Eles ainda são minoria

Na escola, na universidade ou nos cargos disputados do mercado de trabalho, os negros aparecem pouco nas estatísticas

Priscilla Borges, iG Brasília |

João Batista de Sousa, 57 anos, é quase uma exceção. Ao longo da vida, atingiu lugares inimagináveis pela sua família e pela sociedade onde vivia. Negro, pobre, filho de uma dona de casa e um agricultor, decidiu estudar e mudar a trajetória a que muitos à sua volta o condenavam: seguir os passos do pai.

O mineiro da cidade de Uberaba se tornou um cirurgião especialista em coloproctologia (câncer intestinal), e, hoje, acumula ainda as funções de professor e vice-reitor da Universidade de Brasília (UnB). Sempre bem-humorado, João Batista diz que costuma “não dar ouvidos ao preconceito”, que, segundo ele, o "acompanhou sempre".

Os pais de João não estudaram. O pai frequentou uma escola durante 60 dias apenas. A mãe só foi alfabetizada depois dos 40 anos. Apesar isso, eles incentivaram os filhos a seguir caminhos diferentes. Eles entraram no colégio aos 7 anos. Quem fazia corpo mole ganhava um castigo inusitado: um choque de realidade.

Marcos Brandão/OBrittoNews
João Batista de Sousa resolveu ser médico depois de um acidente

Para assustar os que não queriam saber de livros, o pai de João os colocava para trabalhar pesado na fazenda, ao lado dos peões. Assim, achava que faria os filhos entenderem que era preciso buscar um futuro melhor. A tática não funcionou com todos. Mas com o vice-reitor da UnB deu certo.

Sempre com boas notas, João teve momentos de dúvida. Chegou a largar a escola por alguns anos. Um acidente de cavalo, no qual quebrou o tornozelo, fez com que mudasse de ideia e começasse a sonhar com o curso mais disputado e cobiçado da cidade. Os cuidados dos médicos o encantaram. Na vizinhança, riam da vontade do menino.

Era impensável que um jovem negro e de família de baixa renda pensasse em dividir um espaço tão privilegiado e tão elitizado quanto um curso de medicina. O ensino superior como um todo ainda é um desafio para a população negra.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2008 mostram que, na faixa etária considerada ideal para cursar o ensino superior (entre 18 e 24 anos), 20,5% dos brancos concluíram a graduação, enquanto apenas 7,7% dos negros chegaram lá. Quando se analisa toda a população com mais de 25 anos que conseguiu um diploma de ensino superior, a situação se repete: 14,7% de brancos contra 4,7% de negros alcançaram o feito.

Quando entrou na faculdade, a Federal do Triângulo Mineiro, era possível contar nos dedos quantos negros haviam conseguido o mesmo feito. Eram cinco na época, diz João. Dentro da instituição, situações de preconceito aconteciam constantemente.

Certa vez, um colega médico disse que a faculdade não prestava porque admitia negros. Depois emendou que o esforço do vice-reitor de nada adiantaria: “Ele disse que eu morreria pobre porque pobreza atrai pobreza”.

João teve dois casamentos ao longo da vida, as duas mulheres eram brancas. “O meio em que eu vivia era branco”, admite.

Influência das cotas

O vice-reitor da UnB acredita que os programas de ações afirmativas têm mudado os caminhos da juventude negra. Defende as cotas da instituição que trabalha, mas aposta que será preciso tomar medidas mais radicais para mudar a realidade dos negros no País. “Precisamos de políticas na educação básica que coloquem todos nas mesmas condições de competição”, diz.

Talvez por influência das cotas – que não são obrigatórias, mas já foram adotadas em 91 instituições de educação superior no País – a quantidade de jovens que freqüenta a universidade aumentou nos últimos anos, mas está longe de ser igualitária.

Em 1998, apenas 7,1% da população preta ou parda do País frequentava o ensino superior, enquanto 31,8% dos estudantes brancos estavam nessa fase. Dez anos depois, a taxa de negros na universidade saltou para 28,7%, quatro vezes mais. Entre os estudantes brancos, o crescimento foi menor: 60% deles estudam em algum curso de graduação.

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