Escolas de ponta no Piauí apostam em turmas reduzidas

Receita de sucesso de colégios de Teresina no Enem inclui poucos alunos em sala, professores qualificados e atendimento individual

Priscilla Borges, enviada especial a Teresina (PI) |

Conhecer os alunos pelo nome não é mera formalidade para professores e funcionários das escolas de Teresina que obtiveram melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2009. Com quatro escolas privadas entre as 26 melhores do País na avaliação do Ministério da Educação, a capital piauiense mostra como ensinar bem longe dos grandes centros.

Única capital nordestina sem praia, a cidade de Teresina transformou a educação em uma prioridade para muitas escolas e famílias. Professores e alunos tentam explicar o motivo: busca de melhores condições de vida para as próprias famílias e vontade de mudar a realidade do Estado são as mais comuns. A receita das escolas para atender a demanda?

A competição entre as escolas criou metodologias bastante populares entre os colégios que apresentam desempenho de excelência – refletido não só nos resultados no Enem, mas também em aprovações nos vestibulares. A primeira é a carga horária de aulas elevada. Depois, as turmas são mantidas com poucos alunos. As avaliações acontecem semanalmente.

Com isso, além de os estudantes se prepararem de forma diversificada, fazendo simulados de vários vestibulares brasileiros e do Enem, os adolescentes são acompanhados de perto. Dúvidas não podem ficar para trás. As turmas reduzidas também auxiliam nessa tarefa. Os professores conseguem acompanhar o desempenho de cada um.

Fellipe Bryan Sampaio
Mesmo no pré-vestibular, as turmas do Colégio Olimpo não são grandes. Escola não quer crescer muito
Em Brasília, a escola melhor posicionada no ranking do Enem também adota a estratégia de não crescer muito. Hoje, o Colégio Olimpo oferece poucas turmas de pré-vestibular e uma de cada série do ensino médio. O máximo de alunos em cada sala do ensino médio é de 35. No cursinho, se limita a 40. O diretor e sócio-proprietário Dalton Franco explica que a ideia é acompanhar melhor os alunos e garantir ensino de qualidade a todos.

Além disso, eles acreditam que a quantidade baixa de alunos permite um contato mais próximo com os professores. O que faz diferença para os estudantes, como afirma Beatriz Martins, 18 anos. A candidata ao curso de medicina fez o ensino médio na escola e, agora, está matriculada no pré-vestibular. “Com as turmas pequenas, os professores conseguem dar atenção a todos os alunos”, ressalta.

Dalton Marinho, 18, afirma que ficou mais contente pelo resultado da escola do que pelo individual. "Sabia que a escola era boa. Mas como é nova na cidade, acho que era importante a nota no Enem para mostrar isso às pessoas", comenta. Na visão do coordenador pedagógico, Carlos Pacheco, o atendimento a cada estudante é o segredo do sucesso.

Acompanhamento individual
O Colégio Lerote, que ficou na 26ª posição no ranking das melhores no Enem, é o que possui as menores turmas. No passado, 21 estudantes estavam matriculados no 3º ano do ensino médio e apenas 15 participaram do exame. Este ano, menos de 15 estão em sala de aula. A escola criada há 25 anos foi sendo expandida aos poucos, sem crescer demais.

Priscilla Borges, iG Brasília
Turma do 3º ano do ensino médio no Lerote é bastante reduzida. Para os estudantes, esse é um diferencial da escola: professores dão atendimento individualizado
Rosângela Fonseca Napoleão do Rêgo conta que a maioria dos alunos começa a estudar na educação infantil. A escola, inclusive, não aceita estudantes na última série do ensino médio. “O resultado do 3º ano começa no ensino fundamental. Queremos formar alunos para exercer cidadania e o retorno tem aparecido naturalmente”, afirma Rosângela.

A média do Lerote foi 667,99 pontos nas provas objetivas e 760 na redação. A nota final (média das duas) ficou em 714 pontos. “Acho que parte do sucesso dos alunos se explica porque não temos muitas atividades culturais para fazer na cidade, não tem praia. Nós acabamos estudando muito”, afirma Braian Lucas Aguiar Sousa, 17 anos.

