Edward Madureira Brasil fala ao iG

Novo presidente da associação dos dirigentes das universidades federais assume posto com missão de tornar Reuni política de Estado

Priscilla Borges, iG Brasília |

Divulgação
Edward Madureira Brasil, presidente da Andifes
De formação, Edward Madureira Brasil é engenheiro agrônomo. A trajetória profissional construída em empresas privadas, no entanto, terminou na universidade. Por vocação, Edward se tornou professor. À frente da Universidade Federal de Goiás (UFG) desde 2006, o reitor será agora o novo presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes).

Em um ano, Edward pretende atingir metas que são antigas demandas dos reitores federais. A primeira é consolidar a autonomia universitária. Conceito difícil de ser compreendido, mas garantido em constituição, ainda não é uma realidade. No próximo mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve assinar um decreto que regulamenta o que as universidades podem ou não fazer.

Além disso, o novo presidente da Andifes pretende finalizar uma proposta de solução definitiva para os hospitais universitários. Eles vivem uma crise financeira, de pessoal e de investimentos que se estende há anos. A última meta, no entanto, talvez seja a mais ambiciosa: tornar o Reuni, programa que garantiu recursos para a expansão federal, uma política de Estado e que não termine ao final do governo Lula.
A seguir, entrevista concedida por Edward Madureira ao iG .

Como se sente à frente da Andifes em um momento tão particular para as universidades, que estão em expansão e próxima a uma troca de governo?
Minha universidade me terá mais ausente nos próximos meses, mas será por uma boa razão, que são os interesses coletivos das instituições. É isso, inclusive, que pautará minhas ações. Entre as razões que me motivaram a disputar as eleições para a presidência da Andifes é a minha crença no sistema federal. Acho que a qualificação do nosso corpo docente, a qualidade dos nossos estudantes e a capilaridade que o sistema ganhou com a expansão podem contribuir muito para o desenvolvimento do País.

Quais são suas metas à frente da entidade?
Acho que precisamos insistir na defesa da autonomia universitária, solucionar os problemas dos hospitais universitários e continuar a expansão. Precisamos trabalhar para que o sistema tenha mais coesão. Já temos um programa de mobilidade, que é importante, mas precisamos fortalecê-lo. Temos um potencial grande para criarmos uma rede de conhecimento, com projetos colaborativos entre as instituições. Temos um grande diferencial no sistema federal, que é a presença em todo o território. Precisamos aproveitar isso. Acho que precisamos aproximar as propostas pedagógicas das universidades também.

É possível fazer isso sem ferir a autonomia universitária?
É sim. O que sugiro é fazermos um trabalho em rede, colaborativo. A Universidade Federal do Paraná, por exemplo, está desenvolvendo uma ferramenta para que as universidades possam trocar conteúdos de diferentes mídias, como rádio e TV. As instituições possuem esses canais de comunicação, mas têm dificuldade em produzir algo. Então poderíamos aproveitar esforços. O importante é criarmos essa cultura de troca. Essa coesão pode ser feita a partir da Andifes.

A consolidação da autonomia universitária é, ano a ano, colocada entre as prioridades das universidades federais. O que ainda falta para que ela se torne realidade?
A autonomia é um valor difícil de ser compreendido. Precisamos poder repor professores quando eles morrem ou se aposentam, ter a liberdade de utilizar o que sobrou de recursos previstos para um ano no seguinte. Isso ainda não foi compreendido pelos órgãos de controle. Por isso, trabalhamos na elaboração de um decreto que regulamente essas questões. Depois de um ano, garantimos no documento a reposição dos quadros de pessoal (professor e técnico), o aproveitamento de crédito orçamentário, remanejamento de recursos, a relação com as fundações de apoio. O presidente Lula deve assinar esse documento no dia 19 de julho.

O senhor falou também que é preciso continuar a expansão das universidades. Como a Andifes pretende trabalhar nesse sentido? As obras do Reuni ainda não foram concluídas e há muitas instituições que começaram as atividades sem as condições ideais de infraestrutura.
Queremos acertar com esse governo as adequações que consideramos necessárias no Reuni. Como tivemos pouco prazo para apresentar os projetos e nos candidatar às verbas, há pontos que deixaram a desejar. Precisamos acertar, por exemplo, estimativas de quantidade de professores para os cursos, recursos necessários para a criação de graduações. Queremos resolver essas pendências para batalharmos a continuidade do programa. O Brasil ainda tem uma meta de inclusão no ensino superior longe de ser atingida. No Plano Nacional de Educação, havia o objetivo de incluir na universidade 30% da população de 18 a 24 anos. Não chegamos a 15%. Mantendo a proporção de hoje, teríamos de dobrar o sistema para atender esses jovens. Então, ainda há muito a ser ampliado. Precisamos também, para que a expansão dê certo, criar incentivos para manter os professores e os doutores nos campi que estão no interior, para consolidá-los. Queremos que a expansão se torne uma política de Estado, que não seja interrompida. Vamos apresentar demandas aos candidatos às eleições.

Os hospitais universitários sofrem há anos com a falta de recursos, uma divisão entre o trabalho de assistência - vinculado ao Sistema Único de Saúde e ao de ensino -, têm dívidas e sofrem com a falta de pessoal. Também uma pendência antiga a ser resolvida?
É verdade, esse é um problema antigo. Mas, nos últimos anos, avançamos com um levantamento completo sobre a situação dos hospitais. Hoje, temos um diagnóstico da situação deles e do que precisam. Lula também assumiu um compromisso, no ano passado, para resolver o problema deles. Avançamos, mas ainda não o suficiente. Há cerca de 20 mil funcionários terceirizados nesses hospitais, que não podem ser dispensados. Precisamos implementar o decreto do plano de reestruturação dos hospitais para solucionar esses problemas. Ele prevê uma divisão das despesas entre os Ministérios da Educação e da Saúde.

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