Debatedores temem fim do sistema de avaliações do ensino no País

Inchaço do currículo no ensino básico é sinal de alerta para os novos governantes

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Participantes do debate "A Capacidade do Brasil - O Papel da Educação", promovido pela BBC Brasil e pela rádio CBN, alertaram para o risco de o novo governo abandonar o sistema de avaliações nacionais, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). "A educação no Brasil deve continuar evoluindo, mas corremos o risco de ter um retrocesso com o novo governo no que diz respeito a avaliações baseadas em dados, como aconteceu no início do governo Lula", disse o economista Narcio de Menezes Filho, professor da FEA-USP e do Insper.

"Antes da criação desses exames, pensávamos que nossa educação podia até ser boa, porque não havia dados disponíveis para compará-la a outros países. Ficava todo mundo no vazio." Para Ilona Becskehzy, diretora-executiva da Fundação Lemann, "é de suma importância que a gente tenha sistemas de avaliação para acompanhar as políticas de ensino". Ela teme que esses exames possam facilmente virar alvo de ataques políticos.

Mozart Neves Ramos, da ONG Todos pela Educação, também ressaltou a importância das provas, mas lembrou que essa é uma implementação recente. "Por isso mesmo, ainda não sabemos usar completamente os dados das avaliações. Precisamos disseminar esses dados."

Os especialistas disseram que outro sinal de alerta para qual os novos governantes devem se atentar é o problema do inchaço do currículo no Ensino Básico. Ilona criticou os "penduricalhos na grade curricular", ou seja, a inserção de matérias extras, como filosofia.

Para Menezes, primeiro é preciso investir nas matérias básicas: "Em matemática, por exemplo. No ranking de 55 países do índice Pisa, o Brasil ficou em 52º." "No Congresso, todo dia tem alguém propondo uma nova disciplina", reclama Ramos. "A última foi de educação no trânsito."

Foco na universidade

As distorções no ensino superior também foram debatidas pelos participantes. Ilona lembrou que o Brasil tem muito mais gente se formando na área de humanidades. "O problema é que essas pessoas não estão trabalhando em suas áreas", disse a especialista. "Não adianta formarmos tantos psicólogos. O que o Brasil precisa é de mais médicos, engenheiros."

Menezes explica que, há alguns anos, quem tinha diploma universitário ganhava 2,5 vezes mais do que quem não tinha. Mas hoje essa diferença está caindo, indicando que parte do mercado está ficando saturada. Por isso, ele acredita ser preciso dar mais atenção à área de exatas.

Apesar das críticas e ressalvas feitas ao longo do debate, os três participantes mostraram-se otimistas com o País. "O tema educação está na moda, e a sociedade está mobilizada. É claro que há resistência entre muitos políticos, que têm uma visão de curto prazo e preferem construir pontes. Por isso é que a sociedade precisa cobrar", afirmou Menezes.

Ramos lembrou que, no início da ONG Todos pela Educação (em 2006), pesquisas mostravam educação em sexto lugar na lista de prioridades dos brasileiros. "Hoje ela aparece em primeiro ou segundo lugar."

O debate, realizado no Espaço Reserva Cultural, em São Paulo, foi o segundo da série "O Futuro do Brasil". O próximo acontece no dia 27 e tem como tema "O Brasil no Mundo - Política Externa e a Defesa do Meio Ambiente". Participam do encontro Ricardo Seitenfus, representante da OEA no Haiti, o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia, José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia da USP, e Sergio Besserman, professor de Economia da PUC-RJ.

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