Romance tido por décadas como uma história de traição desperta dúvidas no leitor até os dias de hoje

Um homem que acredita ter sido traído pela esposa com o melhor amigo relembra o caso e faz um ajuste de contas com o passado. “Dom Casmurro”, romance de Machado de Assis publicado em 1899, contém enigmas que ainda ecoam. “Como não é um livro transparente, contribui para o interesse do leitor e permanece sendo lido até os dias de hoje”, afirma Luís Augusto Fischer, crítico literário, escritor e estudioso da obra de Machado.

Por décadas, o livro foi visto como uma história de traição. Somente 60 anos depois surgiu a dúvida se de fato Capitu teria traído Bentinho, narrador que conta a história em primeira pessoa. “Betinho faz a denúncia e o julgamento. Ele é advogado – imagem que devemos olhar com certa prudência – e o que sabemos de Capitu é o que ele diz. Como ele é um sujeito simpático, o leitor tende a acreditar em sua versão”, analisa Fischer, doutor em Letras e também professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros
ABL/Divulgação
Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros
Considerado um dos melhores livros da literatura brasileira, “Dom Casmurro” é uma espécie de marco na obra do escritor brasileiro. “Representa a maturidade do Machado de Assis, o ponto de chegada do melhor escritor brasileiro”, diz Fischer.

Para o leitor que está começando a se aventurar na obra machadiana há duas coisas que precisam ser observadas: o enredo – as coisas que acontecem na história, as peripécias – e o narrador. Segundo Fischer, nas obras de Machado é absolutamente imprescindível prestar atenção em quem está falando, porque o narrador nunca é completamente inocente. “Machado não pratica um realismo simples.”

Ciúmes

Apesar de o ciúme ser o assunto que Bentinho coloca em primeiro plano, é preciso prestar atenção também no que ele não diz. “Se o leitor tiver cautela, perceberá que o sujeito tem outras questões”, alerta o professor da UFRGS. Bentinho é um homem que recebeu uma herança bastante razoável de sua família, enquanto Capitu é uma menina de classe média baixa. “O tema da ascensão social aparece e desaparece no romance. Bentinho olha para Capitu com um pouco de preconceito de classe.”

Também é importante estar atendo aos personagens coadjuvantes. “São figuras impressionantes, como José Dias, o agregado. Vive na casa sem função clássica, uma espécie de faz tudo que ao mesmo tempo não é nada”, destaca Fischer. A posição social e o mundo do Segundo Reinado do Império são elementos muito importantes na obra.

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