Educação Jovens e Adultos precisa de estrutura e material diferenciado

Apostilas antigas e livros infantilizados fazem parte do cotidiano de estudantes da modalidade que acelera a aprendizagem. Especialistas afirmam que carência de métodos e materiais próprios desestimula alunos

Priscilla Borges, iG Brasília |

Livros antigos nas estantes das bibliotecas, nenhum computador disponível para consulta, professores que se dividem entre compreender o universo adulto dos estudantes ou achar que os alunos à sua frente nada sabem. Essa é a triste realidade das escolas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A modalidade que pretende ajudar as pessoas que perderam muito tempo longe da escola ainda enfrenta enormes desafios.

Há dois públicos bastante distintos que devem ser objeto de trabalho dos professores e merecem orientação especial na EJA. A maioria é de adultos que demoraram a ser alfabetizados e frequentar escolas. Dos 4,9 milhões de estudantes matriculados na modalidade, de acordo com o Censo Escolar 2008, 905.417 tinham mais de 39 anos de idade. E cerca de 742 mil, menos de 17 anos.

É no limite entre juventude e mundo adulto que os professores desse público atuam. Eles precisam, mesmo sem a formação adequada, dar conta de atender a necessidades tão distintas dos dois grupos. Não controlamos, nessa fase, a presença dos alunos em sala de aula. Nem temos funcionários na escola em número suficiente para ficar pedindo para os estudantes assistirem às aulas. Muitos adolescentes acabam ficando na porta da escola, bebendo, fumando, se drogando. E nós não podemos fazer nada, além de chamar a polícia, lamenta Vicente de Sousa, vice-diretor do Centro de Educação de Jovens e Adultos da Asa Sul (Cesas), colégio do Distrito Federal.

Vicente diz que, quando os professores conseguem convencer esses jovens a entrar em sala de aula, eles acabam atrapalhando a aprendizagem dos colegas. Claro que há exceções, mas ele garante que grande parte dos estudantes se comporta dessa maneira. Nosso desafio é adaptar nossa escola para esse adolescente. Temos de resgatar as pessoas que estavam fora do sistema escolar e mostrar que elas podem chegar ao ensino superior, defende o vice-diretor do Cesas.

Um dos grandes problemas enfrentados pelos gestores e professores dessa modalidade de ensino é combater a evasão. Hoje, há quase 5 milhões de matriculados na EJA, mas, segundo o diretor de Políticas de EJA da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), Jorge Teles, outros 62 milhões de brasileiros poderiam voltar à escola pelas matrículas na educação de jovens e adultos.

Jorge reconhece que é preciso tornar as escolas mais atrativas, mas aponta outra dificuldade enfrentada pelos estudantes: a oferta não é uniforme. Há muitos municípios que só oferecem o primeiro segmento do ensino fundamental. Nesses casos, o aluno que quer continuar os estudos precisa se deslocar em longas distâncias. Acaba desistindo. Em outras cidades, a oferta é feita em poucos colégios e, muitas vezes, em um único turno. Hoje, 90% das vagas são noturnas. Mas o perfil da população mudou, diz.

No Cesas, que possui estudantes matriculados nos três turnos, é comum encontrar pessoas que tiveram de parar com os estudos muito tempo porque não podiam estudar à noite. São vigilantes, trabalhadores de shoppings, gente que começa a trabalhar em horários não convencionais. João da Cruz, 41, está concluindo o ensino médio. Só pôde voltar à escola porque há aulas pela manhã.

Só encontrava turmas à noite, e eu trabalho. Gosto muito daqui. Cheguei aqui na 5ª série do ensino fundamental. Senti que precisava aprender para melhorar no meu trabalho, conta. Iracilde Rocha Cruz, 40, retornou ao colégio por causa do filho. Ele é deficiente auditivo. Ela pretende fazer curso superior em Libras. Os professores da escola dele me incentivaram, conta.

George Obied, 18, Suzany Rodrigues, 17, e Mitsue Brito, 24, estavam muito atrasados no ensino regular. Passaram anos longe da escola, mas perceberam que precisavam estudar para ter um futuro melhor. E ainda é insuficiente, admite George. Os três contam que há muitos colegas novos demais na sala de aula. Para eles, os adolescentes não têm maturidade para lidar com a EJA. Além de atrapalhar a aula, eles ainda tomam a vaga de alguém que quer mesmo estudar, reclama Mitsue.

Mudanças na estrutura

Entre alunos, professores e gestores ligados à modalidade há consenso de que é preciso provocar rupturas com a realidade atual. Alguns passos importantes foram dados. Os estudantes da EJA ganharam alimentação escolar. Agora, receberão livros didáticos. Isso significa assegurar o direito à educação. Temos de garantir o atendimento adequado a todas as faixas etárias, afirma Jorge. 

Edilson Rodrigues, gerente de EJA do Distrito Federal, conta que a Secretaria de Educação do DF criou materiais didáticos próprios para a fase. A modalidade tem mais de 50 mil alunos matriculados no DF. Mas o público potencial é de 700 mil cidadãos. Além disso, o governo local está investindo em formação de professores e promoção e prevenção de saúde dos estudantes de EJA.

Para Edilson, o antigo supletivo tem uma função equalizadora. Não é promover celeridade de estudos, isso acaba provocando um desvirtuamento da modalidade de ensino. Qualquer um precisa ser bem recebido na rede, não importe gênero, raça. Na EJA, temos a educação da diversidade, afirma.

No Cesas, por exemplo, as turmas são divididas por trabalhadores, pais e mães de família, ex-presidiários, portadores de necessidades especiais. É um público muito variado, destaca o vice-diretor da escola. Tentamos tornar nossa escola a mais agradável possível e atender todo muito bem. Para nós, como educadores, o importante é conseguirmos garantir a eles o direito de aprender.

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