Especialista português defende métodos de ensino que estimulem o raciocínio dos alunos

Rui Trindade, docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (Portugal), acredita que as escolas devem conhecer melhor o desenvolvimento cognitivo das crianças para formar melhores alunos. Este processo, segundo Trindade, passa pelo conhecimento da capacidade de raciocínio em diferentes etapas da vida e pela valorização das estratégias e soluções encontradas pelas crianças.

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Nós temos de organizar os desafios, exigências e as tarefas da escola de forma que potencializem o desenvolvimento das crianças. A escola pensada como espaço onde o professor tudo sabe e tudo ensina terá que acabar, afirma. Para Trindade, é importante estabelecer relações de troca e interação com o meio.

Os desafios na área do ensino de matemática, deficiente tanto no Brasil quanto em Portugal, passam por uma mudança de parâmetros na escola e na formação dos professores, de acordo com a análise do pesquisador. A escola tende a não valorizar as estratégias próprias dos alunos, ela impõe uma estratégia. Ao impor, acaba por gerar muitas vezes o medo de errar. Isso limita os alunos ao modo de fazer, sem compreender por que está sendo feito, avalia.

Para Trindade, novos professores precisam de novos instrumentos para ler o mundo e para agir. Ao contrário disso, tendem a repetir em sala de aula o mesmo modelo que tiveram quando frequentaram a escola básica.

Trindade é autor de livros como Experiências Educativas e Situações de Aprendizagem e Manual de Sobrevivência para Professores. O professor participará do 17º Educador - Congresso Internacional de Educação , entre os dias 12 e 15 de maio, em São Paulo, e dará uma palestra sobre o que um professor deve dominar para ensinar bem.

Confira a entrevista concedida com exclusividade ao iG Educação:


iG: O senhor diz que nenhum educador pode ignorar as potencialidades cognitivas das crianças. Como conhecer e contribuir para o desenvolvimento dessas potencialidades?

Rui Trindade: O grande problema é saber se o desenvolvimento do raciocínio das crianças acontece por via de exercícios pensados para promover esse raciocínio ou se o raciocínio se desenvolve nas relações que as crianças têm umas com as outras, com a vida e com as tarefas apresentadas na escola. Na minha perspectiva, acho que a segunda via tem de ser valorizada. Nós temos de organizar os desafios, exigências e as tarefas da escola de forma que potencializem o desenvolvimento das crianças. A escola pensada como espaço onde o professor tudo sabe e tudo ensina terá de acabar. Quando é o professor a definir o que os alunos sabem, ele não promove o desenvolvimento do raciocínio. É preciso compreender que uma criança aos 3 anos tem uma certa capacidade de desenvolver determinados problemas e aos 10 anos terá outra. A escola terá de aprender essas fases, estimular e potencializar este desenvolvimento cognitivo. Deve conhecer bem o processo e a criança para saber quais caminhos trilhar.

iG: Uma escola atenta a estes processos cognitivos formaria alunos com quais características?

Rui Trindade: Haveria mais motivação para aprender e, sobretudo não aconteceria uma coisa dramática: crianças de 9, 10 anos dizendo que nunca conseguirão aprender matemática. Alunos dizem eu não sou capaz em um espaço que deveria justamente estimulá-los a ser cada vez mais capazes. Para mim é muito grave ver alunos achando que não vale a pena estudar porque não vão aprender. Considero bem pior do que os atos de indisciplina.

iG: Deve haver uma relação de troca entre alunos e professores?

Rui Trindade: Sim. Entre alunos e professores, entre os próprios alunos e entre as crianças e a própria comunidade. A escola tem que funcionar segundo outros parâmetros. A questão da matemática é um exemplo. A grande preocupação dos professores é fazer com que os alunos saibam usar os algoritmos, resolver problemas típicos e dominar fórmulas de resolução. Eles treinam as crianças a encontrar a resolução. O problema está exatamente aí. A matemática tem de ser mais do que isso. Deve visar que os alunos sejam capazes de encontrar novas respostas, estratégias e aprender a trabalhar em comum.

iG: Isso se aplica a todas as disciplinas?

