Critérios subjetivos na correção das redações do Enem podem gerar polêmica

Exigência de que os candidatos respeitem os direitos humanos e apresentem uma proposta de intervenção para um problema social devem criar controvérsias, apontam especialistas

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A falta de uma “grade de critérios” e a manutenção de parâmetros subjetivos na avaliação, como a exigência de que o candidato respeite os direitos humanos, fará com que - apesar de o MEC (Ministério da Educação) ter aumentado o número de revisores e publicado um manual detalhado com dicas aos candidatos - a correção das redações do Enem continue sendo alvo de problemas, apontam especialistas.

"Corrigir uma prova aberta é muito difícil. Quando isso envolve milhões de textos, é inviável que o trabalho seja bem executado sem parâmetros objetivos de análise", afirma a consultora em educação Ilona Becskeházy.

Segundo ela, a formulação do Guia do Participante é um avanço, mas não será suficiente para diminuir as discrepâncias de avaliação entre os mais de 4 mil corretores que trabalharão nos 5,7 milhões de textos.

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A especialista afirma que o estabelecimento de parâmetros objetivos na observação do domínio da norma culta seria um avanço. Ilona sugere que os corretores utilizem, na correção, critérios como porcentagem de erros em palavras, ao invés de julgamentos como "excelente", "bom", "adequado", "mediano" e "insuficiente" para avaliar essa competência.

O fato de o MEC ter mantido a cobrança para que o candidato respeite os direitos humanos causará mais polêmicas, afirma Ilona. "O politicamente incorreto é muito subjetivo. O que é inadmissível para um corretor pode ser plenamente aceitável para outro", diz.

Aspectos subjetivos dificultam a correção

Sob a condição de anonimato, uma das corretoras falou ao jornal “O Estado de São Paulo” e concordou com os apontamentos de Ilona. "Há situações bem pontuais e fáceis, como o caso de um texto dizendo que negros e nordestinos devam ser assassinados. Isso sem dúvida desrespeita os direitos humanos. Mas há casos bem sutis e treinamento nenhum consegue uniformizar a percepção do corretor", diz.

Segundo ela, a orientação da banca é para que se dê nota zero a um texto que defenda que o dever das mulheres é cuidar da casa. "Mas eu não invalidaria, porque isso é uma questão cultural que precisa ser repensada na sociedade, não desqualificando a argumentação do candidato."

Leia mais: Entenda o sistema de correção da redação do Enem 2012

O professor da Unesp Rogério Chociay, que foi corretor dos vestibulares da Fundação Vunesp e da UFPR (Universidade Federal do Paraná), também discorda desse parâmetro. "A democracia é o direito à opinião. Minha tarefa é corrigir sua capacidade de se expressar, concorde ou não com seus argumentos."

A exigência de que o candidato apresente uma proposta de intervenção para um problema social, para Chociay, também deve ser repensada. “É exigência demais para um jovem de 18 anos e uma competência que não é cobrada em outros vestibulares. Se o país, em séculos, não conseguiu resolver a questão da violência, como pedir que uma pessoa que soube do tema naquela hora consiga ter uma solução plausível?"

Uma boa ideia para um corretor pode ser ruim para outro. "E daí crescem as chances de um mesmo texto receber nota zero ou mil." As informações são do jornal "O Estado de S.Paulo".

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