Escolas e pais não estão preparados para inclusão

Violência contra criança em Brasília levanta debate sobre a necessidade de melhorar formação de professores para as diferenças

Priscilla Borges, iG Brasília |

Uma mordida em uma sala de aula em Brasília provocou nos últimos dias reações de indignação, tristeza, frustração e, principalmente, preocupação. Ao contrário do que se poderia esperar, a violência contra uma criança de seis anos não partiu de um colega, mas de uma educadora. A agressão, protagonizada por uma estagiária em treinamento para ser professora, alerta para uma realidade já conhecida por especialistas, mas pouco percebida pela maioria da sociedade: as escolas não estão preparadas para a inclusão.

O episódio ocorreu em uma escola particular de área nobre que há mais de 30 anos atende crianças que necessitam de atendimento diferenciado para aprenderem, como a criança agredida. Essa, aliás, foi a razão pela qual a família procurou a instituição há cerca de três anos. A experiência do colégio, no entanto, não foi capaz de impedir a grave situação.

nullSegundo relatos ouvidos pelo iG da família e na escola, a criança disputava alguns brinquedos com um colega, quando a professora auxiliar, que era estagiária, teria tentado impedir uma briga entre eles. O menino tentou se desvencilhar e mordeu o braço dela. No depoimento que deu à escola, a auxiliar confessou que não soube como agir, se desesperou e revidou a mordida. No rosto da criança.

A mãe, quando viu marca na bochecha do filho, pensou que fosse batom. Lavou. Passou demaquilante. Mas não saiu. Ao perguntar à criança o que tinha ocorrido, custou a acreditar no que ele dizia: a professora auxiliar havia o agredido. Desesperada, voltou à escola para saber o que tinha acontecido, se alguém havia visto algo. Saiu de lá com promessas de investigação e começou a vasculhar na memória comentários da criança sobre o colégio. “Ele já havia me dado diversos sinais de que não estava feliz”, recorda.

Para os especialistas, o caso exemplifica a falta de preparo das escolas e da sociedade para lidar com as diferenças. “O aluno ideal, que fica sentadinho e quietinho, sempre disponível para aprender, não existe. A inclusão desperta os educadores para a real função da escola: atender alunos diferentes, garantindo a todos o direito de aprender”, destaca Amaralina Miranda de Souza, coordenadora da área de educação especial inclusiva da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).

“A maior parte dos colégios, infelizmente, não está pronta para a inclusão. Temos normas e diretrizes para promover a educação inclusiva, adequadas e avançadas, mas esse ainda é um desafio a superar”, ressalta César Callegari, integrante do Conselho Nacional de Educação (CNE). Ele diz que os sistemas de ensino não tomaram providências para garantir esse direito.

Primeiro desafio: os professores

Os especialistas são unânimes em afirmar que, para garantir a inclusão plena das crianças que possuem necessidades especiais, a formação daquele que lida diretamente com elas, o professor, precisa mudar. A maioria dos docentes brasileiros não aprendeu durante a faculdade como trabalhar com os diferentes tipos de deficiências, síndromes e transtornos possíveis de acometer qualquer criança.

“Se todos os professores fossem capacitados para lidar com todas essas síndromes, ninguém jamais seria excluído. Mas eles não saem da faculdade preparados”, lamenta Antonia de Maria Soares, diretora da Escola Classe 114 Sul, em Brasília, que há 40 anos atende estudantes com necessidades especiais. Hoje, 10% do total de 345 alunos recebem atendimento diferenciado. A maioria deles é deficiente auditivo e acompanha as aulas por meio de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A diretora da escola em que a criança foi agredida admite que não é fácil encontrar profissionais capacitados e dispostos a enfrentar as dificuldades do ensino especial. Para superar essa dificuldade, o colégio faz treinamento com os profissionais contratados.

Até agora, a escola não havia vivenciado um caso de agressão contra uma criança. A diretora conta que já teve professor que pediu para sair da escola com menos de um mês de trabalho e outro que precisou ser demitido porque não conseguia se adaptar. A estagiária que agrediu a criança foi desligada na manhã seguinte à agressão, por justa causa. “Não poderíamos admitir esse tipo de reação. Mas não podemos crucificá-la. As crianças gostavam dela e não é fácil ser agredido também”, afirma.

