício da advocacia. Além dos conteúdos cobrados dos primeiros anos, a prova da OAB exige detalhes específicos da lei. E sem consulta.

Na segunda fase, têm que redigir uma peça jurídica e responder problemas com base na lei. É cobrado um conhecimento técnico e prático dos candidatos, que muitas vezes eles não têm. Diante do desafio, muitos procuram cursinhos preparatórios. Estima-se que cerca de um terço dos candidatos que prestam a prova em São Paulo façam cursinhos preparatórios, cerca de 2 mil pessoas. Como as mensalidades dos cursos variam entre R$ 150 e R$ 370, com diferentes durações (há alunos que cursam o ano inteiro ou apenas um mês), este mercado movimenta pelo menos R$ 1 milhão anualmente.

“A maioria dos estudantes chega ao cursinho com uma grande defasagem de conhecimento. Entre 20% e 30% dos alunos fazem uma revisão, mas muitos ouvem as informações pela primeira vez”, aponta Guilherme Strenger, professor de processo civil do cursinho FMB e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A dificuldade do exame também garante cadeiras cheias nos cursinhos. “A prova é cheia de pegadinhas. Às vezes uma palavra como ‘apenas’, ‘sempre’ ou ‘somente’ invalida a frase inteira. É feita para passe o menor número possível de pessoas”, aponta Darlan Barroso, coordenador dos cursos preparatórios para a OAB do Complexo Educacional Damásio de Jesus.

Segundo Barroso, 70% da prova da primeira fase é leitura da lei, cobrança de detalhes de leis, artigos e incisos. Os candidatos precisam revisar o conteúdo dos cinco anos, reparar as brechas na formação e decorar os códigos, para conseguir acertar 40 questões na primeira fase. Apesar de ser apenas metade das questões, está é a “peneira” mais difícil de passar. Na última edição, apenas 21 mil dos 121 mil inscritos conseguiram.

Marina Morena Costa
Juliana e Mariana estudam diariamente das 9h às 22h para passar no exame da OAB
Juliana Pereira de Barros, de 25 anos, se formou em 2009 na Faculdade Damásio de Direito e irá para a quarta tentativa de passar na OAB. “Meu problema é emocional. Fico ansiosa e não leio o enunciado direito. O cursinho é essencial, porque foca nos pontos principais que caem na prova, preenche os buracos da graduação e nos mantém atualizados”, diz. A bacharel estuda na mesma instituição onde se formou, que também oferece curso preparatório, e diz que não conseguiria montar a programação de estudos sozinha.

Aluna do último ano da faculdade Damásio, Mariana Zerbini, de 23 anos, faz cursinho no complexo educacional e vai para a terceira tentativa de aprovação. “Nos cinco anos de faculdade, a gente quase não pega no código e cai muita lei na prova”, destaca. A revisão dos conteúdos do primeiro e do segundo ano também é um dos pontos que Mariana destaca.

Segundo as instituições, seus índices de aprovação estão acima das universidades campeãs no ranking da OAB. Na FMB, varia entre 70% e 75%. Já a Damásio, afirma que aprovou mais de 80% na última edição da OAB. Tanto os alunos das melhores faculdades, quanto os que estudaram em instituições menos tradicionais procuram os cursinhos.

Na avaliação dos professores, o bom candidato é aquele que estrutura bem os estudos, treina para fazer a prova da OAB e escolhe bem a área na qual fará a prova da segunda fase (administrativo, civil, constitucional, trabalhista, empresarial, penal ou tributário). “A escolha consciente e correta já equivale a 50% do sucesso”, afirma Barroso.

Marina Morena Costa
Aula do cursinho Damásio em São Paulo é transmitida via satélite para mais 250 unidades em todo o País

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- Polêmica: Exame de Ordem está na mira do Supremo
- As melhores:
Elas são as melhores, mas não aprovam 100% na OAB
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Contabilidade tem exame exigido por lei e Medicina quer prova
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Um terço das 30 piores instituições na OAB tem boa nota pelo MEC
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Exercício da profissão de advogado já foi livre no Brasil
- Outros países: Exame para exercer advocacia é comum em outros países
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