Ensino médio precisa de outros modelos de currículo

Crise verificada na etapa final da educação básica revela mudanças no comportamento da juventude mundial, afirmam especialistas

Priscilla Borges, iG Brasília |

Para atrair os jovens e incentivá-los a permanecer na escola, o ensino médio precisa adotar diferentes modelos de currículos. Em seminário promovido pelo Ministério da Educação e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a tese foi defendida por diferentes especialistas. Os diversos anseios da juventude – universidade, mercado de trabalho, arte, tecnologia – precisam estar contemplados nos projetos pedagógicos das escolas.

Segundo Simon Schwartzman, presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (IETS), as metas para a etapa final da educação básica precisam ser baseadas em diferentes caminhos. Ele lembrou que estudo e trabalho não são, necessariamente, tarefas incompatíveis. Os projetos pedagógicos do ensino médio precisam considerar que esse pode ser um desejo e necessidade do jovem e abrir espaço para isso.

Simon ressaltou que as matrículas dos jovens nas escolas estão abaixo do esperado – cerca de 60% do potencial de alunos para essa fase. O dado revela, segundo ele, a necessidade de diferenciar sistemas de ensino para atender essa população. “Temos problemas a enfrentar, como baixa cobertura, abandono e ausência de alternativas, como ensino técnico e profissional.”

O pesquisador alertou que, hoje, o Brasil não possui nenhum instrumento que consiga medir a qualidade de ensino nessa fase. Para ele, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não é suficiente para isso. Ele acredita que o País terá de desenvolver ferramentas de avaliação.

Dados apresentados pelo representante da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) Michael Davidson mostram que a evasão dos estudantes brasileiros do ensino médio é preocupante. E os investimentos feitos na educação nos últimos anos não ajudaram a sanar esse problema. Apenas pouco mais da metade (55%) da população com idade entre 15 e 19 anos está matriculada em colégios ou faculdades.

A falta de estudo pode prejudicá-los no futuro. Segundo Ian Whitman, diretor de Educação da OCDE, 40% das pessoas que vivem nos países que fazem parte da organização e não terminaram o ensino médio não conseguem emprego depois. “É evidente que a educação é a chave para lidarmos com desafios econômicos da nossa era e superar crises”, ponderou.

Exemplos práticos

Experiências bem-sucedidas dentro e fora do País serão mostradas durante todo o seminário, que termina amanhã. O BID apresentará resultados de um estudo que mostram as boas práticas adotadas por secretarias estaduais e escolas brasileiras, que têm obtido sucesso no ensino e aprendizagem dos alunos. A pesquisa foi realizada no ano passado com 35 colégios de quatro estados: Acre, São Paulo, Paraná e Ceará.

A secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Lacerda, afirmou que o ponto de partida das escolas que obtém sucesso é o mesmo já apontado por outras pesquisas realizadas com colégios de ensino fundamental: boa gestão escolar; professores empenhados e com boa formação, e boas expectativas sobre os alunos. “Não há novidades nesse sentido. O que percebemos com a pesquisa é que há secretarias estaduais com vontade de mudar a realidade.”

Pilar lembrou que o ensino médio passa por uma “crise mundial de identidade”. Em todo o mundo, especialistas discutem para entender qual o papel dessa etapa da educação básica. A secretária destacou que os países com maior diversidade étnica e cultural enfrentam ainda mais dificuldades para atender as necessidades da juventude. “Muitos alunos vêm de famílias em que eles são os primeiros a chegar ao ensino médio. Precisamos conhecer esses jovens e saber o que eles esperam da escola”, defendeu.

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