Denise Machado Guimarães, coordenadora de ensino especial da Escola Classe 114 Sul, em Brasília, também lamenta que os professores sejam tão condenados quando “perdem a cabeça”. “Não podemos defender esse tipo de atitude, é claro. Mas julgamos situações que não conhecemos, dificuldades que não sabemos. O professor ainda é pouco ouvido nesse processo da inclusão pedagógica de crianças especiais”, pondera.

Amaralina de Souza acredita que a formação dos professores já melhorou em relação ao tema. Na UnB, por exemplo, os alunos do curso de pedagogia já frequentam duas disciplinas obrigatórias sobre educação especial. Até dois anos atrás, essa capacitação era optativa. Segundo a especialista, com a lei que garante o direito de matrícula de crianças com necessidades especiais em qualquer escola, o assunto se tornou indispensável. O próximo passo, na avaliação de Amaralina, é incluir o tema em disciplinas também dos cursos de licenciatura.

Escola pública X particular

Dos 387.031 alunos brasileiros portadores de necessidades especiais matriculados em classes inclusivas da educação básica em 2009, 95% estudavam na rede pública. A rede privada concentra a maioria das matrículas dos estudantes que frequentam escolas exclusivamente especializadas: 160 mil de um total de 199 mil. Por isso, para os especialistas, o sistema público de ensino está à frente do privado quando o assunto é inclusão.

“A rede pública, de modo geral, é mais aberta a todo mundo. As escolas particulares ainda estão engatinhando nesse processo”, afirma Denise.

Vivan Melcop, educadora e funcionária da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), que tem um filho com 18 anos, conta que passou por dificuldades nas duas redes. O menino recebeu diferentes diagnósticos ao longo da vida: déficit de atenção, dislexia, hiperatividade. O fato é que ele não conseguia ler letras em itálico, por exemplo, e acabava tendo dificuldades para copiar exercícios do quadro, fazer provas.

“As escolas não entendiam que ele precisava de avaliações diferenciadas. É mais fácil para a escola olhar o aluno que tem comportamento diferente como preguiçoso e desmotivado”, afirma. Vivian conta que a escola pública foi mais compreensiva. Mesmo assim, critica os currículos massantes que não privilegiam quem pensa de forma diferente. “Hoje, na universidade, ele se encontrou. Está super feliz, estudando o que gosta”, garante. Ele estuda gestão do agronegócio na UnB.

Relação com as famílias: novo dilema

Para que as crianças com necessidades especiais se desenvolvam de forma plena, a parceria entre escola e família precisa ser estreita. Em muitos casos, são os pais quem identificam as necessidades da criança. Em outras, os professores. De toda maneira, não é fácil aceitar limitações e diagnósticos dos filhos.

“A gente diz que a família passa por um período de luto quando descobre a deficiência ou síndrome do filho”, conta a diretora da Escola Classe 114 Sul, Antonia Soares. A falta de conhecimento sobre o assunto já fez até com que as famílias trancassem os filhos deficientes em casa durante muitos anos.

O medo do estigma e da exposição excessiva das crianças que têm necessidade de atendimento diferenciado não ocorre em vão. No episódio de Brasília, houve pais que se posicionaram contra a família do menino agredido, com o argumento de que a criança “não era fácil”. “Meu filho foi vítima de agressão e agora querem culpá-lo? Ele se tornou vítima duas vezes”, lamenta a mãe. Para os especialistas, a reação extremada da monitora poderia ter ocorrido em qualquer momento, com qualquer criança.

Casos como esse, na avaliação da especialista da UnB, demonstram que escolas e famílias ainda precisam encontrar estratégias eficientes e montar redes de apoio para auxiliar de forma mais adequada crianças, pais, professores e a própria instituição. Pedagogos, psicólogos, médicos e fonoaudiólogos, por exemplo, têm de estar incluídos no processo. As famílias das outras crianças também.

“Quando um aluno especial tem reações agressivas, por exemplo, os pais das crianças que apanham dele se sentem muito incomodados. A escola precisa ajudar todos”, ressalta Denise Guimarães. Ela sugere a realização de palestras e encontros para explicar as diferentes síndromes aos pais.

“Tentar culpar alguém nesses casos, que é uma tendência social, não ajuda”, completa Amaralina. O importante, para ela, é encontrar maneiras de inserir a criança no ambiente escolar e repensar práticas para evitar novas histórias como essa.

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