Abstenções causam desperdício milionário no Enem

Só com a impressão de provas não utilizadas governo gastou R$ 8,8 milhões. Problema também atinge os maiores vestibulares do País

Marina Morena Costa, iG São Paulo |

As abstenções em vestibulares custam caro e significam o desperdício de milhões de reais e cadernos de provas. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), maior teste educacional aplicado no Brasil, teve 4,6 milhões de estudantes inscritos, mas registrou 26,66% de ausentes no primeiro dia de exame (1,229 milhão) e 29,19% no segundo dia (1,346 milhão).

Com isso 2,575 milhões de provas do Enem não foram utilizadas por candidatos ausentes. Sendo que o governo pagou R$ 31,771 milhões para a gráfica RR Donnelly Moore imprimir os cadernos dos dois dias de exame, cada prova custou R$ 3,44. As abstenções causaram um desperdício de R$ 8,8 milhões.

O problema também atinge as universidades que aplicam vestibulares. Em São Paulo, as três grandes públicas, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) registraram 21.411 faltosos. “O problema das abstenções é complicado, porque não podemos prevê-lo. É uma variável difícil de controlar”, afirma Renato Pedrosa, coordenador executivo do vestibular da Unicamp.

Amana Salles/Foto Arena
Estudantes prestam prova da Fuvest 2011 na USP
Segundo Pedrosa, a impressão das provas é a parte “mais barata” de um vestibular. A aplicação e a correção são as etapas mais custosas e não há como adequá-las ao número real de participantes. “As abstenções não impactam o número de profissionais contratados, nem a infraestrutura que usamos. Poderíamos ter uma sala a menos em cada unidade, mas isso não mudaria o número de fiscais, nem o tamanho da banca corretora”, aponta Pedrosa.

De acordo com as coordenações dos vestibulares das instituições paulistas os custos são bancados pelas taxas de inscrição, R$ 100, na Fuvest, que aplica o vestibular da USP, R$ 110, na Unesp, e R$ 120, na Unicamp. São essas receitas que cobrem também as isenções e reduções concedidas a estudantes de baixa renda.

Os balanços dos gastos com vestibular das instituições serão divulgados somente no ano que vem. Em conta aproximada, Pedrosa afirma que a impressão dos cadernos de prova da primeira fase da Unicamp custa cerca de R$ 2 por candidato. Se este valor fosse aplicado aos vestibulares das três públicas paulistas, o desperdício com as provas dos ausentes chegaria a R$ 42.822.

UFRJ

Se a conta fosse aplicada ao vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que registrou alto índice de abstenção no vestibular deste ano, o desperdício só com as provas chegaria a R$ 147 mil. A UFRJ teve 33.538 ausentes (36,45%) no primeiro dia de prova e 40.041 ( 43,52% ) no segundo dia . O número é ainda inferior ao registrado no último concurso, quando 38.860 candidatos (41,79% do total de 73.845 inscritos) faltaram ao exame, segundo a universidade.

A universidade aplica um vestibular gratuito e não revela o investimento feito no processo seletivo. “Esse índice de abstenção estava previsto não foi muito surpresa”, afirma a pró-reitora de graduação, Belkis Valdman. A professora ressalta que a gratuidade do vestibular não está sendo discutida neste momento e que a decisão de mantê-la ou não compete ao Conselho universitário.

Belkis destaca que o levantamento dos gastos do vestibular da UFRJ só será feito no começo do ano que vem e descarta a comparação com os valores gastos pela Unicamp. “Os custos variam muito entre os Estados e não dá para comparar”, ressalta.

Isentos

A Unicamp faz um trabalho de conscientização dos alunos que recebem isenção da taxa de matrícula. Os candidatos recebem um e-mail da instituição antes da prova lembrando a importância de compareceram e quem falta perde o benefício no ano que vem, como punição. Mesmo assim, a abstenção é maior entre os favorecidos com isenção ou redução da taxa. “O índice chega a 10% entre os isentos, acima do 6,86% do total geral”, aponta o coordenador do vestibular Unicamp.

A Fuvest, que aplica o maior vestibular do Brasil , teve 65 mil isenções totais ou parciais da taxa de inscrição, entre os 132 mil candidatos. De acordo com a coordenação da Fuvest, o pagamento da taxa de inscrição neste ano gerou uma receita acima de R$ 1 milhão, montante suficiente para custear as isenções, o vestibular e ainda a manutenção da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest).

A abstenção do vestibular da Unesp tem caído após a aplicação da redução da taxa de inscrição para todos os estudantes da rede pública de ensino. Em 2008, o índice era de 21,3% e a Unesp concedia duas isenções por sala de aula do 3º ano do ensino médio de escolas públicas. No ano seguinte, quando a universidade ampliou a redução de 75% para todos da rede pública a taxa de faltosos caiu para 13,8% e em 2010 chegou a 6,6%.

Números do Enem
Inscritos: 4.611.441
Abstenção: 26,66% no primeiro dia (1.229.410) e 29,19% no segundo dia (1.346.079)
Provas não utilizadas: 2.575.489
Custo de impressão das provas por candidato: R$ 6,88 (R$ 3,44 cada prova)
Total gasto com a gráfica: R$ 31.726.748
Total geral gasto por candidato (impressão, aplicação, transporte, segurança e correção): R$ 39,66
Total desperdiçado em impressão com provas não utilizadas: R$ 8.859.682
Fonte: Inep/MEC

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