Valorização do professor
O Instituto Dom Barreto, terceiro colocado no País, iniciou uma mudança muito positiva para as escolas do Piauí. Passou a valorizar os professores, pagando salários maiores e financiando cursos de especialização. Hoje, todos os 90 professores da escola têm, pelo menos, título de especialização. No ensino médio, todos têm mestrado, ao menos.

Priscilla Borges, iG Brasília
Rotina de estudos puxada não assusta os estudantes do Dom Barreto. Para eles, quem está lá tem o mesmo foco, a aprovação no vestibular
Outro ponto considerado para o colégio é a proximidade com a família dos estudantes. Grande parte deles é filho de ex-alunos da escola. Além disso, os pais são convidados a participar ativamente da vida escolar, podem fazer cursos de línguas na instituição e muitos estudam para concursos, por exemplo, dentro da biblioteca escolar.

A aposta em diferentes habilidades – como as adquiridas nas aulas de xadrez, a oferta de diferentes idiomas (como alemão, grego, hebraico, latim) e esportes – é um dos diferenciais da escola, valorizados pelo grande mentor do colégio, Marcílio Flávio Rangel de Farias. O antigo diretor defendia a formação completa dos jovens.

“Todo mundo sabe que estamos em um colégio difícil. Nós estamos aqui porque temos um objetivo comum, que é passar no vestibular. A concorrência é muito qualificada e está aqui também”, ressalta Anna Luiza Melo, 17 anos.

Voz aos estudantes
O Instituto Antoine Lavoisier de Ensino, no 13º lugar do ranking, também possui turmas pequenas, investe na capacitação do professor e está sempre de olho nos alunos, para saber se estão acompanhando as aulas, aprendendo os conteúdos e participando das atividades como a escola gostaria.

Priscilla Borges, iG Brasília
Melhorar a visão que os brasileiros têm do Piauí e ajudar o Estado a se desenvolver é um dos objetivos dos estudantes para buscar a melhor formação
Mas, para explicar o sucesso do colégio no Enem, a coordenação também apresenta outra justificativa: o poder dos próprios estudantes na escola. Segundo a direção, eles são ouvidos a todo instante. Além de reivindicarem aulas ou atividades que estejam precisando, os adolescentes têm a liberdade de reclamar de professores ou programas.

“Eles têm liberdade e autonomia, mas conhecem as exigências de disciplina”, afirma Raimundo Torres, sócio e diretor da escola. A participação em eventos culturais e esportivos é outra constante na escola.

Parceiros da família
Amanda Leal, diretora pedagógica do Educandário Santa Maria Goretti, acredita que a proximidade com as famílias dos alunos também faz toda a diferença para o aprendizado dos jovens. Com o nível de cobrança e carga de estudos impostos pela escola, na opinião dela, o papel dos pais é essencial para que eles consigam superar os desafios.

Além do acompanhamento individualizado do desempenho do aluno, a escola acredita que o investimento na formação do professor é essencial para o sucesso do colégio. Lá todos os coordenadores têm título de doutorado e a escola investe na formação dos professores que desejam fazer pós-graduação.

Priscilla Borges, iG Brasília
Estudantes do Educandário Santa Maria Goretti durante as aulas. Maioria só sai da escola depois das 22h todos os dias
Na 20ª colocação no ranking nacional, o Educandário obteve 722,30 pontos de média. Para Amanda, estudantes e pais têm consciência de que a educação dá acesso a oportunidades. “A tendência é aumentar cada vez mais o tempo que os alunos passam na escola. Mas o importante não é só quantidade, mas a qualidade desse tempo”, reforça.

Em todas essas escolas, os alunos passam por processos seletivos antes de entrarem. Os coordenadores explicam que o objetivo não é só verificar níveis de conhecimentos dos alunos, mas conhecer o perfil das famílias e dos alunos, para que eles saibam se eles vão se adaptar ao ritmo de estudo dos colégios ou se precisarão de ajuda extra.

    Leia tudo sobre: educaçãoenemrankingteresina

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG