Escola particular em SP mantém tradição, mas inova em tecnologia

Ex-alunos relembram época em que meninos e meninas não estudavam juntos e que giz e lousa ainda eram usados na sala de aula

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

Visitar a escola onde se estudou é sempre uma experiência nostálgica. Ainda mais quando quase tudo se mantém exatamente como era décadas atrás, como no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. O piso de madeira das salas de aula é igual. Os ladrilhos do chão dos corredores e do pátio, também, assim como as cadeiras vermelhas do teatro, as escadarias, os janelões por onde os alunos contemplam o movimento nas ruas. O laboratório de ciências fica no mesmo local. E o sino ainda soa.

A convite do iG , três gerações de ex-alunos, que estudaram no Dante entre as décadas de 60 e 90, visitaram a escola para contar o que mudou e o que continua igual. O empresário Roberto Klabin, 55 anos, a chef Silvia Percussi, 46 anos, e o publicitário Bruno Cardinali, 29 anos, passaram lá a vida escolar inteira. O carinho pela escola que lhes é muito familiar é unânime, mas todos destacam a queda das formalidades e a tecnologia presente em sala de aula desde as primeiras séries como as principais diferenças com a realidade atual.

“Isso tudo está ainda dentro de mim”, diz Roberto Klabin, que preside a Fundação SOS Mata Atlântica. Cada local traz uma lembrança da vida escolar. No arco da entrada, a memória mais antiga: aos 6 anos, Roberto entrou chorando na escola. Pelas escadas do prédio Leonardo da Vinci, o principal da escola, correu apressado para não perder os exames do colegial (atual ensino médio ).

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Roberto e sua mulher, também ex-aluna, não transferiram o título de eleitor para a região sul de São Paulo, onde moram atualmente, a 15 quilômetros do colégio. “É um motivo para visitarmos a escola a cada dois anos”, conta o ex-aluno, formado há 38 anos.

A relação de Silvia Percussi com o colégio é ainda mais forte e vem de família. “Minha avó, minha mãe e eu estudamos aqui. E hoje minha filha Franchesca está no último ano do ensino médio”, conta a chef e dona do restaurante Vinheria Percussi. Descendente de italianos, Silvia é um exemplo de algo muito comum no Dante: diversas gerações de estudantes de uma mesma família.

A tradicional instituição particular de São Paulo foi fundada por imigrantes italianos há 100 anos, em 9 de julho de 1911, para ser a escola de seus filhos na nova pátria. Pelos corredores do Dante, passaram dezenas de gerações – mais de 70 mil estudantes. Muitos descendentes de italianos – talvez a maioria –, mas alunos de outras origens também sempre foram recebidos.

No colégio, o “padrão europeu de ensino”, com formalidades, rigidez e apreço pela boa postura dos alunos perdurou até o início dos anos 2000, quando o colégio começou a se modernizar. Bruno Cardinali, gerente de marketing da Unilever, se formou há apenas 11 anos. Mas assim como Roberto e Silvia, tinha que se levantar quando o professor entrava em sala de aula e toda segunda-feira cantava no pátio o hino nacional do Brasil, o hino da Itália e o do colégio.

Hoje há uma relação mais informal entre alunos e professores. Os estudantes são instruídos a fazer o gesto respeitoso apenas para visitas ilustres, como o cônsul da Itália, e cantam os hinos somente em datas comemorativas. 

Tecnologia

A queda das formalidades e a presença natural da tecnologia são as mudanças que mais chamaram atenção dos ex-alunos. Roberto, Silvia e até mesmo Bruno, o mais novo da turma, não tiveram uma "educação multimídia".

No prédio novo do colégio, o Michelangelo, que abriga a educação infantil e o ensino fundamental I, todas as salas tem computadores e lousa digital. Com uma caneta especial, as crianças escrevem e movem objetos projetados na lousa. Tudo com a maior familiaridade e desenvoltura.

Na sala de informática, alunos de 5 anos desenham no computador. Os trabalhos são salvos em um diretório que é projetado na lousa digital, como o monitor de um computador, para que todos vejam se o trabalho foi gravado corretamente. Nem a presença de Bruno, com 1,96m de altura, faz os pequenos desgrudarem os olhos da tela. “Acho que esta é a única sala onde uma pessoa do meu tamanho entra sem ser notada”, brinca Bruno.

As novas bibliotecas, com perfis diferentes de acordo com as etapas do ensino (infantil, fundamental e médio) chamam a atenção de Roberto. “Antes não existiam tantos espaços estimulantes de interação, lugares onde as pessoas podiam se reunir para discutir. Era só o pátio”, lembra.

Estrutura física

Como se tivessem sido tombados pelo patrimônio histórico, os prédios do Dante foram cuidadosamente preservados. As maiores mudanças foram a transformação de um grande gramado em quadras poliesportivas e a região onde está localizado em São Paulo. Por estar construído em um espigão, a duas quadras da Avenida Paulista, a vista do colégio se estendia até as margens do Rio Pinheiros nos anos 70. Hoje, o horizonte acaba em um muro e nos milhares de edifícios erguidos ao seu redor. “Daqui dava pra ver a cidade quase inteira”, lembra Roberto.

“As meninas ficavam de bobes no cabelo e soltavam na hora do recreio, para ficar com um visual Farrah Fawcett"

Já as salas de aula estão praticamente iguais. A classe onde Silvia estudou no segundo colegial fica exatamente no mesmo lugar e recebe alunos desta mesma série. “As meninas ficavam de bobes no cabelo e soltavam na hora do recreio, para ficar com um visual Farrah Fawcett (atriz americana que participou do seriado ‘As Panteras’)”, conta a ex-aluna, que estudou em classes só de meninas da 4ª série do ensino fundamental até a 3ª do ensino médio. “Estudar no prédio do colegial tinha um status, porque quanto mais velha a gente ficava, mais pro fundo do colégio ia e mais próximo das salas dos meninos ficávamos. Tinha um glamour. Hoje elas (as alunas) acham tudo normal (a convivência com os meninos)”, comenta.

Silvia fez o ensino médio técnico em Patologia Clínica (Biológicas). Adorava abrir animais mortos e ficava encantada na feira livre quando via o vendedor limpando o peixe. “Tinha certeza que queria ser médica”, conta a ex-aluna que encontrou na gastronomia a sua verdadeira vocação.

Em uma sala do colegial, Roberto não entrava desde que se formou. A modernização do mobiliário decepcionou o ex-aluno. “Que sem graça”, diz contemplando as cadeiras azuis de plástico. “Antes eram umas carteiras de madeira escura, a gente rabiscava, via o que outros alunos tinham escrito ali. Perdeu a personalidade. Isso aqui, apesar de ser funcional, prático e confortável, poderia estar em qualquer outro lugar.”

Até Bruno estudou em carteiras de madeira no ensino fundamental, na década de 80 e 90. “Elas eram ligadas umas nas outras. A minha mesa era a parte de trás da cadeira do aluno da frente”, recorda. O formato não permitia a interação entre os alunos, como formar grupos ou uma roda em formato de U.

“Acho que tudo deve estar melhor. O ensino, a relação com a tecnologia, a relação com os alunos, a infraestrutura... mas eu prefiro como era no meu tempo, com carteiras de madeira onde a gente podia exercitar o nosso vandalismo”, diz Roberto, rindo.

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