Discurso de Demóstenes Torres causa polêmica em audiência sobre cotas no STF

O primeiro dia da audiência pública organizada pelo Supremo Tribunal Federal para discutir as cotas raciais no ensino superior transcorreu sem falas acalouradas, discussões e manifestações de apoio ou repreensão a qualquer ponto de vista sobre o tema. Pelo menos no auditório onde ocorreram as explanações dos especialistas convidados a falar sobre o tema. Quem assistia às apresentações no local não podia se manifestar.

Priscilla Borges, iG Brasília |

Situação bastante diferente da vivida em outro andar, onde qualquer interessado no assunto podia assistir por um telão aos discursos dos 13 palestrantes do dia. No local, militantes de diferentes movimentos (mais a favor das cotas do que contra) acompanharam toda a sessão. Aplausos e vaias ¿ que não foram ouvidas pelos especialistas ¿ foram distribuídos pelos ouvintes.

O último discurso do dia não estava previsto na programação do evento. E foi o mais polêmico. O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) chegou quase no fim da audiência e ganhou o direito de falar sem tempo determinado, como ocorreu com os outros palestrantes. O ministro responsável pela audiência, Ricardo Lewandowski, achou justo que ele tivesse mais tempo para falar diante da quantidade de pessoas que haviam se pronunciado a favor das cotas (nove).

Apenas duas pessoas, os advogados das duas ações (contra a Universidade de Brasília e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul), haviam ido contra as políticas de cotas. Lewandowski fez questão de pedir que o senador usasse o tempo com bom senso.

Demóstenes elogiou a convocação da audiência e defendeu a criação de cotas sociais. Para ele, o grande problema do País é a pobreza. A grande discriminação é em relação ao pobre. Quem frequenta nossa escola pública, independentemente da cor, não aprende, disse.

Alfinetadas

O senador acusou os defensores das cotas de manipular dados estatísticos para favorecer as próprias ideias. O pardo vira negro nos números quando é para criar uma diferença entre brancos e negros. Os mestiços é que são discriminados no País, afirmou. Demóstenes causou revolta em muitas mulheres do movimento negro ao afirmar que há exageros inclusive na história da escravidão. Ele comentou que muitos casos de estupro de mulheres negras por brancos eram relações consensuais.

Para Jacira da Silva, representante do Fórum de Mulheres Negras do Distrito Federal, o discurso do senador foi infeliz e leviano. Mais uma vez, as mulheres negras foram rebaixadas e agredidas como cidadãs, criticou.

Apesar das audiências não serem configuradas como debates, durante os discursos, os palestrantes tentaram rebater argumentos já conhecidos pelos dois lados. José Jorge de Carvalho, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e idealizador do sistema de cotas na universidade, lembrou que a catástrofe acadêmica que se esperava após as cotas não aconteceu.

José Jorge ressaltou ainda que a quantidade de cotistas que ingressaram pelo sistema de cotas no País até hoje ¿ 52 mil estudantes ¿ representam 3,5% dos universitários das instituições públicas do Brasil. O que incomoda é que eles estão acessando o topo do saber universitário, afirmou.

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