Escola técnica tradicional sofre com a falta de professores

Etec Carlos de Campos, no bairro do Brás, tem entrada disputada, mas há cursos com 50% das disciplinas sem docentes

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

No ano de seu centenário, a Etec Carlos de Campos tem pouco a comemorar. Em greve há quatro semanas, a escola enfrenta problemas de infraestrutura, falta de docentes e dificuldade em atrair novos professores para as disciplinas vagas. O curso técnico em Comunicação Visual, por exemplo, tem cinco de dez disciplinas sem professores. O elevador está quebrado e não há acesso para cadeirantes subirem três lances de escada.

Tradicional escola do Brás, bairro central de São Paulo, a Carlos de Campos teve alta procura no vestibulinho. Para ingressar no curso de Enfermagem, a escola teve 28,33 candidatos por vaga – concorrência semelhante a da Universidade de São Paulo (USP) para os cursos de Psicologia e Design, que estão entre os 10 mais procurados.

A professora Andressa Ribeiro ingressou na escola no fim de fevereiro, com o ano letivo já em curso. Com pós-graduação em Negócios da Moda, Andressa assumiu quatro disciplinas do curso Modelagem do Vestuário que estavam sem professor até então. “Entrei aqui porque a escola é renomada e para adquirir experiência. O salário não é satisfatório, recebo pouco mais de R$ 10 por hora aula, não tenho vale transporte e vale refeição recebi apenas um mês e veio só R$ 20”, diz a jovem profissional de 23 anos.

Melhores alunos

As Etecs são as melhores escolas estaduais de ensino médio. No último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as dez unidades da rede mais bem colocadas eram Etecs. A Carlos de Campos ficou em 7º lugar. “O aluno da Etec é muito bom. Ele é crítico, é inteligente, exige mais do professor”, conta Leandro Neitzhe, que dá aulas de filosofia na Carlos de Campos e em mais duas escolas estaduais.

Apesar da remuneração por hora de aula ser maior na Etec, Leandro recebe mais na escola estadual, pois o Estado paga adicional noturno e o Centro Paula Souza – mantenedor das Etecs – não. Mensalmente, o professor recebe R$ 753 por 13 aulas na Etec e R$ 860 por 12 aulas no Estado. O jovem professor, de 24 anos, afirma que a única motivação para trabalhar na Etec são os alunos. “Não há como estudar mais, se preparar melhor, com um salário que não dá condições de sobrevivência.”

As condições salariais afastam bons profissionais das Etecs – o mercado de escolas e faculdades particulares oferece salários três vezes maiores. Guilherme Vidal, professor de Artes há 22 anos da Carlos de Campos, conta que a escola tem perdido profissionais da área técnica. “Tenho receio que aconteça com as escolas técnicas o que aconteceu com a rede estadual, um sucateamento”, afirma. Guilherme está no último nível da carreira de professor no Centro Paula Souza e recebe R$ 17,60, menos do que o dobro de um docente nível um, como Leandro e Andressa.

Isabelle Priore, 15 anos, é aluna do 1º ano do ensino médio. “Escolhi estudar aqui pela qualidade dos cursos técnicos. É muita propaganda em cima da Etec. O governo diz na TV que o ensino é forte, mas não é bem assim”, comenta. A estudante espera que a greve traga melhorias para a unidade.

Nos muros da escola, fundada em setembro de 1911 e tombada pelo patrimônio histórico, um grafite da dupla Os Gêmeos, Otávio e Gustavo Pandolfo, ex-alunos da Carlos de Campos, divide espaço com um trabalho sobre o filme “Alice no País das Maravilhas”. Mas o mundo dos sonhos está distante da realidade atual da escola.

A greve

A paralisação dos professores e funcionários das Etecs e Fatecs foi iniciada em 13 de maio, um dia após o governador Geraldo Alckmin anunciar um reajuste de 11% . O piso para professores das Etecs passou de R$ 2.000 para R$ 2.220 e nas Fatecs de R$ 3.600 para R$ 3.966, para jornadas de 40 horas semanais. Por hora de aula, isso significa um aumento de R$ 10 para R$ 11,10 nas Etecs, e de R$ 18 para R$ 20 nas Fatecs. Na próxima segunda-feira (13), a categoria irá negociar com o Centro Paula Souza e o Secretário de Gestão Pública. Depois, será realizada uma assembleia geral que irá decidir se a greve continua ou não.

A reivindicação do sindicato é um reajuste de 58,9% para professores e 71,79% para funcionários para recompor perdas salariais desde 1996. De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (Sintep), o reajuste concedido no período foi de 52,46% para os docentes e 41,02% para os funcionários, mas as perdas salariais com a inflação seriam de 142,27%.

Durante a negociação com a categoria, o governo ofereceu um reenquadramento dos docentes e funcionários das categorias iniciais, o que significa um aumento de 12% (além dos 11% já concedidos). A medida beneficiaria 6.800 professores, 53% dos docentes. Mas a categoria quer um reajuste maior e para todos os níveis. O Centro Paula Souza também se comprometeu a apresentar um novo plano de carreira e tem reuniões marcadas com o sindicato dos professores e funcionários.

A categoria reivindica também vale transporte, vale refeição – que atualmente está no valor de R$ 4 e só é pago para quem recebe até R$ 1.200 –, assistência saúde, uma vez que os trabalhadores não têm direito a usar o hospital do servidor público e precisam usar o SUS para apresentar atestados, implantação de adicional noturno de 100% e cestas básicas, entre outras reivindicações.

A última greve dos docentes e funcionários do Centro Paula Souza aconteceu em 2004 e durou 80 dias.

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