Especial Professor: ¿Prefiro dar aula na escola rural¿

Como se fosse hoje, o professor de biologia lembra do dia em que entrou na escola para lecionar a primeira aula. Uma particularidade no comportamento dos alunos marcou sua memória.

Isis Nóbile Diniz |

Acordo Ortográfico

 Reparei que havia uma bananeira dentro da escola com um cacho carregado. Em uma escola de centro urbano, o cacho dependurado não duraria um dia. Os alunos iriam fazer guerrinha de bananas. Mas lá não. Para eles a bananeira é uma planta normal, faz parte do cotidiano. Não desperta vandalismo e desperdício. Eles dão valor ao alimento, porque é o que eles produzem, conservam e comem .

No Brasil, ainda existem escolas rurais com estruturas de barro, madeira e até de metal. Mas nem todas são assim. Há aquelas de alvenaria feitas com muito esmero que também preservam as características de uma instituição localizada no campo . E foi esse estilo de vida que atraiu o professor de biologia Rubens Tavares de Oliveira, de 29 anos.

Oliveira nasceu e cresceu em Pindamonhangaba, cidade do interior de São Paulo. Começou a lecionar durante a faculdade de biologia. Acabei gostando da profissão, afirma. Ao ser efetivado como funcionário público do Estado foi transferido para a cidade de Suzano. Onde vive atualmente. Dá aulas para classes da sexta série até o terceiro ano do ensino médio .

Todo dia, se levanta às seis horas da manhã. Toma o café, se arruma. Meia hora depois, percorre de moto 15 km até chegar a Escola Estadual Helena Zerrenner , localizada na área rural próximo ao Distrito de Palmeiras, onde o professor mora. Em 20 minutos, tem o privilégio de percorrer o caminho de casa até o trabalho pelo asfalto. Mas, quando chove, já sabe. O ônibus que transporta os alunos atola. Por isso, a aula começa mais tarde.

A escola

Em um lugar que parece uma pequena vila, com poucas edificações de alvenaria no entorno ¿ um clube, um mercadinho -, se encontra a Escola Estadual Helena Zerrenner. Localizada a 25 km do centro da cidade, possui cerca de 550 alunos, somado os períodos matutino e vespertino , horário em que funciona. O que totaliza uma média de 30 alunos, filhos de funcionários de hortifrutigranjeiro ou donos de propriedades rurais, por classe. A escola, que possui uma horta e um viveiro para plantas, está no final de uma reforma na estrutura e de material que durou mais de um ano, para se adaptar ao número de alunos que aumentou.

O acesso dos alunos à escola é complicado. Eles moram em casas espalhadas pelo campo . Assim, um ônibus fretado passa nas propriedades para levá-los até a escola. Como as estradas são de terra, quando chove o transporte pode atolar. O aluno enfrenta as dificuldades de quem mora no campo, mas eles tentam ao máximo superá-las para chegar às classes, afirma o professor de biologia. Por sua vez, o acesso dos professores é pelo asfalto. Mas, como é necessário dirigir pela estrada, às vezes podem ocorrer atrasos. É mais raro. Quanto às dificuldades da escola em si, são as mesmas que as demais escolas públicas enfrentam.

Os alunos

Apesar de ser jovem, o professor de biologia é ponderado e prudente. Talvez devido às experiências pelas quais passou. Sou de uma cidade do interior, mas já dei aulas em escolas urbanas centrais e de periferia. As dificuldades aqui são bem menores , conta. O índice de violência é menor. Por exemplo, poucos alunos possuem problemas com drogas, por isso conseguimos trabalhar melhor a matéria, afirma Oliveira.

Além disso, o professor conta com a participação das famílias. Nós conhecemos os pais. As famílias frequentam a escola, como consequência, apoiam o aluno e o professor , diz. Mesmo assim, como em outros lugares, os problemas com a falta de interesse dos alunos existem.

Aqui na zona rural, a maioria dos alunos se contenta com pouco. A ambição deles é pequena, comenta. Ele acredita que a falta de recurso financeiro dos alunos inibe a vontade de cursar uma faculdade, por exemplo. O aluno acha que não vai conseguir, mas tentamos ao máximo despertar o interesse em crescer e procurar outros caminhos , para ficar cada vez melhor na vida.

A vida

A zona rural é diferente da periferia, que está marginalizada e desorganizada. Ela é simples, explica. A inocência dos alunos é maior, diz Oliveira. Assim que a reforma acabar, o professor aproveitará o terreno e a terra da escola. Retomará os projetos como a horta e a estufa de plantas para arrumar o paisagismo da escola . Estudará, com os alunos, técnicas diferentes de cultivo. Ensino a teoria de ciências e biologia. Mas, na hora da produção, a gente aprende mais com os alunos do que ensinando, revela.

Apesar de morar longe da família, o biólogo quer continuar a lecionar nessa escola rural. Dei sorte de ser encaminhado para um lugar com harmonia, diz. Afinal, trabalhar onde o aluno é desrespeitoso, entra e sai da classe quando quer, é mal-educado, é dar aulas para poucos. Aqui, essa dificuldade é menor , analisa. Ele conta que possui liberdade para ensinar e conscientizar. Isso faz diferença no ensino.

A simplicidade, o cotidiano calmo e a sensação de coletivo conquistaram o jovem professor. Como a comunidade docente e discente é pequena, Oliveira conta que se sente parte de uma família. Há uma preocupação com o outro que não existe nos grandes centros. Se um professor faltou, ficamos preocupados. Ligamos para ver se está tudo bem, conta. Uma escola pública assim? A gente acha que está no paraíso .

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