Especialistas debatem mérito dos vestibulares

O vestibular, método mais utilizado pelas universidades para selecionar futuros alunos, foi alvo de polêmica na manhã desta quinta-feira na audiência pública sobre cotas realizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A seleção de candidatos com base nas notas obtidas em provas de conhecimento é a forma mais utilizada pelas instituições, por ser considerada mais justa e privilegiar o mérito do estudante. O argumento, no entanto, não é aceito por todos.

Priscilla Borges, iG Brasília |

A antropóloga e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) Eunice Ribeiro Durham, criticou a adoção de cotas pelas universidades brasileiras elogiando os processos seletivos para a universidade. O vestibular é uma vitória contra a praga do clientelismo, do racismo e do machismo porque não barra ninguém no ensino superior por ser negro ou pelo gênero do candidato. Só importa o desempenho do candidato, disse a especialista.

Inscrita para falar contra as cotas na audiência organizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, Eunice não compareceu à sessão alegando problemas de saúde. Enviou uma carta para contribuir com os debates sobre o tema, que foi lida por Roberta Fragoso Kaufmann, advogada do partido Democratas na ação que questiona a constitucionalidade das cotas adotadas pela Universidade de Brasília em 2006 e que será analisada pelo STF.

A opinião de Eunice foi duramente rebatida por Oscar Vilhena Vieira, professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas. Qualquer mecanismo possui um critério de escolha. No vestibular, é exigido um acúmulo de saber em inglês. É óbvio que esse é um critério de exclusão de grande parcela da sociedade, ponderou.

Como podemos dizer que o vestibular é meritocrático? O vestibular é sim uma forma de premiar o investimento dos pais que puderam dar melhor educação aos filhos. Claro que os filhos precisam ter aproveitado a oportunidade, mas o mérito é dos pais, analisou. Para ele, as ações afirmativas devem ser vistas como uma forma de corrigir essa diferença. Por isso, as cotas são constitucionais, defendeu.

Critério racial

Oscar Vieira, que participou da audiência em nome da Conectas Direitos Humanos, acredita que o País deve adotar cotas com recorte racial porque a maior exclusão acontece por causa da raça. A universidade só será capaz de promover o ensino plural, se deixar de ser predominantemente branca. A universidade é o principal mecanismo pelo qual incluímos pessoas e damos a elas possibilidade de representação social, disse.

Na carta, a antropóloga reconhece a existência do racismo no País em relações sociais, de trabalho e oportunidades, mas diz que no acesso ao ensino superior essa discriminação foi neutralizada. Por isso, ela não concorda com a adoção de cotas nas seleções das instituições. Democratizar o acesso ao ensino superior é necessário. A pergunta é se cota é o melhor caminho. É preciso pensar em medidas de correção anteriores.

Eunice sugere que o Brasil encontre uma solução para acabar com as desigualdades anteriores ao acesso na universidade, sem sacrificar o princípio de igualdade. É uma violência fazer com que uma pessoa opte por uma categoria se, muitas vezes, ela não se reconhece em uma nem outra, escreveu.

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