Escola apresenta sexo de forma técnica

Para especialista, tema deve ser acompanhado de educação afetiva e estar presente em sala de aula desde a infância

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Olhos bem abertos, corpos inclinados em direção ao professor, sorrisos contidos. Basta saber que a aula será sobre educação sexual para estudantes demonstrarem o interesse que todo docente espera quando prepara uma aula. Na maioria das escolas, no entanto, o tema fica aquém da expectativa e se resume ao funcionamento dos órgãos sexuais e aos riscos de gravidez e doenças.

Amana Salles/Fotoarena
Equipe da Secretaria Municipal de Saúde de SP explica partes dos órgãos sexuais a turma de 7º ano

“A informação científica não muda um comportamento baseado em hormônios”, diz o presidente da Associação Brasileira de Educação Sexual, Cesar Nunes. Livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de livros sobre o tema, ele afirma que é preciso incluir afeto e responsabilidade na abordagem. “É isso que os estudantes esperam.”

A maior dificuldade é a falta de preparo do professor para lidar com o assunto. Apesar de a educação sexual ser oficialmente um tema transversal – a ser tratado por todos os educadores – desde os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1997, não faz parte da formação docente. “Não se discute mais se deve ou não falar de sexualidade nas escolas, mas nas faculdades de licenciatura ainda não se aborda o assunto”, diz.

A saída encontrada tem sido delegar a tarefa a apenas um profissional. Às vezes, o professor de biologia, outras, um visitante. Nas escolas municipais de São Paulo, esse trabalho é feito por funcionários da Secretaria de Saúde com auxílio de material pedagógico do Instituto Kaplan, especializado no tema.

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"Beijo" encabeça a lista de carinhos e carícias feita em aula de educação sexual
Carinhos e carícias

A assistente social Danusa Gianpietro Szot é uma das responsáveis pelas aulas na região do Carmo, zona leste da cidade. No primeiro encontro, fala de futuro, sonhos, expectativas e pede a alguns que façam este planejamento incluindo filhos. “Eles adoram, prestam muita atenção e acabam fazendo uma boa reflexão", diz ela.

O iG acompanhou a segunda aula em uma turma de 7º ano da escola municipal José Quirino. Foi ali que viu meninos e meninas de 12 e 13 anos se ajeitarem na carteira com alegria e atenção, à espera da aula de educação sexual. “Carícias e carinhos sexuais”, escreveu Danusa na lousa e perguntou: “Quais vocês conhecem?”

“Beijo”, respondeu o professor que acompanhava como ouvinte e foi convidado a começar. “Abraço”, veio a resposta de um aluno, na mesma linha. Em poucos minutos apareceu “mordida” e “amasso” até chegar em “sexo anal” e “sexo oral”.

Em seguida, foi mostrado o desenho de uma vagina. “O que é isso, gente?” Gargalhadas substituíram a resposta, e a aula continuou com a apresentação dos nomes e das funções de cada pedaço do órgão. A auxiliar de enfermagem Otilde Ferreira Hilário aproveitou para mostrar como é feito um exame papanicolau e, por último, repetiu tudo sobre o pênis, sempre acompanhada por risadinhas de alunos.

No final da aula, a turma formou grupos para uma competição. Danusa sorteava cartões em que havia situações sexuais e perguntava: “pode engravidar?” Nenhum grupo errou, mas antes de responder todos debateram internamente aos sussurros, falando uns aos outros de curiosidades que bem poderiam ser as deles. “Sim, porque o espermatozóide anda”, respondeu um aluno à pergunta que envolvia uma ejaculação nas pernas da garota. “Ele tem pernas?”, perguntou outro meio desconfiado.

A assistente social desenhou um na lousa, explicou como ele se movimenta e questionou se alguém sabia quantos daqueles há em cada gota de esperma. “Meu pai já me falou esta”, disse um dos mais inteirados. Quando o sinal tocou para marcar o fim da aula, a sensação foi de que foi insuficiente. “Não dá tempo de falar de tudo”, lamenta Danusa, já do lado de fora.

Semana da saúde

A situação é parecida em escolas particulares. No colégio Albert Sabin, também em São Paulo, o tema é abordado pela primeira vez no 8º ano, durante a Semana da Saúde da escola. Dois professores de biologia dividem meninos e meninas e respondem as dúvidas apresentadas.

“É muito difícil trabalhar o assunto”, admite o professor Aymar Macedo Diniz Filho. “A gente tenta isentar de moral, tenta levar mais para o fisiológico”, complementa. Ele conta que já faz esse trabalho há 10 anos e que os adolescentes de 12 e 13 anos têm cada vez mais conhecimentos prévios. “O que não muda são os medos, as angústias e as emoções.”

Cesar Nunes, da Associação Brasileira de Educação Sexual, explica que esses sentimentos precisam ser trabalhados com os adolescentes. "As dúvidas sobre o corpo vão existir desde os 3 anos de idade e devem ser respondidas com informações e sem estigma. Na adolescência, a garotada precisa de apoio para lidar com a avalanche de emoções que os cercam. Eles precisam saber que sexo envolve afeto e responsabilidade."

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