Estudantes brasileiros mais fracos estão estagnados no Pisa

Especialistas analisam os dados da avaliação internacional e mostram que piores alunos não tiveram ganho significativo na nota

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Os números do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa) divulgados na última terça-feira apontam que na última década os estudantes brasileiros de desempenho mais fraco avançaram apenas cinco pontos na avaliação educacional criada pelos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Como a pontuação é estatisticamente insignificante – na avaliação somente saltos acima de 10 pontos são representativos –, os dados mostram que essa parcela de alunos não avançou entre 2000 e 2009.Os dados são de Leitura, habilidade que foi melhor detalhada no relatório divulgado esta semana.

A análise dos dados foi feita pela diretora-executiva da Fundação Lemann, Ilona Becskeházy, e pela consultora da instituição Paula Louzano, doutora em Educação pela universidade de Harvard. “A nota dos 10% com pior desempenho aumentou cinco pontos, e dos 25% mais fracos, cresceu nove pontos. A diferença não é significativamente representativa. Ou seja, essa população está estagnada”, avalia Paula. 

Já entre os 10% mais bem avaliados, o avanço na última década chegou a 30 pontos. Entre os 25% melhores, o crescimento foi de 22 pontos. Para as pesquisadoras, os dados explicam que a melhora de 16 pontos da média do Brasil no Pisa se deve a um crescimento no desempenho dos estudantes que estavam perto ou acima da média. Os mais fracos ficaram esquecidos. 

A comparação com os dados do Chile evidência a disparidade no desempenho dos estudantes do Brasil. No país vizinho, os estudantes com desempenho mais fraco avançaram 51 pontos nos últimos nove anos. Já os de melhor desempenho tiveram um crescimento parecido com os de mesma condição no Brasil, 32 pontos. “Nossos estudantes menos vulneráveis cresceram a mesma coisa que os chilenos. E os fracos ficaram para trás”, aponta Ilona.

De acordo com as pesquisadoras há uma forte correlação entre desempenho e renda, evidenciada em diversas pesquisas nacionais. Ou seja, a maioria dos estudantes com notas mais baixas pertence a classes menos privilegiadas e os alunos com melhor desempenho as mais abastadas.

Para Paula, o resultado revela a ineficiência das políticas públicas educacionais do Brasil, que privilegiam os estudantes que estão perto da média. “Precisamos de políticas específicas para os grupos menos favorecidos, como o Chile tem feito. Políticas gerais atingem a média e não fecham a brecha entre os mais ricos e os mais pobres”, enfatiza.

Segundo a pesquisadora, os sistemas de ensino que utilizam apostilas e estão sendo cada vez mais adotados na rede pública, aumentam a média da nota dos estudantes em avaliações, mas quem explica o crescimento são os alunos mais bem colocados. “Quem está próximo da média tem uma melhora mais rápida”, analisa Paula.

Chile

O sistema educacional chileno passa por uma reforma educacional desde a década de 1990 e implantou recentemente uma avaliação dos professores. Os docentes chilenos são avaliados anualmente e cada três anos passam por uma prova que indica se eles estão aptos a dar aula ou não. “O Chile alcançou resultados mais equilibrados e diminuiu a desigualdade de desempenho, porque tem uma política educacional coerente, sistêmica, focada em melhorar os salários, com formação do professor inicial e continuada”, destaca Paula. A pesquisadora ressalta que o governo chileno procura atrair talentos para as carreiras de licenciatura concedendo bolsas de estudo em universidades aos estudantes com bom desempenho escolar – o ensino superior não é gratuito no país.

Ilona avalia que o Brasil precisa reestruturar a carreira docente em várias frentes, na graduação, na seleção dos profissionais que vão ingressar no sistema de ensino e na avaliação e formação continuada dos docentes. “Precisamos selecionar melhor os professores e mudar completamente o conteúdo dos cursos de licenciatura e pedagogia, que são muito teóricos e não ensinam a dar aula.”

Paula acredita que o Chile está colhendo os frutos da reforma iniciada no século passado. “Mudou o governo chileno, mas a política educacional não. Isso explica parte do desempenho deles. Eles estão fazendo a lição de casa há muito mais tempo do que nós.”

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