Em carta, médicos informam que a decisão é irrevogável e se dá em função da "evidente divergência ideológica" com a universidade

A diretoria do Hospital Universitário da Universidade de Brasília (HUB) entregou nesta segunda ao reitor José Geraldo Júnior um pedido de demissão coletiva por serem contra a Medida Provisória 520, em tramitação na Câmara dos Deputados, que pretende criar a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). A medida propõe um novo modelo de gestão para os hospitais universitários, administrado pelo Ministério da Educação (MEC) e apoiado pela reitoria.

A carta dos médicos informa que a demissão é irrevogável e se dá em função da “evidente divergência de postura ideológica e prática” entre a administração superior da Universidade de Brasília (UnB) e os diretores do hospital em relação à MP. Nesta manhã, alunos e funcionários protestaram contra a medida.

Alunos se juntaram ao sindicato em protesto contra Medida Provisória na manhã desta terça
Agência Brasil
Alunos se juntaram ao sindicato em protesto contra Medida Provisória na manhã desta terça
Desde que a medida foi enviada ao Congresso Nacional, no último dia do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, os sindicatos da categoria se posicionaram contra a mudança. O texto do projeto fala em “apoiar a prestação de serviços médico-hospitalares, laboratoriais e de ensino e pesquisa nos hospitais universitários federais”.

De acordo com o MEC, a criação da Ebserh é uma tentativa de regularizar a situação dos hospitais universitários, cujas contas estão sendo questionadas pelos órgãos de fiscalização e controle. Hoje, boa parte dos funcionários dos hospitais é contratada por meio de fundações de apoio ou por outras modalidades de terceirização, consideradas ilegais. Essa função seria assumida pela Ebserh. Os sindicatos alegam que a MP oficializa a terceirização e a privatização dos serviços oferecidos pelos hospitais universitários.

A carta é assinada pelo diretor-geral do HUB, Gustavo Romero, pela diretora de Serviços Assistenciais, Elza Noronha, pela diretora de Ensino e Pesquisa, Maria Imaculada Junqueira e pela diretora executiva, Laene Gama. A Agência Brasil procurou os diretores do hospital, mas não conseguiu contato até a publicação desta reportagem.

Na manhã desta terça, o vice-reitor da UnB, João Batista de Sousa, assumiu a direção do Hospital Universitário. Ele ficará no posto interinamente até que o reitor escolha o substituto definitivo.

Haddad

O ministro da Educação, Fernando Haddad, classificou de “cortina de fumaça” o pedido de demissão coletiva entregue pela diretoria do hospital universitário. “Eu penso que isso é uma cortina de fumaça para encobrir o que de fato está acontecendo no Hospital de Brasília. Havia problemas graves de entendimento sobre a administração do hospital entre a reitoria e a direção demissionária. Eu não vou aceitar essa cortina de fumaça”, afirmou Haddad, ao participar da aula magna da Academia Brasileira de Ciências.

O ministro defendeu a criação da Ebserh: “Será uma empresa 100% pública, 100% SUS [Sistema Único de Saúde], para auxiliar e profissionalizar a administração dos hospitais.”

Haddad reafirmou que uma das condições para a criação da estatal é que a empresa atenda integralmente os pacientes do SUS, diferentemente da experiência considerada modelo no País, a do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que também recebe clientes particulares e de planos de saúde. “O Hospital de Clínicas, quando foi criado, sequer existia SUS. A Constituição de 1988 estabeleceu o Sistema Único de Saúde e nós, do Ministério da Educação, estamos comprometidos com o aprimoramento do sistema. Tem que ser 100% SUS.”

* Informações da Agência Brasil com edição do iG São Paulo

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