Especial Professor: Docente relembra como foi trabalhar durante o período militar

Yaro Burian Junior, filho de pais tchecos, acabou a faculdade de engenharia eletrônica em 1962. Um ano depois, começou a dar aulas em faculdades de engenharia e nunca mais parou. Ser professor era mesmo a sua vocação, independente das dificuldades que ainda viriam aparecer.

Isis Nóbile Diniz |

Acordo Ortográfico

Afinal, ele tornou-se professor logo no início da ditadura. Burian transitou, bem de perto, entre os militares e os alunos revolucionários. Hoje, ainda trabalhando, o violonista, calmo e otimista professor relembra alguns fatos que considera um grande absurdo.

Burian deu início a sua carreira no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP) , mesma faculdade em que se formou. Ao mesmo tempo em que lecionava, fazia o mestrado que finalizou no primeiro ano da Ditadura Militar . Como seu professor de iniciação científica era francês, teve um convite para fazer doutorado na Universite de Toulouse III, na França. Que aceitou. "Não peguei o A-5, mas voltei para o Brasil logo, em 1968", disse. "Não quis ficar no exterior como alguns colegas meus trabalhando em empresas", diz o professor universitário.

"Não tive medo de voltar ao Brasil. Quando estava na França, passei apenas por um incidente de menor importância", relembra. Para investir na ditadura, os militares decidiram diminuir o valor da bolsa oferecida aos pesquisadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). "Cortaram quase dois terços dela. O valor era quase o essencial para sobreviver, pois a vida no exterior é mais cara. Isso causou transtornos. Por fim, tive que reduzir as despesas e ponto".

Apesar do problema, voltou a dar aula no ITA ¿ lembrando que a instituição é diretamente relacionada aos militares. "Trabalhei dentro da base aérea militar", conta. "Vi muitos alunos serem desligados por bobagens . Aluno do ITA, desde aquela época, não tinha tempo para fazer nada além de estudar. Se não estudassem perdiam o ano. Era impossível que eles fizessem ações como panfletagem, por exemplo". Para o professor, os alunos do ITA que foram presos não tinham envolvimento com o movimento estudantil daquele tempo.

Ovelhas negras

Atualmente, os abusos sofridos durante o Regime Militar por alunos de universidades públicas, como por exemplo da Universidade de São Paulo (USP), são os mais destacados. Mas como era lecionar em uma instituição militar na época da ditadura sendo contra o regime? No ITA, a maioria dos professores eram civis. Os militares nos davam liberdade acadêmica total, cada um dentro da sua competência, conta Burian.

Mesmo assim, houve perseguição a alguns professores. Dois chegaram a ser presos e outros demitidos . Um deles foi detido por uma bobagem tremenda, por ter um apelido chamado Cuba! Não tinha nenhuma relação com o regime cubano. Era apenas um apelido, diminutivo, derivado do seu nome Jacob, lembra-se.

Outro professor, seu sogro na época, foi demitido porque lançou um livro questionando o modelo do transporte aéreo no Brasil. Era uma publicação estritamente técnica que foi considerada subversiva. Como esse professor era advogado, desistiu de dar aula e voltou a exercer a advocacia. Não tínhamos a impressão de que essas coisas nos atingiam diretamente. Minha mulher, na época, estudava na área de letras. Mas afetou, sim.

Queridinha dos militares

Quando a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi criada, em 1966, o professor foi convidado a dar aulas . Mais uma vez, aceitou o convite. Ficou empolgado com a possibilidade de fazer parte da criação de uma nova universidade, um novo curso. "Lembra-se daqueles alunos que foram desligados do ITA por razões políticas? Aceitamos na Unicamp para finalizar o curso", revela. Os estudantes estavam presos na Base Aérea de Cumbica. Como não podiam sair, claro, a Unicamp enviou um professor para aplicar a prova de transferência. "Mais de uma dezena deles fizeram o exame presos, passaram e foram estudar em Campinas".

Os professores, por sua vez, não eram isolados e trancafiados dentro das universidades. "Nós tínhamos sempre contato com outros colegas. Principalmente, porque participávamos de bancas. Eu, por exemplo, orientei alunos doutorandos de outras universidades ¿ na época poucas ofereciam a possibilidade", afirma.

De 1966 até 1978, o reitor da Unicamp foi Zeferino Vaz. "Ele tinha muito prestígio . De certa forma, blindou a universidade durante o Regime. Certa vez, Zeferino Vaz se indispôs com um militar. Para surpresa de todos, quem saiu da universidade foi o militar e não ele, admira Burian. "Não sei o porquê de tanto prestígio. Ele dizia que a polícia só entrava na Unicamp prestando vestibular e dos meus comunistas cuido eu, conta. O reitor convidou muitos brasileiros exilados no exterior para trabalhar na Unicamp. "Ele trouxe muita gente qualificada", diz.

No final da ditadura, em 1981, após o mandato de Vaz, o intuito dos funcionários e alunos era eleger um reitor de forma democrática em plano Regime Militar . Alunos, docentes e funcionários deveriam escolher seus candidatos que seriam votados pelos diretores. Comprometemos-nos publicamente que votaríamos em um nome da lista feita pela comunidade. Mas ela não serviu para nada, lembra.

Claro que os militares boicotaram a ideia - democrática demais. Burian era um dos diretores, neste caso do Instituto de Artes, que deveriam votar em um reitor sugerido pela maioria. Vários diretores foram exonerados, inclusive, eu, conta. Assim, os militares puderam escolher quem eles queriam. O médico José Aristodemo Pinotti foi o eleito.

Silêncio. A força imposta pelos militares também era quieta, velada, política e, por isso, extremamente intimidadora. De certa maneira, a Unicamp fazia parte de um projeto de vitrine dos militares. Eles tinham a universidade como uma criação deles, analisa o professor. Por sorte, a maioria dos docentes saiu viva, literalmente. E muitos alunos competentes, inclusive aqueles que foram presos no ITA, acabaram o curso e se tornaram... Professores!

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