Competição agressiva e má administração explicam falência de colégios e concentração no mercado de educação

Essas instituições têm de ser tratadas como empresas que prestam serviços educacionais, mas sem esquecer a lógica de liquidez, da lucratividade”

Os excelentes resultados obtidos pelos colégios particulares de Fortaleza em olimpíadas de ciências exatas e os altos índices de aprovação em vestibulares difíceis, como o do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um dos mais concorridos do País, impressionam. Os números colocam o ensino privado da capital cearense entre os melhores do País. O talento para aprovar, contudo, é bem menor do que o talento para administrar.

Nos últimos dez anos, 2262 escolas de ensino básico foram à falência em todo Estado - uma média de mais de 200 por ano. Em Fortaleza está a maior parte desses estabelecimentos: 1318. Essas empresas sucumbiram diante da concorrência acirrada, do alto índice de inadimplência e da carga tributária pesada, mas, principalmente, pela falta de habilidade para gerir seus negócios.

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Colégio Capital: foi comprado pelo Evolutivo. Essa sede fechou
Daniel Aderaldo/iG
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Bom educador, mau gestor

Para o professor do departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), Wagner Bandeira Andriola, esse cenário do mercado educacional cearense revela a falta de profissionalismo na gestão das escolas. Ele explica que as instituições de ensino são abertas por educadores que não possuem a visão do administrador. “Essas instituições têm de ser tratadas como empresas que prestam serviços educacionais, mas sem esquecer a lógica de liquidez, da lucratividade”, assinala o pesquisador.

Somado à deficiência no gerenciamento dos negócios está o alto índice de inadimplência que fragiliza ainda mais as finanças dessas escolas que, em grande parte, têm faturamento anual de R$ 360 mil. Em 2010, o índice de inadimplência entre as escolas particulares de Fortaleza foi de 15%.

“Não esqueçamos que estamos em um Estado periférico, pobre. As pessoas que procuram a educação privada nem sempre pertencem à classe média. Ao contrário, em boa parte são ligadas às camadas mais frágeis e têm sérias dificuldades de honrar os compromissos financeiros”, pondera Andriola.

Concorrência

De acordo com o Censo Escolar de 2010 realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Ceará tem 2,4 milhões de alunos matriculados no ensino básico. Apenas 412 mil deles estão na rede privada. Em um Estado pobre, o crescimento do número de instituições particulares acabou esgotando o mercado, já que a oferta de vagas não encontrou demanda.

Colégio Evolutivo: chegou a ter sete sedes e 22 mil alunos. Hoje só tem esse prédio no centro e também corre risco de fechar
Daniel Aderaldo/iG
Colégio Evolutivo: chegou a ter sete sedes e 22 mil alunos. Hoje só tem esse prédio no centro e também corre risco de fechar
Para resolver o problema, o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará (Sinepe-CE), professor Airton Oliveira, defende uma versão do Pró-Uni para o ensino básico, que ele chama de “Pró-Básico”. “O governo federal poderia criar um programa para que as pessoas de menor poder aquisitivo tenham a opção de colocar seus filhos em escolas particulares, já que a pública ainda não funciona como deveria”, afirma.

A redução dos impostos seria outra iniciativa para tirar as micros e pequenas escolas do vermelho. “Essas são as que pagam mais impostos. Não deveria haver imposto sobre capital para acertar salários com professores e funcionários, muito menos para investir em estrutura”, avalia.

Oliveira é proprietário do Colégio 21 de Abril. A escola tem dois prédios localizados no bairro São Gerardo, área central e residencial de Fortaleza. A instituição tem cerca de 800 alunos e consegue se manter bem. O desafio, segundo o professor e empresário, está em ter capital para investir nos “apelos do mercado” criados pela concorrência. Ele está introduzindo tablets no material didático oferecido pela escola.

Segundo dados do Sinepe-CE, atualmente existem 1500 escolas particulares de ensino básico em Fortaleza e 800 no interior. Micro e pequenas empresas correspondem a 95% desse total. Apenas 5% são consideras empresas de porte médio. As maiores têm entre cinco e seis mil alunos e cobram mensalidade de até R$ 1 mil.

Falências

Marista Cearense: o colégio fechou e deu espaço para a faculdade, bem sucedida
Daniel Aderaldo/iG
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Entre elas está o Colégio Christus , pivô da crise do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2011. Com 60 anos, dez sedes e faculdade própria, o grupo educacional é um dos poucos exemplos em Fortaleza que consegue aliar desempenho educacional e gestão de sucesso. Ao lado dos colégios 7 de Setembro, Farias Brito, Ari de Sá, Antares e Espaço Aberto, essas instituições formam o seleto grupo dos grandes e bem sucedidos.

Esse grupo já foi maior. O Colégio Marista Cearense era a principal referência do ensino particular no Estado, chegando a ter 4.500 alunos em sua única sede localizada no centro da cidade. Contudo, 2007 marcou o último ano de atuação. Antes de fechar, a instituição tinha 549 matriculados e 150 funcionários – o que fazia as vozes dos alunos e professores ecoarem pela imensidão vazia do imponente prédio da escola. No prédio, hoje funciona a Faculdade Católica Marista.

O Geo Studio foi outro grande que tombou quando as contas não fechavam mais nas planilhas de custo. A escola teve sedes por todo o interior do Ceará, várias espalhadas por Fortaleza e até fora do País para brasileiros que viviam no exterior. O grupo educacional chegou a pertencer ao atual presidente da Transpetro, Sérgio Machado . A marca incorporou escolas menores e construiu uma gigante e moderna sede para os padrões do início dos anos 2000. Hoje a estrutura pertence a uma das faculdades particulares de mais destaque do Ceará.

Porém, o fenômeno que levou essas duas a falir fez muito mais vítimas entre as pequenas, incluindo tradicionais escolas da região central da capital cearense, como os colégios Capital e Rui Barbosa. O Capital chegou a ser incorporado pelo Evolutivo, que no início dos anos 2000 balançou o mercado educacional fortalezense com uma política agressiva de abatimentos nas mensalidades e adoção de material didático de produção própria. Outras instituições consolidadas na periferia da cidade como o Colégio Tony se renderam com a expansão do Evolutivo. A escola chegou a ter 22 mil alunos em seis unidades, mas hoje mal consegue manter a sua primeira sede, localizada no centro.

Escolas de ordens religiosas como Santa Maria Goretti, Patronato Nossa Senhora Auxiliadora e São Rafael começaram a trabalhar no prejuízo a partir do final da década de 1990 e precisaram se fundir para evitar o mesmo destino. Prevaleceu a marca São Rafael, antes apenas para garotas. Atualmente, a instituição tem 650 alunos.

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