Novas regras de correção dos textos do Enem não evitam ações judiciais

Por Priscilla Borges - iG Brasília |

compartilhe

Tamanho do texto

Estudante de SP descontente com nota da redação usa avaliações de professores de cursinho em processo para reverter média obtida

As mudanças feitas nos critérios de correção das redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para evitar discrepâncias de notas e ações judiciais contra as avaliações não eliminaram as polêmicas relacionadas à prova. Depois da divulgação das notas das provas no dia 30 de dezembro, estudantes indignados com as médias recebidas criticaram a correção e têm procurado a Justiça para tentar reverter a pontuação obtida no exame.

O estudante Rafael*, de 18 anos, é um deles. Candidato a uma vaga no curso de Medicina, bastante disputado em todas as instituições que o oferecem, o jovem paulista passou o ano de 2012 dedicado aos estudos. Fez cursinho e treinou bastante a redação. Porém, para sua surpresa, a nota que recebeu ficou bastante abaixo do que esperava. A pontuação inviabiliza que ele se candidate a qualquer instituição que utiliza as notas do Enem como seleção.

Outros casos: Mais três alunos conseguem na Justiça acesso à correção do Enem

“Fiquei perplexo com a minha nota. Meu desempenho nas outras provas do Enem até melhorou este ano, mesmo eu achando as questões mais difíceis. Tirei apenas 540 pontos na redação e minha média nas outras foi de 726 pontos”, conta. Depois de conversar com alguns professores e mostrar o texto que havia feito, ele decidiu pedir à Justiça uma revisão de notas.

Dúvidas e críticas

A primeira providência tomada por ele foi solicitar – também por meio judicial – ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) o espelho de correção dos textos, ao qual o iG teve acesso. No ano passado, o órgão assumiu o compromisso dar a todos os candidatos acesso a esses espelhos “em caráter pedagógico”. No entanto, só a partir de fevereiro os documentos estarão disponíveis.

O Ministério da Educação mudou as regras de correção no ano passado. O objetivo era evitar que ocorressem esses questionamentos. Cada redação é lida por dois corretores. Se houver uma diferença de pontuação dada por eles maior que 200 pontos (antes era de 300), outro corretor é acionado para avaliar o texto. A média da redação é calculada a partir das duas notas mais próximas.

Entenda o sistema de correção da redação do Enem 2012

O espelho do texto de Rafael mostrou que o primeiro avaliador lhe deu 840 pontos. O segundo, 560. O terceiro corretor, então, deu 520 pontos para a redação. A média ficou em 540. “Mas os professores do meu cursinho disseram que seria acima de 700 pontos. Eu acredito que a redação é subjetiva, mas os corretores precisam ter uma ideia comum do que é uma boa redação, já que foram treinados da mesma maneira”, avalia.

Reprodução
Espelho de estudante mostra discrepância de avaliação entre corretores da redação do Enem: novas regras não evitaram ações judiciais

Discrepâncias

Para abrir o processo judicial, Rafael pediu diferentes laudos a professores experientes em correções de redação. Maurício Araújo, professor que trabalha em diferentes preparatórios para o Enem em São Paulo, estima que a nota do estudante, de acordo com o manual de correção divulgado pelo Inep, ficaria em 760 pontos.

Divergência: Uma em cada cinco redações do Enem passou por terceira correção

Para ele, o texto foi escrito de acordo com a norma culta da língua, possui “desvios gramaticais leves”, demonstra conhecimento do tema pelo candidato e a apresentação do ponto de vista dele foi clara. No entanto, há problemas na construção do texto, prejudicando sua estrutura.

Opinião semelhante – e nota proposta, 740 pontos – tem a professora Pamella Brandão, do Cursinho Henfil. “O aluno se prejudicou em nota nos quesitos que abordam seleção e organização das ideias e demonstração de conhecimentos para argumentação, mas, em ambos os quesitos, não ocorreram erros discrepantes que afetassem a compreensão e sequência da redação”, garante.

Outro professor consultado pelo iG, Daniel Perez, no entanto, foi mais rígido. “O participante elaborou uma redação com ideias superficiais, não inovadoras e baseadas no senso comum. Sendo assim, sua redação se enquadra na condição de mediana a boa e baseada na matriz de correção por competência deveria ter a nota com a pontuação 640”, afirmou.

Protesto: Grupo no Facebook que critica correções do Enem reúne mais de 30 mil pessoas

A avaliação é bastante diferente da que fez o colunista de educação do iG, Mateus Prado, que daria 920 pontos ao candidato. Para o professor, o estudante demonstrou domínio da norma culta da língua, compreensão do tema proposto, apresentou dados e argumentos consistentes na defesa de seu ponto de vista e teve apenas pequenos erros.

“Sem dúvida, trata-se de uma redação qualificada, que atende as exigências do tema proposto. As críticas possíveis (pouca diversidade de exemplos, corte seco entre exposição dos argumentos e formulação de propostas) não justificam uma nota inferior a 750 pontos”, completou o professor Alexandre Linhares.

O advogado de Rafael protocolou o pedido de recurso administrativo no Inep e vai apresentar nova ação no tribunal na manhã desta terça-feira. O jovem não está muito confiante, mas lamenta o que chama de “injustiça”. “Acho que as novas regras buscam melhorar o processo, mas vai levar tempo para que ele seja aprimorado e fique justo. As regras ainda estão obscuras”, opina.

*O nome do entrevistado foi trocado a pedido dele.

Leia tudo sobre: enem 2012redaçõesinepensino médio

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas