Mudança no vestibular da UFRJ muda foco de estudo nos cursinhos

Com a adesão ao Enem, professores e estudantes correm para reprogramar as aulas de pré-vestibulandos

Flavia Salme, iG Rio de Janeiro |

A decisão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de substituir seu tradicional vestibular pelo Exame Nacional de Ensino Médio, anunciada no último dia 30, provocou surpresa e obrigou professores e alunos pré-vestibulandos a promoverem uma reviravolta nos estudos. Nas salas de aula, especula-se o fim dos simulados discursivos. O foco agora é preparar os estudantes para lidarem com provas recheadas de textos longos, com respostas em múltiplas escolhas, e um prazo relativamente curto para dar conta de todas as questões.

Como a decisão já vale para o vestibular de 2012, os alunos terão de reprogramar o foco dos estudos em cerca de três meses. Em 22 e 23 de outubro será realizado o Enem. “O grande problema é descobrir a regra do jogo no meio do processo”, disse o coordenador de ensino do colégio pH, no Rio de Janeiro, Rui Alves Gomes de Sá. “A decisão deixou os alunos mais ansiosos”, avaliou.

Divilgação
Rui Alves Gomes de Sá, coordenador de ensino do curso pH: “Agora, vamos ter de suprimir o ‘algo a mais’ da nossa programação”
Rui, no entanto, afirma que para os três mil estudantes que se preparam para o vestibular/ Enem no pH, a situação está sob controle. “Já tínhamos um foco de estudos no Enem. Acontece que o vestibular da UFRJ – que considero, junto com o da Unicamp, o melhor do País – não era decoreba. Eram provas discursivas, de raciocínio. E tinha questões específicas, que eram um ‘algo a mais’ nos estudos”, ponderou. “Agora, vamos ter de suprimir o ‘algo a mais’ da nossa programação”.

A estudante Ianna Campos, de 17 anos, explica como a mudança poderá afetá-la: “Concorro a uma vaga no curso de Medicina. No caso da UFRJ, além de Química e Biologia – cobradas nos vestibulares da UFF e da Uerj –, Física era matéria específica no vestibular. Estou desde o início do ensino médio focando nessas disciplinas. Agora, com o Enem, elas não serão mais um diferencial”, lamenta a jovem. “E terei apenas três meses para investir mais nas matérias de humanas, como História e Geografia, que nunca foram o meu forte”, conclui a estudante.

Ianna diz que para recuperar o estudo perdido irá aumentar a carga horária no cursinho. “A questão não é saber se vai dar tempo. A questão é descobrir como vou fazer esse trabalho. A qualidade do estudo não pode ser comprometida pela questão do tempo”, disse ela.

Alunos não acharam justo
O diretor geral do curso Pensi, Márcio Branco, informou que a equipe pedagógica se reuniu no último fim de semana para debater a mudança e refazer o cronograma de estudos. “Embora a gente já estivesse trabalhando com o Enem, a decisão pegou todo mundo de surpresa. Os alunos não gostaram, não acharam justo. A maioria reclamou”, contou a diretora pedagógica da unidade Tijuca, Lígia Nápoles.

Lígia concorda que o chamado conhecimento específico em algumas disciplinas não será mais necessário. “É outro tipo de prova, outro foco. E agora vamos ter de pensar como trabalhar esse novo enfoque nas salas de aula”, relatou.

“Eu me sinto bem preparado, mas agora vou ter de ler mais, ampliar conhecimentos em outras áreas. Não sei dizer se vai dar certo, mas estou tranquilo”, contou o estudante Carlos Penhato Araújo, de 17 anos.

Cursinhos comunitários comemoraram
Nos cursos comunitários, a decisão foi bem recebida. Porém, para frei David, coordenador da ONG Educafro, que reúne 200 cursos comunitários onde estudam cerca de seis mil jovens carentes, o entusiasmo com a medida foi parcial.

“Fico entusiasmado porque considero um absurdo este País não ter um vestibular único. Temos informações de que grande parte das faculdades públicas fez (e faz) do vestibular um importante ‘caixa dois’, e por isso elas eram contra a unificação do vestibular”, disparou o franciscano. “Quando já se viu no site dessas universidades a prestação de contas do dinheiro que entra com os vestibulares?”, indagou.

Contudo, frei David diz que a parte “parcial” de seu entusiasmo se deve ao fato de que, em sua avaliação, “tanto na prova da UFRJ quanto na do Enem sai na frente quem tem dinheiro para pagar pessoas para ensinar os macetes e o domínio das regras”. “O pobre que sai para o trabalho, estuda à noite, e faz cursinhos comunitários de 10h aos sábados, não terá como competir com os ricos”, opinou.

O coordenador da Educafro não acredita que o novo sistema de aprovação adotado pela UFRJ vai mudar o perfil da instituição. “O que provocará mudanças serão as cotas de 30% para quem ganha até um salário mínimo por pessoa”, avaliou.

A principal vantagem da adoção do Enem pela UFRJ, segundo frei David, será o fato de o modelo garantir acesso a estudantes de qualquer lugar do País. “Antes os ‘riquinhos’ pegavam o avião e prestavam vestibulares no Rio de Janeiro, em São Paulo, Campinas, Brasília e etc... Era uma afronta contra os pobres que não tinham estas possibilidades”, finalizou.

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