Rui Trindade: Sim. A aprendizagem de ciências é papaguear os princípios, os enunciados, as regras, ou é confrontar as crianças com os problemas do mundo? Devemos confrontá-las com respostas que já foram dadas e aos poucos fazê-las buscarem suas próprias respostas. O mesmo se aplica à escrita e à leitura. Aprender a escrever significa saber a norma culta ou descobrir as suas potencialidades? É neste desafio que a escola pode ou não contribuir pro raciocínio das crianças.

iG: No Brasil, um dos grandes desafios é o ensino da matemática. Como reverter essa realidade?

Rui Trindade: O problema do Brasil é o mesmo de Portugal, que tem péssimos resultados em matemática. Grande parte dos portugueses tem medo da matemática, detesta essa matéria. Há um livro brasileiro chamado Dez na vida, zero na escola (de Terezinha Nunes e David William Carraher), um estudo realizado com crianças de rua. Os autores mostram que as crianças, ao vender coisas na rua, resolvem bem uma série de problemas de matemáticas. Fazem trocas, dão descontos, trabalham com diferentes moedas (dólar, euro, real), realizam uma série de operações de forma bem-sucedida. Por incrível que pareça elas não conseguem resolver os mesmos problemas na escola. Isso acontece porque a escola tende a não valorizar as estratégias próprias dos alunos, ela impõe uma estratégia. Ao impor, acaba por gerar muitas vezes o medo de errar. Isso limita os alunos ao modo de fazer, sem compreender por que está sendo feito. Enquanto nós continuarmos com esta prática, teremos maus resultados.

iG: Quais são os instrumentos necessários para que a escola mude a forma de ensinar?

Rui Trindade: O primeiro grande desafio tem a ver com a formação do professor. Claro que é importante uma sala de aula bem equipada, com um número de alunos adequados ¿ dar aula para 25 alunos é muito diferente de 45 na mesma sala. Mas o fator primordial é a formação dos professores. Tanto no ensino fundamental como no ensino médio, há muitos outros modos de fazer. E é nisso que a formação tem de focar, pegar aquilo que já se faz, aquilo que já se sabe e fazer diferente, de forma que os novos professores tenham novos instrumentos para ler o mundo e para agir. E não se refugiem nos modelos que tiveram quando foram alunos da escola básica. Não repitam o que aprenderam. A formação não interfere tanto quanto deveria no modo deles realizarem o seu trabalho.

iG: A formação dos docentes peca na parte pedagógica ou por não se atualizar?

Rui Trindade: A formação dos professores peca pela parte pedagógica e pela científica também. Falo pela minha experiência em Portugal. Na sala do 5º ano de licenciatura em matemática, perguntei aos alunos para que servia a matemática como instrumento de educação. Os meus 80 a 90 alunos deram respostas mais ou menos iguais: porque é fundamental para o raciocínio, fundamental para resolver os problemas do mundo contemporâneo. Ninguém conseguiu ter um discurso mais concreto do que este. Isto significa que a formação falhou. Não basta saber matemática, é preciso compreender como ela se constrói, qual é o processo que gera a sua construção. Isto tudo tem de entrar na formação dos professores.

iG: Quais são os desafios em Portugal?

Rui Trindade: Brasil e Portugal são muito malclassificados no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Os resultados apontam que os alunos portugueses são capazes de resolver problemas de rotina de matemática, mas não estratégias próprias de resolução. É preciso mudar a educação das crianças em matemática desde o princípio, porque desde o princípio ela está errada. Quando fui aluno, há muito tempo, resolvia problemas complicadíssimos, mas não compreendia a razão pela qual eu fazia aquilo, me limitava a identificar qual era a fórmula que se adequava àquela conta. As coisas não mudaram de lá pra cá. Apesar de termos um grande aparato tecnológico, o modo de ensino continua o mesmo.


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