É de pequeno que se aprende a encher o cofrinho

Pais e escolas têm percebido a importância da educação financeira na infância; projeto de lei que a torna obrigatória está parado

AE |

Raul, de 8 anos, embarcou a passeio para os Estados Unidos na semana passada levando US$ 200 que ele mesmo juntou, economizando sua mesada. "Deixei de comprar brinquedos e outras coisas e guardei para usar na viagem", conta o garoto, orgulhoso.

Ele é uma das poucas crianças brasileiras que têm, na escola, aulas de educação financeira, e, segundo sua mãe, Mirza de Luca, começa a mostrar os resultados do estudo na vida prática de casa.

"Ele tem aulas desde os seis anos, e já pondera o que vale a pena comprar ou não e já entende que o dinheiro acaba", diz ela. E ele não deixa por menos: "Minha mãe gastava muito no supermercado. Agora eu vou com ela e falo para comprar só o que precisa".

A educação financeira não é disciplina obrigatória nas escolas brasileiras. Projeto de lei que prevê sua inclusão está parado no Congresso desde 2004. Apesar de ainda pouco difundida, pais e escolas vêm percebendo sua importância. Mas, dizem especialistas, não adianta deixar só nas mãos da escola: o exemplo vem de casa.

Para educadores financeiros, o ensino da matéria no Brasil está atrasado em relação a outros países, o que resulta em investidores e pais despreparados. "Há crianças que recebem mesada e não têm noção do que fazer com ela", conta Silvia Alembert, coordenadora do instituto dedicado à educação financeira The Money Camp.

A falta de parâmetros em casa é o que pode levar crianças ao consumismo. "Ele começa no fim da adolescência, perto dos 18 anos, quando a pessoa começa a ter livre escolha, e é mais comum entre filhos de adultos consumistas", afirma a psicóloga e coordenadora do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Hospital das Clínicas, Tatiana Filomenski.

Para o presidente do Instituto Disop de educação financeira, Reinaldo Domingos, educação financeira não se trata de apresentar termos do vocabulário econômico e ensinar a criança a calcular. "É uma busca por bons hábitos e costumes", afirma. "Para isso é preciso que os educadores e pais estejam preparados para mostrar essas relações."

O educador e autor de livros didáticos Alvaro Modernell recomenda o início das lições aos cinco ou seis anos. Nos primeiros anos, os conceitos devem ser percebidos pela criança em seu próprio universo. "Ela deve ter noção de que dinheiro acaba, e que é preciso ter antes de gastar", afirma.

Depois dos dez anos, a criança deve ser instruída sobre a tomada de decisões, a distinguir o supérfluo do necessário, e a perceber as diferenças sociais, sempre priorizando a prática. "É hora de entender por que um colega tem um item e o outro não", diz Tatiana.

Algumas escolas escolhem abordar o assunto em diferentes disciplinas, como língua portuguesa, geografia e matemática. Segundo Modernell, não é preciso grandes alterações no método. "Trocar 'Patinho Feio' pela fábula da 'Cigarra e a Formiga', por exemplo, dá espaço para discutir a importância do trabalho", sugere. Já outras preferem incluir a matéria como disciplina complementar, e adotam métodos como o The Money Camp ou o Disop, que também capacitam pais e professores por meio de palestras e oficinas. Sobre nova matéria, o jovem Raul garante: "Eu gosto e todo mundo gosta."

Levar ou não as crianças às compras?

Uma dúvida constante na "carreira" de pai é: levar ou não as crianças às compras? Segundo o educador Alvaro Modernell, as compras podem ser um bom momento para aprimorar a educação financeira. "Pode levar as crianças, mas com pulso firme", diz ele. "Nessa hora os pais podem mostrar o que é supérfluo e o que é necessário, ensinar a comparar preços e mostrar que o dinheiro pode não ser suficiente para comprar duas coisas, então ela deve escolher uma", diz ele.

Outra medida simples e eficiente é estabelecer valores como recompensa pelo cumprimento de tarefas, em vez de mesada, remunerando atividades como arrumar a cama, o quarto, lavar louça e cuidar do cachorro. "Assim, a criança começa a perceber o valor do trabalho", afirma a psicóloga e coordenadora do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Hospital das Clínicas, Tatiana Filomenski. Para desenvolver o hábito de poupar, educadores recomendam o bom e velho "porquinho" para guardar moedas.

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