Esperar é rotina de quem fica do lado de fora dos vestibulares

Pais, mães, motoristas e namorados cumprem papel importante nos concursos para entrar em universidades

Guilherme Pichonelli e Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Áurea Furlan, de 53 anos, faz crochê enquanto espera a filha Sara, de 17 anos, prestar provas de vestibular. Como mora em Cotia, na Grande São Paulo, a mãe prefere esperar a vestibulanda a voltar para casa e correr o risco de se atrasar para buscá-la. Para se distrair, ela borda enfeites de mesa e porta. Em dezembro, na segunda fase da Unesp, fez uma árvore de Natal. Na segunda fase da Fuvest, prepara flores. Um dia de prova rende em média 10 florzinhas. “Não tenho tempo de fazer no dia a dia, então aproveito a espera para bordar”, conta.

Ser mãe de vestibulanda significa uma alta carga de estresse. “Sou mais ansiosa do que ela. Chego a sonhar com o vestibular. Essa semana sonhei que a gente tinha ido pro local de prova errado”, conta Áurea. Na realidade, mãe e filha não perderam nenhuma prova por atraso. Pelo contrário, preferem chegar com bastante antecedência e garantir uma entrada tranquila.

Sara tenta uma vaga em Educação Física, e passou para a segunda fase das principais universidades públicas do Estado de São Paulo: Unesp, Unicamp e USP. “Ela dá preferência para a Unicamp, mas eu prefiro que ela passe na USP e fique aqui, perto de mim”, confessa a mãe.

Essa também é a preocupação de Cláudio dos Anjos, de 43 anos, que prefere que a filha Cláudia, de 18, fique em São Paulo para cursar Terapia Ocupacional. “Ela está querendo ir para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), que usa a nota do Enem, mas eu a quero aqui comigo”. Pai e filha demoraram por volta de 35 minutos para ir de Pirituba até o Campus da Barra Funda da Uninove, no primeiro dia da segunda fase da Fuvest. “Nós sempre chegamos adiantados porque ela já perdeu uma prova para concurso público, desde então preferimos garantir a entrada”.

Cláudio conta que até enfrentou problemas no dia anterior ao começo da segunda etapa. “Fiquei com o estômago atacado e não consegui dormir direito. A Cláudia não queria vir fazer a segunda fase, mas eu insisti e ela acabou vindo”, afirma.

GUILHERME LARA CAMPOS/Fotoarena
Cláudio dos Anjos aguarda a filha durante primeiro dia da segunda fase da Fuvest

Espera é angustiante

Em frente ao Campus da Uninove, enquanto candidatos prestavam o vestibular, também estava o jovem Valmir Ribeiro, de 18 anos, namorado de Pamela Cavanha, que com 17 anos tenta ingressar em Ciências da Computação na USP. “Eu tô aqui faz maior cara e é um trampo ficar esperando”, diz em tom de brincadeira. “Tava torcendo pra alguma amiga dela ir pra segunda fase também, mas que nada. Ela faz eu ficar plantado aqui. No Enem foi a mesmo coisa”.

Magali Tavares Lapim, de 42 anos, também endossa a opinião de que a espera é ruim. “Pra eles que estão no vestibular o tempo passa rápido, pra gente que não tem o que fazer é terrível. Eu fui até o shopping pagar uma conta, mas mesmo assim é complicado”. Entretanto ela garante que vale a pena fazer isso pela filha Laís, de 17 anos, que presta Editoração, para a USP Leste.

Família unida

GUILHERME LARA CAMPOS/Fotoarena
Lucilene Janjacomo reúne as filhas Karime e Luciana do lado de fora da prova
Em clima descontraído e com muito papo. Assim é a espera da família Janjacomo, que veio com quatro integrantes para a prova: a mãe Lucilene, de 56 anos, Luciana, de 26, Karime, de 16, e o vestibulando Valmor, de 20, que tenta entrar para o curso de Ciências Contábeis. “A gente fica aqui conversando. Já fomos até a Igreja para rezar por ele, demos uma volta no Parque da Água Branca e viemos para a frente da escola esperar. O grande problema é o preço do ônibus, que é multiplicado por quatro”, afirma Lucilene.

Mais acostumado a esperar, o motorista Geneci Nascimento, de 60 anos, trouxe o filho do patrão para a Fuvest. “Ele está começando os vestibulares agora, como eu ia levá-lo na escola, estou acostumado”. Segundo ele, o grande problema não é a espera, mas o trânsito. “Hoje (segunda-feira, dia 10) estava tranquilo, porque estamos no meio das férias escolares, mas no dia a dia é muito pesado o trânsito até a Cidade Universitária. O que leva 20 minutos pode demorar até uma hora e meia”.

Angustiada, Rita Mallorga, de 46 anos, diz que fica esperando a hora da filha Bruna, de 19 anos, sair para saber como ela foi na prova. “Acho que ela vai passar, mas fico muito apreensiva. Muito mais do que ela. Ainda bem que vim com a Bárbara que me fez companhia”. A filha mais nova de Rita, de apenas 11 anos, é segura na profissão que quer seguir. “Serei veterinária. Gosto muito de animais e quero trabalhar com eles”. Pelo jeito, daqui um tempinho, Rita terá mais uma maratona de vestibulares para acompanhar, sempre do lado de fora.

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